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“Não se achará a paz senão pela ponta de uma lança”

Cunha Alvarenga

Por sua influência na vida espiritual e intelectual de toda a Igreja, e por sua relação muito direta com nosso país, filho da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola foi objeto de nossa particular atenção no mês de julho, em que decorria o quarto centenário de sua morte.

Este fato nos impediu de dar o merecido realce a outro centenário completado no mesmo mês: a 7 de julho de 1456 foi publicada a sentença eclesiástica que reabilitou a Donzela de Orléans, Santa Joana d'Arc.

Assim, queremos consagrar mais particularmente nossa atenção, hoje, a esse outro centenário, que tem, ele também, um sentido universal. Santa Joana d'Arc, enquanto paladina da independência da França, bem mereceu de toda a Cristandade, pois a nação dos francos tem na Igreja uma inalienável primogenitura. Ademais, a heroína de Orléans simboliza admiravelmente a virtude militante e intrépida, que nossa época não compreende nem preza.

Por isso mesmo, esse centenário suscita o debate de um tema que tem sido sobremodo maltratado pelos preconceitos liberais de nossa época: que pensar do uso da força e da violência para o combate ao mal? Diante da onda avassaladora de iniquidade que varre o mundo contemporâneo, não será mais aconselhável que nos recolhamos em nós mesmos, deixando à Providencia Divina o acerto de contas com os maus, aos quais, por dever de caridade, não devemos resistir com atitudes enérgicas, mas, pelo contrário, vencer pelo perdão das injúrias, pela paciência, pela humildade, pela resignação, pela passividade? Às incertezas de uma guerra, tremendo flagelo para os homens, não se deve preferir a paz como um bem a procurar a todo o custo, mesmo em caso de agressão, conforme o conselho evangélico de oferecer a outra face aos nossos inimigos?

Não é outra a atitude prática e teórica de ponderáveis setores da opinião católica em relação ao problema das investidas do paganismo comunista nos dias que correm.

Ora, a passividade diante do mal pode constituir um crime. Assim, por exemplo, ensina São Tomás que, "se suportar as injurias que nos atingem a nós mesmos é um ato virtuoso, suportar as que atingem a Deus é o cumulo da impiedade" (Suma Teologica, IIa. IIae, q. 136, art. 4, ad 3) mais ainda, invocando o testemunho de Santo Agostinho, acrescenta o mesmo Doutor que "os preceitos evangélicos da paciência não vão contra o bem do Estado, pois que, para defender esse bem, é um dever combater os inimigos" (loc. cit.).

Já São Paulo denunciava as prescrições de falsos ascetas (cf. Col. 2, 16 a 23) e a deturpação da moral evangélica, "fábulas judaicas" (Tit. 1, 14) e "doutrinas de demônios" (1 Tim. 4, 1) que destroem todo o princípio de autoridade social e religiosa. Erros estes que dão a certos doutrinadores infectados de maniqueísmo pretexto para se isolarem em um falso espiritualismo, desprezando como "carnais" quaisquer meios humanos. Os recursos humanos não dispensam a ajuda divina, muito pelo contrário, servos inúteis, Deus se utiliza dos homens como instrumentos de sua vontade onipotente e de seus sábios desígnios em relação à nossa peregrinação por este mundo. O importante, por conseguinte, será a conformação de todos os nossos atos com a soberana vontade de Deus, conhecida através da lei natural e da Revelação.

Vejamos o exemplo dos Macabeus. O espírito do povo de Israel é invadido pelo helenismo pagão que lhe mina as forças e o faz cair no poder de gentios incircuncisos. Boa ocasião para os judeus se entregarem passivamente ao jugo aviltante. Entretanto contra isso se levantam os Macabeus, instrumentos suscitados por Deus para romper as cadeias daquela opressão. "Perseguiram os filhos da soberba e foi bem sucedida a empresa em suas mãos. E sustentaram a causa da lei contra o poder dos pagãos, e contra o poder dos reis; e não permitiram ao pecador abusar de sua força" (1 Mac., II, 47 e 48). Matatias se consome de dor, "suas entranhas se comovem", e inflama-se "o seu furor segundo o espírito da lei" diante da apostasia de um judeu que se dispunha a sacrificar aos ídolos sobre o altar dos pagãos conquistadores. Mata-o e foge para os montes com seus aliados. Mais tarde sucede-lhe seu filho Judas Macabeu, que prossegue na resistência. "E dilatou a gloria de seu povo, e revestiu-se de couraça como um gigante, cingiu-se com suas armas para combater, e protegia todo o acampamento com a sua espada" (III, 3). Mais ainda: "Perseguiu os maus, buscando-os por toda a parte; e queimou em chamas os que perturbavam o seu povo. Seus inimigos retiraram-se pelo temor que lhe tinham, e todos os obreiros da iniqüidade se turbaram. Sua mão conduziu prosperamente a salvação do povo" (III, 5 e 6).

