Catolicismo - Acervo
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Passado esplêndido, futuro ainda mais belo

Plinio Corrêa de Oliveira

Há muito que desejamos tratar em “Catolicismo' um tema para o qual esperávamos ocasião. Este tema é Portugal. A visita do Presidente Café Filho à nossa antiga metrópole teria dado oportunidade a tal. Mas pareceu-nos mais interessante aguardar que o Chefe de Estado luso viesse por sua vez ao Brasil, para que nosso artigo tivesse como fundo de quadro, não só a manifestação dos sentimentos de Portugal para conosco, como também os do Brasil para com Portugal. Com efeito, desejaríamos abordar o assunto Portugal sob um ângulo que não fosse nem exclusivamente histórico, nem meramente afetivo ou cultural. Nosso tema seria outro. De que alcance prático são para o presente e o futuro os vínculos e laços que unem as duas pátrias? Ora, para responder a esta pergunta, seria preciso que os sentimentos de ambos os povos se manifestassem, a fim de se ver em que medida seria viva neles a consciência de suas afinidades.

Apagaram-se já agora os últimos fogos das festas com que o Brasil acolheu o General Craveiro Lopes. Temos prazer em registrar que o Itamarati, fiel às suas melhores tradições, conduziu com distinção e dignidade todo o curso da visita presidencial. E que a acolhida dos brasileiros correspondeu às melhores expectativas. Está patente que de um e outro lado do oceano a comunidade de língua luso-brasileira tem consciência de todos os liames que a conservam coesa, e os preza no mais alto grau. Mas... e daí? É a esta pergunta que, à maneira de epílogo de tantas festas, gostaríamos de responder.

* * *

A Igreja Católica constitui um imenso firmamento espiritual, todo um riquíssimo e diferenciadíssimo universo de almas, em que as variedades mais profundas se combinam harmoniosamente para compor uma unidade possante e majestosa.

Quem quisesse ver a Igreja compendiada ou espelhada cabalmente no coração de qualquer de seus Santos, Doutores ou Pontífices, erraria. Ela não se deixa conter em nenhuma das múltiplas manifestações de sua fecundidade sobrenatural. Seu espírito não está só no recolhimento dos anacoretas, na sabedoria dos Doutores, na paciência dos mártires, na pureza das virgens, na intrepidez dos cruzados, no ardor dos missionários, ou na suavidade dos que se dedicam aos enfermos. Ele é tudo isto ao mesmo tempo. É só com estas e outras justaposições que se pode ter noção da admirável perfeição da Religião Católica.

Tempo houve em que, a par da sociedade espiritual que é a Igreja de Deus, havia uma sociedade temporal de Príncipes e povos cristãos - conseqüência política lógica e admirável da realidade sobrenatural que é o Corpo Místico de Cristo - à qual se chamou Cristandade.

Dessa vasta e gloriosa família de nações marcadas na fronte pela Cruz do Salvador, também não se pode ter uma visão completa considerando apenas um dos povos que a integraram. Das margens risonhas do Tejo até os últimos confins da grande planície polonesa, da bela Nápoles inundada de luz até as províncias setentrionais da gélida Escandinávia ou da nobre e brumosa Escócia, se estendiam nações profundamente diversas entre si, ufanas dessas diversidades, mas ao mesmo tempo fortemente imbuídas da superior unidade com que todas se encontravam em Jesus Cristo. Uma unidade que era acima de tudo religiosa e mística, e decorria do convívio de todas elas no grêmio da Igreja. Mas uma unidade, também, cultural e psicológica, uma unidade humana - no sentido de uma humanidade batizada - que fazia com que a Europa não fosse inteiramente o que era, se lhe faltasse qualquer dos elementos que a integravam: o francês, cintilante de graça e de coragem, lúcido, gentil e vivo; o alemão, de corpo hercúleo e alma nobre, possante no pensar e no agir, terrível na guerra e cândido e afetivo no convívio da paz; o inglês, síntese original, atraente e algum tanto enigmática das qualidades do povo francês e do alemão, predestinado a povoar de Santos o Céu e estender sua glória pelos rincões mais longínquos da terra; o italiano, cujo gênio como que excessivamente fecundo se multiplicava em incontáveis variantes que faziam de cada pequeno Estado um sol de inteligência e cultura com características próprias; a gente ibérica, cavalheiresca e supremamente grandiosa, borbulhante de fé, calcando constantemente aos pés as riquezas da terra, com os olhos postos apenas no heroísmo, na morte e no reino de glória com Cristo. Enfim, poderíamos multiplicar os exemplos. Mas estes bastam para que se compreenda que a Cristandade, semelhante em tudo à Igreja, sua Mãe, tinha uma glória que lhe vinha toda “ab intus' (Sl. 44, 14), isto é, do espírito nacional dos povos que a compunham, esplendidamente iluminado pela fé. E que ela se adornava com uma cultura e uma civilização que eram como um magnífico “manto de cores variegadas' (Sl. 44, 10).

