Catolicismo - Acervo
Busca Google dentro do Site:
« »
<<       Página       >>


Foi para nós motivo de imenso júbilo a publicação do primeiro número de "Catolicismo". Abençoamos de coração e vivamente felicitamos ao nosso caríssimo Padre Antônio Ribeiro do Rosário e aos dedicados e brilhantes colaboradores desta grandiosa obra, que vem orientar com segurança nossos católicos numa época em que as circunstâncias e a anarquia intelectual tanto dificultam pensar bem, e por conseguinte, agir bem. A leitura deste mensário será muitíssimo salutar, e estamos certo de que ele vai contribuir poderosamente para a formação de uma mentalidade católica no nosso meio, de maneira a fazer com que os católicos pensem e sintam inteiramente segundo a Santa Igreja.

ANTONIO - Bispo de Campos


O SÉCULO DA GUERRA, DA MORTE E DO PECADO

Plinio Corrêa de Oliveira

Ensina Leão XIII, em sua Encíclica “Parvenu à la Vingt-Cinquième Année”, que o mundo contemporâneo, com seu progresso, suas crises, sua opulência e sua debilidade, é filho de suas influências não só diferentes, mas até contrárias. De um lado a civilização cristã, construída pela Igreja sobre a grande base das virtudes de Fé, Castidade, Disciplina e Heroísmo que os missionários da alta Idade Média implantaram na alma rude dos bárbaros, e, do outro lado, o mundo céptico, sensual, egoísta e revoltado, que nasceu com a heresia de Lutero, se afirmou com a Revolução Francesa, e procura hoje alcançar com o triunfo do comunismo a realização de uma ordem de coisas plenamente conforme às suas mais fundamentais disposições de alma.

Este pensamento profundo que deveria ser segundo me parece a ideia rectrix de todo o ensino de História Medieval Moderna e Contemporânea nos estabelecimentos católicos de grau secundário e universitário, esclarece o que há de mais essencial na grande crise de nossos dias. É impossível nos limites forçosamente restritos de um artigo, pôr em evidência todas verdades que ele contém. Ainda assim, procuremos, à luz dele, sistematizar algumas ideias gerais que auxiliarão o leitor a tomar posição perante os problemas atuais.

Hierarquia e Revolução

Comecemos por fixar algumas das características da doutrina Católica e da civilização cristã tal como esta última se realizou durante a Idade Média. Notemos antes de tudo que a concepção católica de Deus e da criação é essencial e profundamente hierárquica:

1 — Deus é um ser pessoal e transcendente, o Ser por excelência, que possui em si toda a vida e todas as perfeições. Os outros seres foram criados por Deus do nada, e voltariam ao nada se a todo o momento Deus não lhes conservasse a existência. Suas qualidades não são senão um reflexo das perfeições de Deus. Seu único fim é servir e dar glória a Deus. Entre Deus e as Criaturas há, pois, a mais profunda desigualdade que se possa imaginar.

2 — As criaturas por sua vez, são desiguais entre si. Os Anjos são puros espíritos. Abaixo deles estão os homens, ao mesmo tempo espirituais e materiais. Vêm depois, em ordem decrescente, os animais, os vegetais e os minerais. Em cada uma destas categorias, há ainda numerosas hierarquias. Para só falar dos seres inteligentes, os Anjos estão divididos em nove coros superpostos e desiguais entre si. Os homens reunidos no seio da Igreja, foram criados por Deus para graus diferentes de santidade, e, segundo sua correspondência a este plano divino, ocupam posições desiguais aos olhos de Deus, nas fileiras da Igreja gloriosa, padecente ou militante. Estas desigualdades se traduzem num culto. O homem presta culto de latria a Deus, de dulia aos Anjos e aos Santos.

3 — Dentro ainda destas desigualdades, não pode deixar de ser mencionada a pessoa divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, que enquanto Verbo Incriado “Deus de Deo, lumen de luminen”, é infinitamente superior a todas as criaturas e em sua humanidade é inferior por natureza aos Anjos, mas merece ser adorado pelos Anjos não só em sua divindade mas também em sua humanidade. E Nossa Senhora que, enquanto Mãe do Homem Deus, embora infinitamente inferior a Deus e inferior por natureza aos Anjos, é incomensuravelmente superior a estes aos olhos de Deus, como Mãe e como Santa, merecendo ser servida como rainha pelos Anjos!

