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PIO XII ELEVA AOS ALTARES O PAPA DA ÚLTIMA CRUZADA

Cunha Alvarenga

Dizia Santo Anselmo que o maior bem que Nosso Senhor deixou sobre a terra foi a liberdade de sua Igreja. "Prefiro morrer, acrescentava o grande Arcebispo de Cantuária, e, se pudesse, sofrer toda pobreza no exílio, do que ver a honra da Igreja de Deus diminuída de qualquer maneira por minha culpa ou por meu exemplo".

Uma das notas características do pontificado de Inocêncio XI foi essa firmeza com que defendeu os direitos e a liberdade da Santa Igreja. "Como soberano temporal severo, justo e prático, Inocêncio XI em múltiplas facetas lembra Sixto V, assim como com seu dinamismo espiritual traz à memória Pio V. De costumes puros como eles, achava-se animado de ardente zelo pela reforma moral do Clero e do povo, e foi ao mesmo tempo um impertérrito propugnador dos direitos da Igreja e sacrificado sustentáculo dos defensores da Cristandade contra o Islam" (Pastor, “História dos Papas", vol. XXXII, p. 424, da edição Gustavo Gili, Barcelona).

Sobre a heroicidade das virtudes de Benedito Odescalchi já se pronunciou a Santa Igreja, pelo decreto competente. E a propósito da beatificação desse grande Papa, que terá lugar neste mês de outubro, seja-nos licito empenhar-nos mais uma vez em um trabalho dos mais necessários em nossa época, qual seja o de repor em sua verdadeira luz a virtude da caridade e o dom da liberdade. Se a caridade é a maior das virtudes, e a liberdade "dom nobilíssimo da natureza", nada pior que a deturpação moderna de ambas traduzida no democratismo, ou no falso respeito para com as convicções errôneas e para com a atuação dissolvente dos inimigos da lei natural e da lei divina, numa atitude que corresponde a colocar igualitariamente a verdade e o erro, o vício e a virtude no mesmo plano, corno dignos do mesmo apreço.

No século XVII, em que nasceu e morreu Inocêncio XI, começa a humanidade a colher os amargos frutos do Renascimento e da pseudo-Reforma protestante. Destruída a verdadeira Fé, o próprio caráter dos povos se transforma. E o que se testemunha por exemplo na Inglaterra, na Ilha dos Santos, na "Merry England" - que da pura alegria que reconhecidamente caracterizava seu povo, passou, por influência do puritanismo calvinista, à tristeza, ao descontentamento, ao humor sombrio e taciturno que ali avassalaram sobretudo as classes humildes - também se nota, em graus diferentes, em todas as extensas áreas do continente europeu em que a heresia protestante foi deitando raízes.

Essa nostalgia da verdadeira Religião acarreta outra funesta consequência assinalada sobretudo a partir do século XVII, que é o crescente domínio satânico através da magia, da invocação dos espíritos, da proliferação das associações secretas. "A copiosa flora poética que medrava sobre o terreno da Fé, veio a ser substituída em fins da Idade Média e na época do Protestantismo por uma poesia do demônio. O antigo amor de Deus se trocou em afeição pelo diabo, pois o mundo, perturbado e extraviado em sua Fé, não somente se contagiou com um terrível medo do demônio, mas ardeu também em loucos desejos de obter com auxílio de Satanás todo gênero de felicidades terrenas" (Weiss, "Historia Universal", edição espanhola, vol. XI, p. 706).

E "como o mundo se encheu de demônios nos séculos XVI e XVII, assim também se encheu de espectros... A má consciência do povo, que por toda a parte via demônios vingativos e zombeteiros, se fez sentir também na visão de espectros. Um sentimento de culpa não expiada percorreu o mundo. Nas crendices da época da pseudo-Reforma se misturava a antiquíssima superstição gentílica do povo com imaginações fantásticas, tomadas dos antigos clássicos, dos eruditos muçulmanos e judeus, e se procurava, como o fez Paracelso, reduzi-los a sistema, ou se buscavam fins de utilidade prática. Queria-se, por meio da magia, sujeitar as forças ocultas da natureza ao serviço do homem" (Weiss, ibid., p. 708).

Século de São Francisco de Sales, de São Vicente de Paulo, mas por outro lado século de Grotius, de Descartes, de Spinoza, de Jacob Bohme, de Locke, de Hobbes, dos precursores do iluminismo, do naturalismo, do totalitarismo hodierno. E foi no século XVII que surgiu no seio da Igreja o sinuoso jansenismo, destinado, na intenção de seus mentores, a completar de modo sub-reptício a obra do maniqueísmo protestante entre os fiéis católicos, aos quais repugnaria a heresia de Lutero apresentada de modo cru.

Na Inglaterra o Rei Carlos I é decapitado pela revolução fomentada pelo igualitarismo presbiteriano e republicano de Cromwell. Jaime II é deposto e vê seu trono usurpado por Guilherme de Orange, com o que se torna cada vez mais remota a esperança do retorno daquele país à verdadeira Fé. Recrudesce a perseguição à heroica e católica Irlanda. O Catolicismo é interditado na Suécia.

Lavra a discórdia entre os Príncipes cristãos. E no seio da filha primogênita da Igreja ressurge o galicanismo, como triste herança da querela das investiduras no tempo de Felipe o Belo. Contra as pretensões galicanas de Luís XIV teve Inocêncio XI de travar uma das mais árduas lutas de todo o seu pontificado. Ao ser informado das conversões de huguenotes conseguidas pelo Rei através da revogação do Edito de Nantes, exclamou o santo Pontífice: "De que serve tudo isto se ao mesmo tempo são cismáticos todos os Bispos!" Referia-se ele à atitude de grande parte do Episcopado francês que se alinhara ao lado de Luís XIV em seu nacionalismo religioso. Já nos ocupamos da posição enérgica assumida por Inocêncio XI contra a Declaração de 1682 dos Bispos galicanos (ver CATOLICISMO, no 64, abril de 1956, in "Servo de Maria, Amigo da Cruz e Apóstolo da Contra-Revolução"). Rogava o Papa a Luís XIV que não destruísse com a esquerda o que construía com a mão direita. Não devia aconselhar-se o Rei com os áulicos, mas com muitos outros Bispos e Clérigos que melhor podiam orientá-lo. "Guarde-se o Rei — terminava Inocêncio XI uma de suas Bulas a Luís XIV — da ira do Céu. O Papa não se deixará afastar, por coisa alguma, de seus princípios, antes bem disposto está a suportar todas as opressões por amor à justiça" (cfr. Pastor, ibid., p. 214/215).

Ninguém até então havia ousado empregar semelhante linguagem com o Soberano mais poderoso da Europa.

Mas a pugnacidade de Inocêncio XI haveria de ser demonstrada de modo não menos eloquente em outro grande episódio de seu glorioso pontificado, qual seja o da defesa do Ocidente cristão contra o Oriente maometano. Insuflado pelo grande inimigo da Cristandade que era o grão-vizir Kara Mustafá, o sultão Maomé IV se prepara para assaltar Presburgo, Viena e Praga, como fase inicial de um plano que incluía a dominação da Alemanha, da Polônia, o terçar de armas com Luís XIV nas margens do Reno. Subjugados os franceses, os islamitas se dirigiriam

(continua)



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