Catolicismo - Acervo
Busca Google dentro do Site:
«
»
<<       Página       >>


MODERAÇÃO, O GRANDE EXAGERO DE NOSSO SÉCULO

Plinio Corrêa de Oliveira

A Fortaleza da Fé, miniatura do séc. XV. A Igreja, representada por sua Hierarquia, defende a Fortaleza da Fé contra o assalto dos herejes e pagãos. Esta delicada obra de arte medieval exprime a luta constante entre a Cidade de Deus e a Cidade do Demônio, entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Os “moderantistas” atuais abstraem desse aspecto militante da vida da Igreja, para conceber as relações entre fiéis e infiéis – sob pretexto de equilíbrio, eqüidistância, caridade – à maneira “tolerante” da mentalidade rotariana.

* * *

Resumamos em duas palavras nosso artigo anterior.

O exagero é um defeito que pode corromper qualquer virtude. O amor à pátria, por exemplo, é uma qualidade, mas a estatolatria é um defeito. A justiça também é uma qualidade, mas o exagero pode transformá-la em dureza, e até em crueldade. A intransigência é uma virtude, mas, levada ao excesso, pode chegar ao sectarismo. E assim por diante.

Ora, a moderação também é uma qualidade. Logo, é susceptível de ser deformada pelo exagero. Ser “moderadamente moderado” é bom. Ser exageradamente moderado é mau. “Corruptio optimi péssima”. A moderação é uma alta, uma altíssima virtude. Precisamente por isto, suas deformações são muito perigosas. Em princípio, é pois muito importante conhecer os exageros da moderação, para os prevenir ou remediar.

A esta razão doutrinária válida para todos os tempos e todos os lugares soma-se - para recomendar um estudo do assunto nestes primórdios de ano - um motivo circunstancial dos mais ponderáveis. O homem de nossos dias é essencialmente exagerado. Durante decênios inteiros sopraram sobre ele os ventos desencadeados das propagandas políticas e sociais mais extremadas. Ele tomou gosto pelo excesso. Depois da guerra tem-se feito em vários setores um esforço muito oportuno para lhe incutir alguma moderação. Sucedeu então um fenômeno curioso, mas explicável: viciado no exagero, o homem moderno começou a exagerar a moderação. Daí, pelo menos em parte, a voga de que gozam agora muitas atitudes e modos de pensar do início deste século que há dez ou quinze anos atrás teriam sido apontadas como manifestamente liberais.

Ora, nada poderia comprometer mais a fundo a causa de uma santa e sadia moderação, do que um tal desvio. Apontar, analisar, pôr a nu este desvio em algumas de suas incontáveis manifestações é pois serviço útil e urgente, na luta contra o exagero.

Há três princípios que o hipermoderantismo leva ao excesso. Tolerante, transigente, quiçá displicente em tudo, ele receia o excesso em todos os campos. Mas nestes três princípios ele é intransigente como um inquisidor de legenda, fanático como um maometano, meticuloso como um fariseu. São três princípios excelentes:

1) - a norma de Santo Agostinho, “odiai o erro e amai os que erram”;

2) - “a virtude está no meio termo”;

3) - a máxima de S. Francisco de Sales: “com uma colherinha de mel se atraem mais moscas do que com um tonel de vinagre”.

Daí decorre toda uma série de posições unilaterais que redundam em liberalismo mais ou menos declarado.

O que o hipermoderantismo tem de característico, é que leva praticamente a uma posição de “terceira força” entre a verdade e o erro, o bem e o mal. Se num extremo está a Cidade de Deus, cujos filhos procuram difundir por todas as formas o bem e a verdade, se no outro extremo está a Cidade do Demônio, cujos soldados procuram difundir o erro e o mal sob todas as suas formas, é claro que a luta entre estas duas Cidades é inevitável. Pois duas forças agindo num mesmo campo em sentidos opostos têm de se combater necessariamente. De onde não pode haver uma difusão da verdade e do bem que não implique num combate ao erro e ao mal, e ainda aos fautores do erro e do mal. Reciprocamente, não pode haver difusão do erro e do mal que não acarrete combate à verdade, ao bem, aos que difundem a verdade, aos que trabalham pelo bem. É precisamente o que não querem ver os hipermoderantistas quando levam ao exagero a primeira máxima. Imaginam que, atacando idéias e só idéias, podem chegar à vitória. Como se as idéias fossem entes concretos, susceptíveis de ser atacados e derrotados. As idéias existem na mente dos que as professam. Derrotá-las é converter os seus adeptos, ou, caso estes se obstinem, apontá-los, desmascará-los, privá-los de qualquer influência.

Mas o “moderantista” exagerado não vê nada disto. Resolvido a atacar as idéias só em tese, ele parte em guerra contra dois adversários:

a) as idéias dos anti-católicos;

b) os católicos que levam o combate ao campo dos fatos concretos.

Entre uns e outros, ele atua pois como uma genuína “terceira força”.

Bem entendido, o “moderantista” da “terceira força” aplica seus princípios também no caso de luta entre católicos dóceis à Santa Sé, e os que professam os erros que o Santo Padre gloriosamente reinante condenou nas encíclicas “Mystici Corporis” e “Mediator Dei”, na constituição “Bis Saeculari” e na encíclica “Humani Generis”. Ele quer atacar só as doutrinas. Sempre que se trata de dizer que alguém errou, sempre que se trata de afastar alguém de um cargo ou situação em que sua influência poderia ser perigosa, o moderantista está em desacordo. É que isto seria faltar com a caridade, pois transporta a luta, do campo das idéias, para o campo das pessoas.

Em linhas gerais, é este o católico da “terceira força”. Mas ele tem uma característica muito curiosa. É que a sábia máxima de Santo Agostinho, ele a aplica só em uma direção. Quando trata com os que professam doutrinas velada ou abertamente erradas,

(continua)



Advertência

Este texto, reconhecido pelo processo OCR, não passou por revisão e pode conter erros de digitação.
Sua transcrição parcial ou total está autorizada, desde que seja citada a fonte e o texto conferido com o da imagem original.

Agradecemos desde já reportar-nos erros de digitação, através do
Fale conosco


CRÉDITOS
© Copyright 1951 -

Editora Padre Belchior de Pontes Ltda.

Diretor
Paulo Corrêa de Brito Filho

Jornalista Responsável
Nelson Ramos Barreto
Registro na DRT/DF
sob o nº 3116

Administração
Rua Javaés, 681
1° Andar
Bairro Bom Retiro
CEP 01130-010
São Paulo- SP

SAC
(11) 3331 4522
(11) 3331-4790
(11) 2843-9487

Correspondência
Caixa Postal 707
CEP 01031-970
São Paulo-SP

E-mail:
catolicismo@terra.com.br

ISSN 0102-8502

 HOME 
 
TOPO
+ZOOM
-ZOOM
Home Page
HOME
Ir ao texto da matéria
TEXTO