4 — Por sua vez, na estrutura da Igreja Militante quantas desigualdades! A Igreja se divide em duas classes radicalmente diversas: a Hierárquica a quem cabe ensinar, governar e santificar, e o povo ao qual cabe ser governado, ser ensinado e ser santificado. Por mais nítida que seja esta desigualdade, ainda deixa lugar para outro elemento de diversificação e de escalonamento. Entre a Hierarquia e os fiéis, “intercala-se o estado de vida religiosa que originando-se da própria Igreja, tem sua razão de ser e seu valor em sua íntima coesão com o fim da Igreja, que consiste em levar todos os homens à santidade” ( Pio XII, alocução de 8-XII-1950, aos membros do I Congresso Internacional de Religiosos ).

5 — Como se não bastassem estas desigualdades na estrutura da Igreja, quantas diferenças de nível no âmago da própria Hierarquia, quer do ponto de vista da jurisdição, quer da honra: desde o simples minorista ao Diácono, e deste ao Presbítero, ao Cônego, ao Monsenhor, ao Bispo, ao Arcebispo, ao Patriarca, ao Cardeal e passemos sem maiores referências pelas diferenças entre os Cônegos honorários e catedráticos, as diversas modalidades de Monsenhorato, os Bispos titulares, auxiliares, coadjutores, diocesanos, os Arcebispos-Bispos e os Metropolitanos, os Cardeais Diáconos, Cardeais Presbíteros e Cardeais Bispos até o Papa, que reúne em si a plenitude do governo, do magistério, do sacerdócio e da honra, quantos graus, quantos matizes, que inexaurível riqueza de desigualdades!

6 — Chegamos aqui à pedra de toque desta parte de nossa exposição. Há uma virtude pela qual o homem ama a superioridade infinita de Deus, e a superioridade finita das criaturas que Deus constituiu acima dele como talento, formosura, poder, riqueza ou virtude: é a humildade. Esta virtude nos leva a sentir gáudio pelo que os outros têm a mais do que nós. Num mundo onde haja humildade, nada de mais amável e compreensível do que a hierarquia. Desde que a humildade cesse de existir, nada mais inevitável do que o ódio à hierarquia, a sede de nivelamento e consequentemente, a Revolução. Humildade e hierarquia; orgulho e Revolução são, pois, termos conexos. Daí o fato de que a primeira Revolução tenha sido o “Non serviam” do primeiro, do grande, do eterno orgulhoso.

7 — Explodindo no seio de uma Igreja hierárquica em todas as suas concepções, em toda a sua doutrina, em todo o seu ser, o que fez o protestantismo? A obra do orgulho e da revolta: nivelou todas as seitas, afirmando o livre exame, negaram o Magistério da Igreja, fazendo de cada homem o Papa de si mesmo. Por suas concepções sobre a Missa e o Sacerdócio, reduziram o clérigo a um mero delegado dos fiéis, e fizeram de cada fiel o seu próprio sacerdote. Na aparência, continuou a haver clérigos e leigos entre os protestantes: mas trata-se de uma diferença meramente acidental, e não como a que separa, na Igreja Católica, o ungido do Senhor do resto dos fiéis. Neste Clero assim diminuído em sua essência, os protestantes ainda exerceram a devastação de sua ação niveladora. Abolido o Papa, seitas houve que aboliram os Bispos e outras chegaram a prescindir praticamente dos Presbíteros. As ordens religiosas foram extintas. Até nas relações entre a Igreja Triunfante e a Igreja Militante entrou o furor igualitário, negou-se o culto dos Anjos e dos Santos, a Realeza de Maria sobre toda a criação.