* * *

Mencionamos juntos Portugal e Espanha, nessa enumeração. Foi de propósito. Não se deve falar destas duas nações nos mesmos termos com que se fala de Alemanha e da França, por exemplo. Mas antes como se falaria da Alemanha e da Áustria, ou da Suécia e da Noruega. Os traços fundamentais de ambas são comuns. Diferenciam-nas pormenores numerosos, interessantes, fecundos, mas enfim pormenores.

Quais estes traços comuns? Vemo-los principalmente no idealismo. Ambos os povos mostraram ao mundo assombrado - quer nas guerras contra o mouro, quer na expansão marítima, quer na colonização de três continentes, quer ainda no florescimento literário e artístico de seus séculos de apogeu - que sabem e podem vencer com extraordinário brilho nas lutas e nas fainas da vida terrena. Para isto lhes sobra força, denodo, inteligência e realismo. Insistimos no realismo, porque esta foi uma qualidade que com freqüência se lhes quis negar. Sustentar contra os mouros uma guerra vitoriosa de oito séculos, não é coisa que se consiga quando se tem a alma sonhadora e pusilânime de um idealista oco. Pois o tempo, as adversidades, o cansaço desgastam todos os sonhos. As guerras não se ganham olhando para as nuvens, nem combatendo apenas em campo raso, mas também fazendo emboscadas e descobrindo as do adversário, e mantendo no tabuleiro incerto da política uma ação contínua, muitas vezes tão importante quanto a do momento da batalha. Ora, tudo isto supõe um raro senso da realidade. O mesmo se poderia dizer da epopéia das navegações, das lutas ásperas e terríveis da colonização, e das dificuldades extenuantes, e tantas vezes prosaicas, inseparáveis de toda produção intelectual. Mas a despeito de tudo isto, a gente ibérica tem um indisfarçável desprezo pelo que é terreno. Ou, em termos mais exatos, tem um senso admirável da autenticidade e da preeminência de tudo quanto é extraterreno, espiritual, imortal.

Disto, dá uma prova excelente a atitude de portugueses e espanhóis ante as riquezas que lhes passaram pelas mãos nos tempos de prosperidade. Com elas construíram vivendas esplêndidas, palácios suntuosos, mas sobretudo igrejas e conventos. Com elas desenvolveram admiravelmente a arte, e tudo quanto diz respeito ao decoro e à nobreza da vida. Mas ornaram mais magnificamente as imagens dos seus Santos do que a si próprios. Ao contrário do que tantas vezes tem acontecido a outras nações na história, a quem as riquezas amolecem e as glórias tornam fátuas, Portugal e Espanha não conheceram os excessos degradantes a que se entregam tão facilmente os ricos e os poderosos. E por isto, quando a glória do poder político e as larguezas os abandonaram, a atitude profunda desses povos em face do acontecimento, se teve um tanto de indolência, também exprimiu bem claro a convicção de que não foi para estas coisas que Deus fez o homem, nem consiste nelas a dignidade e a alegria da vida.

Falamos de indolência. Tocamos assim num ponto delicado. É

(continua)

LEGENDA:
- Políptico de Nuno Gonçalves: Afonso V aos pés de São Vicente. O quadro traduz o espírito de fé dos portugueses, e a expressão dos personagens, grave, varonil, com um ligeiro fundo de serena e superior melancolia, deixa ver a alma piedosa e heróica do novo luso.



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