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O REINO DE MARIA, REALIZAÇÃO DO MUNDO MELHOR

Plinio Corrêa de Oliveira

O XXVI Congresso Eucarístico Internacional que se realizará neste mês no Rio de Janeiro constituirá uma admirável expressão de pujança religiosa. É o que desde já se pode prever com fundamento no êxito invulgar dos Congressos locais que, por iniciativa dos respectivos Antístites, têm tido lugar nas várias Dioceses de nosso imenso território.

Têm sido de proporções idênticas às que se prevêem para o próximo Congresso os que o antecederam em outros países. O XXXV Congresso Eucarístico Internacional de Barcelona, por exemplo, foi uma apoteose que empolgou todo o orbe católico.

Isto prova que nas profundezas das massas humanas do Brasil e do mundo todo, sopra em nossos dias um poderoso anseio por uma existência mais espiritual, mais digna, mais ordenada. Os católicos sabem que tal anseio não se pode realizar senão pelo Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. E assim voltam-se eles para o Santíssimo Sacramento, com todo o ímpeto de seus anelos, de sua esperança, de sua adoração.

Mas a devoção ao Santíssimo Sacramento não pode ser dissociada de dois outros elementos essenciais da piedade cristã, isto é, a devoção a Nossa Senhora e à Sagrada Hierarquia.

A Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida será muito visitada nessa ocasião, e é natural. Pois a Eucaristia acende em todos os corações a chama da devoção mariana. E a Sagrada Hierarquia será objeto das mais vivas manifestações de respeito e amor. Pois, se Jesus está realmente presente, no Sacramento do Altar, Ele está representado na terra pela Sagrada Hierarquia. Assim, as vistas dos fiéis se voltam nestes dias com um amor todo particular, para os seus Pastores, para todo o venerando Episcopado nacional, para os três eminentes Purpurados que nas fileiras deste refulgem, os Emmos. Revmos. Srs. D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, Arcebispo de São Paulo, D. Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro sob cuja égide e mediante cujo impulso eficiente e fecundo se realizará o Congresso, e D. Augusto Álvaro da Silva, Arcebispo de S. Salvador da Bahia e Primaz do Brasil.

Mas a Sagrada Hierarquia terá entre nós uma representação ainda mais ampla, pela presença de tantos Cardeais, Arcebispos e Bispos. Para todos eles se voltará o ardor de nosso entusiasmo e a homenagem de nossa veneração.

Entretanto, é numa pessoa que estes sentimentos culminarão, isto é, no Emmo. Revmo. Sr. Cardeal Legado, Dom Bento Aloisi Masella, augusto e generoso amigo do Brasil, que representará entre nós a Pessoa sagrada, a autoridade suprema, o ascendente moral incomparável do Vigário de Jesus Cristo, o Santo Padre Pio XII, gloriosamente reinante.

O Sumo Pontífice auscultou a fundo os anelos das multidões, sentiu bem quanto elas aspiram a uma nova ordem, e as conclamou para a realização desta nova ordem, o Mundo Melhor.

Ora, a essência da idéia do Mundo Melhor é a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. E a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é a Realeza de Maria.

Queremos pois neste número continuar ( ) a estudar a figura de um Santo que Pio XII elevou à honra dos altares, o qual foi a um tempo profeta do Reino de Maria e em certo sentido mártir em prol deste Reino. É S. Luiz Maria Grignion de Montfort.

S. Luiz Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Durante os 43 anos de sua existência, a Europa viveu a última fase de uma de suas épocas mais brilhantes. O Ancien Régime atravessava um período de grande estabilidade, que não se rompeu senão em 1789 com a Revolução “bruscamente” deflagrada na França. A não considerar as coisas senão em sua superfície, duas forças pareciam principalmente asseguradas de um tranqüilo e glorioso porvir, a Religião e a Monarquia, garantidas uma e outra pelo pulso firme dos Bourbons e dos Habsburg que governavam então quase todo o orbe católico. Desta sensação de esplêndida segurança, participavam não só Reis, príncipes e fidalgos, como muitos Bispos, teólogos e superiores religiosos. Uma atmosfera de distensão triunfante ganhara sobretudo a França, provada é certo pelos revezes militares do ocaso de Luiz XIV, mas largamente compensada pela estabilidade das instituições, pela riqueza natural do país, pelo brilho de sua atmosfera cultural e social, e pela “douceur de vivre” em que estava como que imersa a existência quotidiana.