8 — A sociedade civil estava organizada na Idade Média em moldes sensivelmente parecidos com a Igreja. No ápice, uma suprema cabeça, o Imperador Romano Alemão. Abaixo dele, os Reis, e sucessivamente os vários degraus da aristocracia feudal, e a plebe, dividida ela própria em vários níveis sociais e econômicos até o servo na lavoura, ou, na indústria, o aprendiz das corporações Conferido o direito da cidadania na Europa do protestantismo e, pois, ao espírito de revolta e nivelamento seria cabível que ele deixasse incólume no plano temporal um tipo de organização que acabava de derrubar na esfera espiritual? A causa mais profunda da Revolução Francesa está nisto. O “dogma” do livre exame teria de produzir cedo ou tarde o “dogma” da soberania popular. A queda do Sacro Império, a generalização do sistema republicano na Europa, a abolição dos privilégios da aristocracia, a introdução da igualdade absoluta na esfera política pelo sufrágio universal: tudo isto se fez sob o sopro de um misticismo político igualitário que é manifestamente filho do misticismo igualitário religioso dos protestantes.

9 — A única desigualdade que restou depois da Revolução Francesa foi a financeira. Qual o herdeiro da Revolução que estendesse para esta esfera o Nivelamento? O comunismo. No dia em que este vencesse, a obra niveladora de Lutero teria triunfado em toda a linha. Não haveria mais no mundo clérigos, nem nobres, nem patrões. Deus criou o universo hierarquizado. O demônio teria abolido a hierarquia na sociedade humana.

A Fé e a Revolução

A Fé, outro dos traços essenciais da alma medieval, é, ela também sob certo aspecto um ato de humildade. O homem aceita as verdades que Deus lhe revela, não porque as tenha descoberto pelas meras forças de sua razão ou de seus sentidos mas simplesmente porque Deus lhas revelou.

Claro está que o orgulho haveria de se revoltar contra a Revelação. Daí a recusa protestante de crer na Presença Real que os sentidos não percebem. Daí também a recusa de admitir no ensinamento do Papa uma infalibilidade ante a qual a razão tem que se dobrar. Daí, também, a formação de uma exegese bíblica cada vez mais racionalista, que acabou por negar a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a própria existência de um Deus pessoal. O protestantismo degenerou em deísmo, o deísmo em panteísmo. E o panteísmo o que é senão a afirmação de que tudo é Deus, ou seja, o triunfo da igualdade no cosmos? Pois se tudo é divino por essência, por natureza, tudo é essencialmente, naturalmente igual entre si, essencial e naturalmente igual a Deus.

É para o mare magno do panteísmo que deságuam igualmente todas as correntes da filosofia moderna, originadas direta ou indiretamente do racionalismo e ceticismo protestante, e que correm parelhas neste sentido com o pensamento reformista do qual nasceu o mundo moderno

Pureza e Revolução

Para completar este quadro, falta apenas dizer uma palavra sobre a castidade.

Segundo a doutrina católica, as relações entre os sexos só são lícitas no casamento. Este por sua vez, é monogâmico e indissolúvel. O estado de castidade perfeita é exigido dos Clérigos e dos Religiosos, e altamente louvável nos leigos. Esta doutrina é o triunfo da disciplina dos sentidos.

O protestantismo revolucionário por essência e, pois, inimigo de todos os freios, começou por abolir o celibato sacerdotal e religioso, e instituir o divórcio. Lutero chegou até a consentir na poligamia quando se tratasse de Príncipes. A Revolução Francesa iniciou o movimento de introdução do divórcio na legislação civil dos países católicos. Faltava dar um passo, de que Marx se incumbe resolutamente: abolir o próprio casamento. É o paroxismo da revolta dos sentidos contra toda a autoridade, todo o freio, toda a lei

O epílogo

Panteísmo, igualitarismo político, social e econômico absoluto, amor livre: eis o tríplice fim a que nos conduz um movimento velho de mais de quatro séculos.

Qual o papel preciso de nossa época neste trágico encadeamento de fatos?

O que caracteriza esta revolução de quatrocentos anos é o processo eminentemente gradual de seu desenvolvimento. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, foi ela preponderantemente religiosa: as instituições políticas continuavam mais ou menos intactas. De 1789 até fins do século XIX, foi ela essencialmente política. Daí por diante, invadiu a economia, único campo da vida social que lhe restava convulsionar. Paralelamente, dos séculos XVI a XVIII passou-se do Cristianismo para o Deísmo. O século XIX marcou o apogeu do ateísmo. O século XIX é propriamente o século do panteísmo. Por fim do século XVI ao século XIX foi a era de expansão do ideal divorcista. O século XX é o grande século da expansão do amor livre.

