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CONSIDERAÇÕES SOBRE A CULTURA CATÓLICA

Plinio Corrêa de Oliveira

Atendendo ao pedido constante de carta que publicamos em outro local, reproduzimos a seguir a conferência que nosso colaborador Prof. Dr. Plinio Corrêa de Oliveira preferiu a 13 de novembro do ano findo no Seminário Central de S. Leopoldo, Rio Grande do Sul, a convite do Revmo. Pe. Leonardo Fritzen, S. J., Reitor daquela Casa:

Agradeço emocionado, a saudação amável do ilustre Reitor desta Casa, e o acolhimento afetuoso que de vós estou recebendo.

A atmosfera que aqui se respira evoca anos saudosos e fecundos de minha vida, os tempos já distantes em que cursava o Colégio S. Luiz, de São Paulo. Passando quase todo o meu curso secundário em convívio com a Companhia de Jesus, meu espírito se voltou desde cedo para a consideração dos valores espirituais que Santo Inácio legou à sua milícia, minhas primeiras lutas espirituais foram travadas sob a influência dos Exercícios, abriu-se na Congregação a minha alma para a piedade mariana, entusiasmou-se meu coração no estudo do que pela Igreja fizeram os Santos que na Companhia floresceram, e alentou-se minha vontade na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que Jesuítas eminentes haviam propagado por todo o Brasil. Posso dizer com sinceridade que quanto mais vivo, tanto mais se radica em mim a veneração a todos estes valores. Compreendereis pois facilmente, quanto me sinto tocado num ambiente como este, em que me é fácil discernir nos mestres, nos alunos, por assim dizer no ar e nos próprios muros aquela influência formativa que modelou em seus albores e em suas camadas mais internas o meu próprio espírito.

Ademais, estou aqui num Seminário, e considerando-vos, a vós, jovens, que por vocação divina ireis servir a Santa Igreja nas fileiras sagradas do Clero, chamados alguns para a vida religiosa em Institutos beneméritos, e a grande maioria para as nobres lides do Clero secular, não posso deixar de me sentir empolgado. Como bem acentuou o Revmo. Pe. Reitor, em vossas fileiras está representado quase todo o Brasil, desde as margens do Amazonas até as cochilhas gloriosas deste Rio Grande, passando pelo indômito Pernambuco, terra de meus maiores, e pelo São Paulo invicto, minha terra natal. Deixastes lares, esperanças terrenas, prazeres, riquezas talvez, para vos preparardes para o serviço de Deus. Vosso sacrifício é grande por certo, mas vossa missão ainda maior. Nosso país vive em circunstâncias que colocam nas mãos do Clero - muito mais nitidamente do que em outras épocas - não só o destino eterno de nossos contemporâneos, mas de certo modo o de muitas e muitas gerações vindouras, e ipso facto a grandeza da pátria brasileira nos séculos que estão por vir. Não é preciso dizer mais, para vos manifestar com quanta simpatia vos vejo aqui reunidos, ávidos de ouvir uma palavra para a qual a generosidade do Pe. Reitor suscitou uma expectativa imerecida. Acabo de me referir à grandeza de vossa vocação, excelsa em todos os tempos mas tão particularmente grande nos dias que correm. Isto me conduz naturalmente ao tema que foi proposto para minha palestra, a cultura católica. Comecemos pois a considerá-lo.

O que é a cultura? A esta pergunta, têm sido dadas respostas bem diversas, inspiradas umas na filologia, outras em sistemas filosóficos ou sociais de toda sorte. Tal é o cipoal de contradições que em torno deste vocábulo, e outro conexo, que é “civilização”, se estabeleceu, que congressos internacionais de sábios e professores se têm especialmente reunido para lhes definir o conteúdo. Como sói acontecer, de tanta discussão não nasceu a luz...

Não seria possível na exiguidade desta palestra enunciar as teses e os argumentos das diversas correntes, afirmar por sua vez nossa tese e justificá-la, para tratar depois da cultura católica. Entretanto, podemos considerar seriamente o assunto, tomando a palavra “cultura” nos mil significados de que ela se reveste na linguagem de tantos povos, classes sociais e escolas de pensamento, e começando por mostrar que em todas estas acepções a “cultura” contém sempre um elemento basilar invariável, isto é, o aprimoramento do espírito humano.

No âmago da noção de aprimoramento, está a idéia de que todo homem tem em seu espírito qualidades susceptíveis de desenvolvimento, e defeitos passíveis de repressão. O aprimoramento tem pois dois aspectos: um, positivo, em que significa crescimento do que é bom, e outro negativo, ou seja, a poda do que é mau.

Muitos modos de pensar e de sentir correntes, a respeito da cultura, se explicam à vista deste princípio. Assim, não temos dúvida em reconhecer o caráter de instituição cultural a uma universidade, a uma escola de música ou teatro, ou mesmo a uma sociedade destinada ao fomento do jogo de xadrez ou da filatelia. É que estas entidades ou grupos sociais têm como objetivo direto o aprimoramento do espírito, ou pelo menos visam fins que de si aprimoram o espírito. Entretanto, podemos conceber uma universidade, ou outra instituição cultural, que trabalhe virtualmente contra a cultura, o que se dá quando, pelo efeito de erros de qualquer ordem, sua ação deforma os espíritos. Poder-se-ia por exemplo fazer esta afirmação a propósito de certas escolas que, levadas de um entusiasmo exagerado pela técnica, incutem em seus alunos o desprezo por tudo quanto é filosófico, ou artístico. Um espírito que adora a mecânica como valor supremo e faz dela o único firmamento da alma, nega toda certeza que não

(continua)

Cultura é essencialmente conhecimento e amor da Verdade , do Bem e da Beleza. Mas por isto mesmo é também ódio ao erro, ao mal, ao feio. É pois impossível fazer obra cultural séria que não tenha um e outro aspecto. A Igreja ensina a Verdade, o Bem, e forma as almas para o Belo. Por isto mesmo combate implacavelmente o erro e o mal, e é incompatível com o feio. Neste quadro de Berruguete (sec. XV), S. Domingos faz queimar livros infectados da heresia albigense.



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