Agradava Judas Macabeu a todos? Por certo não, pois longe de procurar a paz a qualquer preço, o que o preocupava era o desagravo de Deus e de seus irmãos perseguidos. "Exasperava a muitos Reis, e alegrava Jacó com os seus grandes feitos, e a sua memória será eternamente bendita" (III, 7).

Ora, ninguém negará que os Macabeus empregavam meios humanos. Como podemos agir de outro modo nas condições em que Deus nos colocou? O sensato não será, por conseguinte, desprezar esses recursos humanos, mas sobrenaturalizá-los. Se a necessidade da confiança em Deus se impõe em todos os atos de nossa vida, quanto mais nos momentos dramáticos e tormentosos em que devemos combater pelo bem e pela justiça? Vendo-se inferiores em forças, dizem os aliados de Judas Macabeu antes de uma batalha: "Como poderemos nós, sendo tão poucos, e vindo fatigados do jejum de hoje, lutar contra um tão numeroso e forte exército?" E ele lhes responde: "É coisa fácil virem a cair muitos nas mãos de poucos; pois, quando o Deus do Céu quer salvar, diante de seus olhos não há diferença entre o grande número e o pequeno, porque a vitória na guerra não depende da grandeza dos exércitos, mas do Céu é que vem toda a fortaleza" (III, 18 e 19).

Os Macabeus foram, assim, os instrumentos de Deus para salvar Israel em momento crítico de sua história. E a este respeito convém notar que para o cumprimento dos desígnios da Providencia não é só aos homens individualmente considerados que cabem missões diferentes, mas também às nações.

Assim é que temos, no Antigo Testamento, o povo eleito, e, na vigência da Nova Lei, o exemplo da França, cujo assinalado papel na Cristandade os Papas não se cansam de ressaltar: "Havendo Deus, a Quem obedecem as legiões celestes, estabelecido aqui na terra reinos diferentes conforme a diversidade das línguas e dos climas, conferiu a muitos governos missões especiais para o cumprimento de seus desígnios. E como em outros tempos preferiu a tribo de Judá às de outros filhos de Jacó, e a cumulou de bênçãos especiais, assim também escolheu a França de preferência a todas as outras nações da terra para a proteção da Fé católica e para a defesa da liberdade religiosa. Por esse motivo, a França é o reino do próprio Deus, os inimigos da França são os inimigos de Cristo. Por esse motivo, Deus ama a França porque ama a Igreja que atravessa os séculos e recruta as legiões para a eternidade. Deus ama a França, que nenhum esforço pôde jamais desligar inteiramente da causa de Deus. Deus ama a França, onde em tempo algum a fé perdeu seu vigor, onde os Reis e os soldados jamais hesitaram em afrontar os perigos e dar seu sangue pela conservação da Fé e da liberdade religiosa". Estas admiráveis palavras foram escritas pelo Papa Gregório IX ao Rei São Luís e lembradas por São Pio X na alocução de 13 de dezembro de 1908, prenunciada após a leitura dos decretos de beatificação de Santa Joana d'Arc e de outros Veneráveis de origem francesa.

Ora, essa "nobilíssima nação, missionária, generosa, cavalheiresca" (S. Pio X, aloc. cit.), atravessava no século XV uma fase crítica e tormentosa de sua história.

Na batalha de Azincourt é dizimada a fina flor da sua nobreza. Em Paris, capital do reino, lavra a luta entre armagnacs e borguinhões. Rouen é tomada pelos ingleses e toda a Normandia também lhes cai nas mãos. Louco o Rei Carlos VI, sua esposa Isabel da Baviera e Felipe o

(continua)



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