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O laicismo dos estados roubou à sociedade moderna o sentir da Igreja

Plinio Corrêa de Oliveira

Concluamos hoje nossos artigos sobre a tolerância. (1). Admitindo que seja o caso de praticar, em situação dada, esta difícil e arriscada virtude, pergunta-se: como praticá-la?

Em outros termos, a tolerância, ainda quando necessária, traz consigo perigos peculiares. Como evitá-los? E, antes de tudo, quais são estes perigos?

Demos a este respeito uma noção teórica, seguida de um exemplo histórico frisante.

Tolerar um mal é consentir em que ele exista. Ora, assim como o bem produz, de si, efeitos bons, assim também o mal produz maus resultados. De onde, quando se é obrigado a tolerar algo, deve-se circunscrever quanto possível os maus efeitos dessa tolerância, e preparar com toda a diligência uma situação em que se torne ela supérflua, e o mal possa ser extirpado.

Em medicina, isto é elementar. Se alguém sofre de um tumor incurável que, por motivos clínicos, não pode ser logo operado, o cuidado do médico consiste em circunscrever de todos os modos os maus efeitos da presença do tumor no organismo. E, não contente com isto, prepara ele com diligência o doente, para que possa suportar a futura operação. O mais tolerante dos homens não toleraria que seu médico agisse com ele de outra forma. Não consigo compreender como este modo de proceder, tão claro, tão lógico, tão sábio, possa não ser aplaudido quando, em vez de um tumor físico, se trata de um câncer moral, como a heresia por exemplo.

Com efeito, se em um lugar se introduz o erro, deve-se remediar a situação com os meios clínicos suaves e lentos da apologética ou da caridade. Quando estes meios não dão resultado, ou porque o mal é de propagação fulminante e não comporta tratamentos em câmara lenta, ou porque é renitente e não há argumento nem ato de caridade que o extirpe, cumpre recorrer à cirurgia. E se esta não pode ser usada logo, é necessário lutar renhidamente contra a propagação do mal, preparando ao mesmo tempo o dia auspicioso da operação.

Assim - para exemplificar - numa associação religiosa entra um mau elemento. Ele difunde em torno de si um espírito de mundanismo, de sensualidade, de relativismo doutrinário. Se a associação está em condições de resistência excelentes, é o caso de não expulsar imediatamente este membro, para tentar reformar-lhe o espírito. Nesta hipótese, porém, o presidente do sodalício, durante todo o tempo do "tratamento", terá um olhar particularmente atento sobre esse associado, suas relações, seu âmbito de ação, etc. Ao menor sintoma, empregará todas as medidas para que o contágio cesse. Mais ainda, preventivamente, exercerá uma ação contínua sobre os outros membros, a fim de os vacinar contra o perigo. Procedendo assim, tal presidente terá usado de uma tolerância verdadeiramente virtuosa, pois terá feito bem ao mau, sem que daí decorresse mal para os bons.

Isto tudo dá trabalho, requer providências, toma tempo. Suponhamos que o mesmo elemento mau da associação seja uma pessoa de rara sedução, que imediatamente vai influenciando a todos. Como é muito mais fácil influenciar para o mal do que para o bem, o presidente vê que dentro em breve diversos associados terão sido inteiramente deformados, sem que nada se possa ter feito em sentido contrário. Põe-se diante dele uma alternativa: ou consente na permanência do membro mau, e neste caso corre o risco de perder vários bons; ou expulsa o membro mau, este muito provavelmente se perde, e os bons se salvam, voltando à associação a ordem, o bom espírito e a paz de outrora. Qual o seu dever? O caminho só pode ser um. O bem de vários vale mais do que o bem de um. O bem do inocente vale mais do que o bem do culpado. É preciso expulsar quanto antes o lobo com pele de ovelha. Se não proceder assim, o presidente terá traído seu dever, e terá que prestar contas a Deus pelas almas que poderia e deveria ter salvo, e que entretanto se perderam.

Suponhamos por fim outra situação. O indivíduo mau entra na associação e começa a exercer sua ação envolvente e rápida. No fim de pouco tempo, tal foi seu êxito que, se o expulsarem, mesmo os melhores não compreenderão. Sua expulsão determinará no sodalício uma crise na qual este se dissolverá. E, o que é grave, dissolvida a associação, seus membros, privados de todo amparo, correrão o risco de se perder. O que fazer? Evidentemente, contemporizar. Mas contemporizar com solércia, inteligência, decisão. Ser-lhe-á, ao presidente, necessário empregar todos os meios diretos ou indiretos para melhorar as disposições da ovelha negra, e também para coibir-lhe a ação, e, ao mesmo tempo, preparar os espíritos para compreenderem a necessidade urgente de uma expulsão. Logo que os espíritos estejam preparados, cumpre proceder à indispensável amputação. Ainda aí, a tolerância terá sido virtuosa, pois terá salvo a sociedade, enquanto uma ação precipitada a teria perdido.

Em contraposição a esses exemplos, poderíamos mencionar alguns de tolerância defeituosa. O presidente da associação não tem princípios nem convicções firmes. É superficial, sensível, vaidoso, tímido.

Três colunas elegantes e altivas: eis o que resta de um monumento que foi outrora símbolo de uma elevada cultura. Ruiu o Império Romano, e com ele a civilização clássica. Na Cidade de Deus, Santo Agostinho aponta como uma das causas mais ativas dessa ruína a tolerância, cheia de timidez e imprevidência, com que os católicos de seu tempo se haviam em face da corrupção e dos erros que a sociedade romana herdara do paganismo. Do mesmo modo, a tolerância displicente e comodista de inúmeros católicos de nossos dias contribuiu gravemente para que o laicismo estatal, expressão do paganismo hodierno, conseguisse "amortecer ou tornar quase perdido na sociedade moderna o sentir da Igreja" ( Carta do Exmo. Substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé )

Por isto, quando o mau elemento entra, ele é o primeiro a sentir em certa medida a sedução das atitudes e dos princípios que este último jeitosamente insinua. Superficial, nem sequer é ele capaz de entender o que há de implícito em tudo quanto o membro mau faz ou diz. Vaidoso, julga-se o ídolo de seus pares, e por isto não concebe a possibilidade de alguém lhe contrastar a influência. Sensível, está perfeitamente contente com a associação, desde que seus membros lhe façam agrados e lhe prestem homenagens: princípios, doutrinas, polêmicas, lhe parecem trambolhos na doçura da vida cotidiana. Tímido, tem medo de todas as reações. Se tomar alguma providência, chamá-lo-ão, dentro e fora do círculo social, de intolerante. Ora, isto é muito incômodo. Pois o intolerante não é tolerado em nenhum lugar. Vivemos na era da tolerância. Todas as opiniões são permitidas. Não se pode suportar que alguém sustente que há opiniões que não podem ser permitidas. Quem o sustenta é objeto de perseguições, antipatias, sarcasmos. Como expor-se alguém a isto?

Sob a carga de tantos fatores conjugados, o presidente acha melhor tolerar. E isto significa, para ele, fechar os olhos ao problema, e permitir que o mal se alastre às escâncaras, ou pelo menos larvadamente. Quando algum dia a associação estiver inteiramente minada, e uma crise tremenda explodir, será a hora de resignar-se com um fatalismo

(continua)



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