Esta grande Revolução não faz saltos. Ela levou quatrocentos anos para chegar até onde chegou. E forçoso é reconhecer que ela parece hoje bem próxima de sua meta

A grande luta

Este é o ponto que importa reter, se queremos fixar uma ideia exata a respeito dos dias em que vivemos. Todas as tendências niveladoras e revolucionárias dos séculos passados chegaram hoje ao sumum de sua exasperação. Não se pode ser mais radical na linha do orgulho e da revolução, do que proclamando a igualdade entre Deus e os homens, e a total igualdade dos homens no campo político, econômico e social. Não se pode levar mais longe a luxúria, do que instituindo o amor livre.

É certo que estas tendências não chegaram ainda a seu completo triunfo. Para começarmos pelo que é secundário ou até secundaríssimo, notemos antes de tudo que, mesmo fora da Igreja nem tudo, ainda é panteísmo, igualitarismo e amor livre. E, principalmente, observemos que aí está, em certo sentido mais frondosa do que nunca a Santa Igreja, no esplendor de sua santidade, de sua unidade, de sua catolicidade. Quatro séculos de uma investida ciclópica não impediram que em meio de reveses e dores sem nome ela continuasse a se dilatar.

Um choque entre a Revolução que não pode parar, não pode recuar, e a Igreja que ela apesar de tudo não conseguiu vencer, parece inevitável em nossos dias. Outrora, houve entrechoques sérios entre a Igreja e a Revolução, em várias etapas desta. Mas como o vírus revolucionário não tinha atingido o auge de seu paroxismo, foi possível conseguir acomodações, recuos, arranjos, sem ferir propriamente princípios. Hoje isto é impossível, porque a exasperação revolucionária levou as coisas a um ponto tal que não há outra possibilidade senão a luta de extermínio. Não será necessária muita perspicácia para discernir uma relação entre este conflito titânico e a grande era de guerras e convulsões que parece aproximar-se de nós? As hostes do Anticristo vermelho cobrem todo o território que vai da Indochina ao Elba. Partidos comunistas numerosos e organizados se agitam nas entranhas do mundo ocidental. Mais ainda: as instituições dos países ocidentais evoluem para o socialismo que outra coisa não é senão comunismo camuflado. A filosofia e a cultura do Ocidente tendem para o panteísmo.

Os costumes decadentes do Ocidente tendem para o amor livre. E — o que é ainda mais triste — dentro das próprias fileiras católicas as infiltrações deste espírito são tão profundas que exigiram que Pio XII tomasse uma série de medidas para preservar os fiéis contra este terrível mal.

Haveria, pois, muita ingenuidade em imaginar que tudo quanto é anticatólico está além do Elba.

Mas o certo é que a vitória dos vermelhos seria hoje um desastre para o Ocidente como foi para o Oriente a vitória de Mao-Tsé-Tung sobre Chang-Kai-Chec.

Guerra de religião

A guerra, a morte e o pecado estão se apresentando para devastar novamente o mundo, desta vez em proporções maiores do que nunca. Em 1513, representou-os o talento incomparável de Dürer sob a forma de um cavaleiro que parte para a guerra, revestido de armadura completa, e acompanhado da morte e do pecado, este último personificado em um unicórnio. A Europa já então imersa nas agitações que precederam a Pseudo-Reforma, se encaminhava para a era trágica das guerras religiosas, políticas e sociais que o protestantismo desencadeou.

A próxima guerra, sem ser explícita e diretamente uma guerra de Religião, afetará de tal maneira os mais sagrados interesses da Igreja que um verdadeiro católico não pode deixar de ver nela, principalmente o aspecto religioso. E o morticínio que se desencadeará será por certo incomparavelmente mais devastador do que os dos séculos anteriores.

Quem vencerá? A Igreja?

