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COVADONGA, MONUMENTO DE UMA EPOPEIA NEGATIVISTA?

Plinio Corrêa de Oliveira

Na edição de fevereiro de Catolicismo, publicamos um artigo sobre o anticomunismo, sugerido pela mensagem impressionante, dirigida aos Sacerdotes do mundo inteiro pelo Exmo. Revmo. Mons. Joseph Gawlina, Arcebispo Titular de Madito, e Diretor da Federação Mundial das Congregações Marianas.

Naquele artigo, tivemos ocasião de mostrar que o obstáculo mais profundo, mais universal, e portanto mais nocivo, de encontro ao qual esbarra toda ação anticomunista, é a formação liberal de que estão intoxicadas, por uma tradição muito mais do que secular, as massas contemporâneas. No Ocidente - e muito provavelmente também no Oriente - os anticomunistas constituem a grande maioria. Entretanto, por detrás da cortina de ferro todos os povos parecem dormir num letargo mortal sob a ditadura diabólica do marxismo. E aquém da cortina estão embasbacados, aturdidos, anestesiados. Vêm no comunismo um inimigo. Mas, se se apresenta qualquer homem, ou qualquer grupo, a desenvolver uma ação contrária a esse inimigo, aplaudem fracamente, distraidamente, e logo se desinteressam do assunto. Porque?

Está na índole liberal um fundo de ceticismo pelo qual nenhuma convicção se torna bastante forte para ditar atitudes coerentes e corajosas. Essencialmente individualista e pragmatista, o liberal do século XX - que requintou neste sentido seus antecessores - só cuida de seus interesses pessoais e imediatos. Tudo quanto é doutrinário perde-se para ele numa região de nuvens, de dúvidas, a que seu espírito raras vezes se eleva, e da qual volta sempre para a vida prática com uma indecisão mais ou menos subconsciente: onde estará a verdade? Velha pergunta que Pilatos, o pai dos indecisos, o precursor dos liberais, enunciou com uma tão despudorada precisão, para justificar seu gesto tristemente imortal. Se não se sabe o que é a verdade, e onde ela está, que remédio há, senão lavar as mãos? E é por isto que, na luta entre o comunismo e o anticomunismo, o liberal lava as mãos.

Havíamo-nos comprometido a demonstrar em artigo subsequente que o anticomunismo, longe de ser de índole negativista, é pelo contrário muito positivo em seu conteúdo. Não cumprimos a promessa em nosso número de março por uma razão de alta ressonância em todos os corações católicos. Festejava-se o 80º aniversário do Santo Padre Pio XII e Catolicismo consagrou em três edições sucessivas um longo e merecidíssimo espaço, a comemorar o acontecimento. Retomemos pois hoje o fio de nossa exposição, cumprindo a promessa há tanto tempo formulada.

* * *

Para saber se o anticomunismo é um ideal positivo ou negativo, é necessário antes de tudo esclarecer o que seja propriamente “positivo” e “negativo”. Alguns espíritos apressados julgam responder à pergunta dizendo simplesmente que é negativo todo pensamento, todo princípio, todo preceito em cuja formulação se encontra a palavra “não”. Na realidade a resposta não resolve o problema. Pois, se assim fosse, a mãe que diz a seu filho que não se debruce imprudentemente na janela faria obra negativa. A que autorizasse o filho a fazer o que bem entendesse junto à janela faria obra positiva. E quando a criança caísse ao chão a obra positiva teria sido levada a seu triunfo! O pai que impedisse seu filho de frequentar más companhias faria obra negativa. A obra positiva consistiria em deixar o jovem frequentar qualquer ambiente, até que se encontrasse moral, psíquica e fisicamente perdido. As regras de polidez, que nos ensinam a não fazer certas coisas realmente muito deploráveis - falar com a boca cheia, bocejar e consultar relógios quando se recebem visitas, tomar a dianteira às senhoras, etc. - seriam negativas. Pelo contrário, destruir a polidez que nos impõe estas e outras tantas restrições, seria coisa positiva. Como se o positivo fosse a trivialidade, a desatenção, a descortesia, e não a polidez, flor admiravelmente positiva de toda verdadeira civilização. Obra positiva seria abolir o Código Penal e fechar as cadeias. Obra negativa seria moralizar a sociedade, obrigando cada qual ao respeito dos direitos do próximo, segregando e punindo os recalcitrantes. Obra negativa a do médico que proíbe alimentos prejudiciais ao doente. Obra positiva seria deixar que os hipertensos se enchessem de sal, e os diabéticos de açúcar. Em uma palavra, Deus Nosso Senhor teria feito obra eminentemente negativa revelando os Dez Mandamentos, dos quais só três têm um enunciado positivo, e todos os outros começam com a - para os liberais terrível, abominável, execranda - palavra “não”. Como vemos, não é pelo uso do sim e do não que se distingue o positivo do negativo.

* * *

Os espíritos liberais facilmente se agastam. Duvido de que algum deles consiga ler todo o tópico anterior. Se o fizer, será entrecortando-o de expressões de enfado. Os mais polidos - e não são frequentes - afetam uma calma desdenhosa, e arquitetam uma saída. Por exemplo esta: é simples dizer no que consiste uma obra positiva, ou negativa, pois é positivo tudo quanto constrói, e negativo tudo quanto destrói.

Com os polidos é possível discutir. Permitam-nos eles, pois, que lhes perguntemos cordial, muito cordialmente, o que é construir. Bom caminho para depois sabermos o que é destruir.

Construir, diria algum deles, é dispor materiais de maneira a constituir com eles um edifício. Por extensão, aplica-se o verbo a toda a ação de que nasça uma obra, uma instituição, uma lei, que não existia ainda. Destruir será pois o contrário: fazer cessar o que existe.

Confessamos que também esta resposta não nos parece clara. Um general tem diante de si um exército inimigo, e o arrasa. Sua obra, na terminologia liberal, teria então sido destrutiva? Os heróis da Reconquista, que levaram oito séculos a destruir os reinos mouros estabelecidos na península, e com isto reedificaram a Espanha cristã, teriam

(continua)



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