É de se imaginar, pois, que surpresa, que estranheza, que desprezo certas altas personalidades experimentaram ao saber que nas profundezas da Bretanha, do Poitou e do Aunis, um Sacerdote obscuro, chamado Luiz Grignion de Montfort de eloquência arrebatadora mas popular, agitava as cidades e os campos predizendo para a França um terrível e estranho porvir. Eco expressivo destas predições, encontramo-lo nestas palavras de fogo de sua oração pedindo a Deus missionários para sua Companhia:

“Vossa divina Fé é transgredida; vosso Evangelho desprezado; abandonada vossa Religião; torrentes de iniqüidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre?”

“Vede, Senhor Deus dos exércitos, os capitães que formam companhias completas, os potentados que ajuntam numerosos exércitos, os navegadores que reúnem frotas inteiras, os mercadores que se congregam em grande número nos mercados e nas feiras! Quantos bandidos, ímpios, ébrios e libertinos se unem em massa contra Vós todos os dias, e isto com tanta facilidade e prontidão! Basta soltar um assobio, rufar um tambor, mostrar a ponta embotada de uma espada, prometer um ramo seco de louros, oferecer um pedaço de terra amarela ou branca; basta, em poucas palavras, uma fumaça de honra, um interesse de nada, um mesquinho prazer animal que se tem em vista, para num instante reunir os bandidos, ajuntar os soldados, congregar os batalhões, convocar os mercadores, encher as casas e os mercados, e cobrir a terra e o mar de uma multidão inumerável de réprobos, que, embora divididos todos entre si, ou pelo afastamento dos lugares, ou pela diversidade dos gênios, ou por seus próprios interesses, se unem entretanto, e se ligam até à morte, para fazer-Vos guerra sob o estandarte e sob o comando do demônio”.

“Ah! permiti que brade por toda a parte: Fogo! fogo! fogo! Socorro! socorro! socorro! Fogo na casa de Deus! fogo nas almas! fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! socorro, que degolam nossos filhos! socorro, que apunhalam nosso bom Pai”.

Ora, entre tantos estadistas triunfantes, entre tantos Prelados otimistas, ninguém teve a clara e profunda visão de S. Luiz Maria. Por detrás das aparências de esplêndida tranqüilidade do mundo de então, uma sede de prazer devoradora, um naturalismo crescente, uma tendência cada vez mais acentuada de domínio do Estado sobre a Igreja, do profano sobre o religioso, a efervescência do galicanismo, do jansenismo, a ação corrosiva do cartesianismo, preparavam os espíritos para imensas transformações. Ainda em vida de S. Luiz Maria, Voltaire e Rousseau nasceram. Antes de terminar o século, as Ordens religiosas estavam fechadas na França, os Bispos fiéis a Roma expulsos, uma atriz era adorada como deusa Razão em Notre Dame. Na guilhotina, corria abundante o sangue dos mártires. E se a História não pode deixar de ser severa com os que não previram a tormenta, não pode recusar sua homenagem ao homem de Deus que tão clarividente se mostrou.

Quais as virtudes que estão na base de uma tão excepcional clarividência?

Antes de tudo, um grande zelo, um implacável amor à verdade.

Quando se ama a Fé, quando se deseja ter os dois pés bem cravados na realidade objetiva, quando se odeiam as ilusões e as quimeras, a inteligência não se sacia em ver as coisas por alto, ou fragmentariamente, e a vontade não se contenta com esforços esporádicos em momentos de fervor. Um católico que ama verdadeiramente a Igreja quer saber quais são os grandes

(continua)



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