Não são róseas as nuvens que temos diante de nós. Mas uma certeza invencível nos anima, de que não só a Igreja — como é óbvio dada a promessa divina — não desaparecerá, mas que alcançará em nossos dias um triunfo maior do que o de Lepanto.

Como? Quando? O futuro a Deus pertence. Muita causa de tristeza e apreensão se nos depara ao olhar até mesmo para alguns irmãos na Fé. Ao calor da luta, é possível e até provável que tenhamos terríveis decepções. Mas é bem certo que o Espírito Santo continua a suscitar na Igreja admiráveis e indomáveis energias espirituais de Fé, pureza, obediência e dedicação, que no momento oportuno cobrirão mais uma vez de glória o nome cristão.

O século XX será, não só o século da grande luta, mas sobretudo o século do imenso triunfo.


LUÍS XVII: UMA QUESTÃO FASCINANTE

Mais uma vez voltam-se as vistas dos historiadores e dos políticos para o Vaticano. Agora, trata-se da provável solução de um dos problemas mais novelescos da História Contemporânea. Luís XVI e Maria Antonieta foram encarcerados na Torre do Templo durante a Revolução Francesa juntamente com seus dois filhos, o Delfim e Madame Royale, e uma irmã do Rei, Madame Elizabeth.

Sucessivamente foram decapitados, o Rei, a Rainha, e Madame Elizabeth. Madame Royale foi entregue pelos revolucionários à Áustria que a reclamava pelo fato de pertencer Maria Antonieta à Casa dos Habsburgos.

O que foi feito do Delfim? Pela morte de Luís XVI passaria ele a chamar-se, de direito, Luís XVII.

Os revolucionários continuaram a guardá-lo como precioso refém. Em determinado momento, anunciaram sua morte. Seria real? Seria imaginária? Neste último caso, onde teria ido viver o desditoso Luís XVII? Teria tido descendência? Qual? Estas questões suscitaram, e até hoje suscitam um profundo interesse emocional. Com efeito, inúmeras foram as pessoas que se comoveram com a figura romântica do jovem Príncipe atirado, sem culpa própria, do fastígio das grandezas humanas para a penumbra de uma existência cheia de mistério e de dor.

De outro lado, certos problemas políticos muito delicados, ficaram pendentes da questão.

Se Luís XVII sobreviveu com descendência, Luís XVIII e Carlos X, irmãos de Luís XVI, que reinaram na França depois de Napoleão, não foram Reis legítimos; e nem o Conde de Paris, atual Chefe da Casa Real de França seria o autêntico pretendente ao trono.

Por fim, um interesse, por assim dizer, policial, vem juntar-se ao assunto. Durante o reinado de Luís XVIII e Carlos X vários indivíduos, entre os quais o mais famoso foi Naundorf, se apresentaram à Duquesa d'Angoulême (título usado pela filha de Luís XVI em virtude de seu casamento com o Duque d'Angoulême, filho de Carlos X), alegando ser o autêntico Luís XVII. A averiguação dos prós e dos contras existentes nas alegações dos vários candidatos deu origem a problemas e a incertezas que deleitariam qualquer amador de modernas aventuras policiais.

Ao que parece, o assunto vai ser elucidado dentro de poucos meses. Com efeito, será aberto a 13 de Outubro próximo, no Quai d'Orsay, Ministério das Relações Exteriores da França, um pequeno cofre vermelho, lacrado com o sinete pontifício, que contém o testamento da Duquesa d'Angoulême, falecida em Praga a 13 de Outubro de 1851. Pouco antes de morrer, a Princesa ditou seu testamento ao Núncio Apostólico, Mons. Viale, confiando-lhe a guarda do precioso documento, sob a condição de que este só fosse aberto depois de cem anos. Quando da publicação do testamento na França, historiadores e políticos se voltarão, provavelmente, e com avidez, para os arquivos do Vaticano à procura de novos informes sobre o assunto nos relatórios do Núncio Viale.

Segundo revelações privadas de várias pessoas mortas em odor de santidade, ou canonizadas pela Igreja, como a Beata Taigi, parece que um descendente de Luís XVII teria um grande papel a representar em nossa época. A Igreja, porém, deixa aos fieis liberdade de opinião sobre revelações desta natureza.

______________________________

O BOOMERANG DO SR. VELASCO

Cunha Alvarenga

Conta-se a anedota de um indígena australiano que fez para si um "boomerang" novo, não conseguindo, porém jogar fora o velho, por mais que se esforçasse.

O mesmo se dá com o Sr. Domingos Velasco, no seu afã de demonstrar ser o socialismo compatível com o catolicismo . Quando se pensa que ele nos vai oferecer um argumento novo, eis que retorna às suas mãos o velho "boomerang" bem nosso conhecido. É assim que o representante do Partido Socialista Brasileiro no Congresso Nacional reaparece no suplemento literário de 3 de dezembro último do "Diário de Notícias" do Rio, fazendo esforços desesperados para ser original, mas apenas repetindo seus surrados chavões.

Um homem que se esqueceu das "frentes populares"

Insiste em afirmar que a resistência ao comunismo somente é levada a cabo com êxito nos países dominados pelos partidos socialistas, esquecendo-se de exemplos históricos bem recentes, como o da Espanha, da Itália e da França, em que socialistas e comunistas se deram as mãos para assaltar o poder. Socialistas e comunistas se colocam em terrenos opostos, ou se abraçam com camaradagem, não por razões ideológicas, pois ambos tendem para o mesmo fim revolucionário, mas por pura imposição tática ou por conveniência política. Que garantia nos dá o Sr. Velasco, à vista desse....

[NR: truncamento do texto na mudança de página].

Afirma o sr. Velasco ser socialista o Partido Trabalhista britânico, como todo mundo sabe, mas ao mesmo tempo tenta conciliá-lo com o catolicismo. Tratar-se-ia de um socialismo de tipo todo especial, que não hostilizaria nem a Deus nem aos princípios da civilização cristã.

Já houve quem o dissesse, sem que o sr. Velasco desse ao argumento resposta conveniente: — Será que as palavras tão claras de Pio XI na "Quadragesimo Anno" não são aplicáveis às ilhas britânicas ou onde quer que se confunda o socialismo com as reivindicações operarias?

O socialismo atenuado

Outro velho argumento do sr. Velasco diz respeito à "invencionice", segundo diz ele, de que "o socialismo democrático pretende abolir a propriedade privada e transferi-la para o Estado". Ora, bem sabem os católicos lúcidos que o socialismo ainda é condenado pela Igreja, mesmo quando esconde as unhas, como no caso de rejeitar a luta de classes e a supressão de propriedade privada . "Que dizer no caso em que o socialismo de tal maneira se modere e se emende no tocante à luta de classe e à propriedade privada, que não se lhe possa repreender nada nestes pontos? Por acaso com isso abdicou de sua natureza anticristã?" indaga Pio XI. E responde o Pontífice da Ação Católica: — "São muitos os católicos que, sabendo perfeitamente que nunca podem ser abandonados os princípios católicos nem ser suprimidos, parecem volver seus olhos a esta Santa Sé e pedir com instância que resolvamos se esse socialismo está suficientemente purgado de suas falsas doutrinas, para que sem sacrificar nenhum princípio cristão possa ser admitido e em certo modo batizado". Vem a seguir a palavra de ordem solene da Santa Igreja: — "Para satisfazer, segundo nossa paternal solicitude, a estes desejos, dizemos: — o socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, quer como "ação", se continua sendo verdadeiramente socialismo, mesmo depois de suas concessões à verdade e à justiça, de que fizemos menção, é incompatível com os dogmas da Igreja Católica, visto que sua maneira de conceber a sociedade se opõe diametralmente à verdade cristã" (Encíclica "Quadragesimo Anno").

Socialização, nacionalização, estatização

Diz o sr. Velasco que "socializar uma empresa não é dá-la ao Estado, mas entregá-la aos que nela trabalham". Mas quem vai entregá-la aos operários, não é o próprio Estado através de medidas legislativas? E como se pode conceber essa transferência sem violência ou injustiça, mesmo no caso de desapropriações e de indenizações ressalvados os casos sempre excepcionais, de utilidade pública, arbitradas por quem se acha armado por meio de leis e decretos, contra a vontade e por cima da cabeça dos legítimos proprietários?

A copropriedade e a cogestão das empresas não constituem um direito do trabalhador que deva ser imposto por medidas legais e coercitivas, como bem acentuou o Santo Padre Pio XII na alocução que proferiu a 3 de junho de 1950 perante os membros do Congresso Internacional de Estudos Sociais em Roma. Com isto, não se quer desconhecer a utilidade do que até aqui tem sido realizado no sentido do contrato de sociedade, de diversas maneiras, com vantagem comum de operários e de proprietários. Mas estamos em presença de medida facultativa de que as empresas privadas podem lançar mão de sua livre e espontânea vontade, e não de medida coercitiva, imposta como "estrutura de base", como quer o sr. Velasco. É contra o direito natural essa reforma de estrutura operada artificialmente por vias legislativas, sobretudo quando se tem em vista que "a economia — como qualquer outro ramo de atividade humana — não é de sua natureza uma instituição do Estado; pelo contrário, é o produto vivo da livre iniciativa dos indivíduos e de seus grupos livremente organizados" (Pio XII em alocução aos Delegados da União Internacional das Associações Pastorais Católicas, de 7 de maio de 1949).

Ignorância ou má fé

Há um ponto do arrazoado do sr. Velasco em que claramente transparece sua ignorância ou má fé. É quando declara que "a última vez que um Papa se referiu ao socialismo foi, há vinte anos, na Encíclica "Quadragesimo Anno". Ali, Sua Santidade Pio XI condenou o socialismo marxista, a doutrina materialista e não o programa econômico do socialismo que ele, ao contrário, julgou muito semelhante à doutrina social da Igreja. Depois desse pronunciamento, aquele Papa falou várias vezes, como dezenas de vezes tem falado o seu sucessor, o Papa Pio XII, sem mais aludirem ao socialismo, ao seu programa econômico ou às suas atividades políticas, porque a Igreja não vive na ignorância dos fatos que estão ocorrendo, em todo o mundo, inclusive na própria Itália, às portas do Vaticano".

Em primeiro lugar chega a ser ridículo dizer-se que desde a "Quadragesimo Anno" os Papas não mais se referiram ao socialismo. O próprio Pio XI, algumas semanas após a publicação daquela Encíclica, denunciava ao mundo, pela "Non Abbiamo Bisogno", a proteção dissimulada que o fascismo dispensava ao socialismo. E como se fosse necessário renovar sempre a condenação de um certo erro, para que tal condenação continue de pé. Mas apesar de estar bem condenado, pela "Quadragesimo Anno", não apenas o socialismo marxista e materialista, como quer o sr. Velasco, mas também o socialismo que apenas pretende ser mero sistema econômico, o Santo Padre Pio XII, gloriosamente reinante, tem reiterado essa condenação em mais de uma feita. Assim é que na Alocução de 11 de março de 1945, sobre o Sindicalismo Cristão, o Soberano Pontífice condena o fazer-se "daquilo que hoje se chama nacionalização ou socialização dos bens e democratização da economia, uma arma de combate e de luta contra o doador privado de trabalho enquanto tal". Como se vê, trata-se da condenação de uma medida puramente econômica, sem nenhuma referência a marxismo ou a materialismo.

Pio XII e a mentalidade socialista

Mais ainda. Em sua alocução de 3 de junho de 1950, atrás citada, o Santo Padre Pio XII, ao mostrar o perigo de que a classe operária caia por sua vez nos erros do capital, os quais consistem em subtrair, principalmente nas grandes empresas, a disposição dos meios de produção à responsabilidade pessoal do proprietário privado (individuo ou sociedade) para a colocar sob a responsabilidade de formas anônimas coletivas, acrescenta: "Uma mentalidade socialista acomodar-se-ia muito bem a semelhante situação. Mas esta não deixaria de causar real inquietação a quem sabe a importância fundamental do direito à propriedade privada para favorecer iniciativas e fixar responsabilidades em matéria de economia". E mostra o Santo Padre como igual perigo exige que os assalariados de uma empresa tenham direito de cogerência econômica", pois "nem a natureza do contrato do trabalho, nem a natureza da empresa, comportam necessariamente, por si mesmas, direito semelhante". E se não se trata de um direito, mas apenas de uma solução que pode oferecer vantagens em determinadas condições, como se justifica a tal mudança de estrutura, mediante entrega da empresa aos que nela trabalham, como faz parte do programa político do sr. Velasco? Nem se diga que tal socialismo "democrático" é legitimo, por se basear no sufrágio universal que guinda aos parlamentos as eventuais maiorias socialistas. O sufrágio popular não pode transformar um ato imoral em ato honesto e válido e não confere infalibilidade aos legisladores. A racionar-se desse modo, chegaríamos à conclusão de que foi honesto, válido e perfeito o gesto do povo judaico, escolhendo, por sufrágio direto, Barrabás a Cristo, indultando a um sedicioso, salteador e assassino e condenando o justo por excelência.

A Igreja não pede auxílio ao socialismo

Não se nega a necessidade de uma reforma em todos os setores da vida social hodierna, inclusive no que diz respeito à economia. Não se pode, porém, combater um erro com outro erro pior ainda. Eis por que disse Pio XI que Leão XIII "não pediu auxílio nem ao liberalismo nem ao socialismo; o primeiro se havia mostrado completamente impotente para dirimir legitimamente a questão social, e o segundo propõe um remédio que, sendo muito pior que o próprio mal, lançaria a sociedade humana em maiores perigos". (Enc. "Quadragésimo Anno").

O mal do socialismo é justamente considerar apenas o aspecto econômico, ou, como diz Pio XI, "pensam (os socialistas) que a abundância de bens que cada um há de receber nesse sistema para empregá-lo a seu prazer nas comodidades e necessidades da vida, facilmente compensa a diminuição da dignidade humana, à qual se chega no processo "socializado" da produção". E' preciso que o sr. Velasco se compenetre de uma verdade muito simples: além da miséria física, temos também de considerar a miséria moral. Em um campo de concentração pode haver comida farta, vestuário decente, diversões e o mais que se possa desejar quanto ao conforto material. Cerceada, porém, a liberdade, qual o verdadeiro filho de Deus que não sofrerá ali todos os horrores da miséria moral, do homem que vê sua dignidade menosprezada e amesquinhada?

A mentalidade socialista, criticada por Pio XII, é essa mesma mentalidade concentracionária, que quer transformar o mundo em um imenso campo de Dachau, tudo racionado, científico, sujeito a licença prévia, à padronização burocrática. Mundo em que a realidade social é substituída por um grande fichário e em que a volta do trabalho forçado será uma fatalidade inevitável.

Que o sr. Velasco desista de sua inglória e mesmo suspeita tarefa de iludir a boa fé e ingenuidade dos católicos pouco esclarecidos, capacitando-se do que tão claramente diz Pio XI quanto a ser o socialismo inconciliável com o verdadeiro cristianismo. E que esse socialismo democrático ou mitigado é até mais perigoso e apto para enganar aos incautos: "suave veneno, que sorvem avidamente muitos a quem jamais um socialismo declarado podia haver enganado." (Pio XI na Encíclica "Quadragésimo Anno").



Advertência

Este texto, reconhecido pelo processo OCR, não passou por revisão e pode conter erros de digitação.
Sua transcrição parcial ou total está autorizada, desde que seja citada a fonte e o texto conferido com o da imagem original.

Agradecemos desde já reportar-nos erros de digitação, através do
Fale conosco


CRÉDITOS
© Copyright 1951 -

Editora Padre Belchior de Pontes Ltda.

Diretor
Paulo Corrêa de Brito Filho

Jornalista Responsável
Nelson Ramos Barreto
Registro na DRT/DF
sob o nº 3116

Administração
Rua Javaés, 681
1° Andar
Bairro Bom Retiro
CEP 01130-010
São Paulo- SP

SAC
(11) 3331 4522
(11) 3331-4790
(11) 2843-9487

Correspondência
Caixa Postal 707
CEP 01031-970
São Paulo-SP

E-mail:
catolicismo@terra.com.br

ISSN 0102-8502

 HOME 
 
TOPO
+ZOOM
-ZOOM
Home Page
HOME
Ir ao texto da matéria
TEXTO