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Revivem nos modernistas o espírito e os métodos do Jansenismo

Plinio Corrêa de Oliveira

Analisamos em nosso último artigo a fisionomia moral do modernista, com fundamento na Encíclica "Pascendi" do Santo Padre Pio X, cujo quinquagésimo aniversário se celebra neste ano ( 1 ). Servimo-nos, para tal, exclusivamente de textos da própria "Pascendi", uma vez que seu julgamento autorizado dá idéia absolutamente exata do que seja a psicologia modernista, e, de outro lado, quaisquer palavras que não fossem as do Santo Pontífice, seriam possivelmente suspeitadas de exageradas ou parciais.

Com efeito, percorrendo o quadro psicológico que, do modernista, pinta São Pio X, fica-se assombrado com a franqueza de sua linguagem, com a clareza, a energia e a precisão de seus conceitos. É bem de ver que se outrem, que não um Papa - e que Papa! - assim se exprimisse, abriria flanco a que os liberais, cujos matizes são tão numerosos em nossa população, e infelizmente existem até nos círculos católicos, tivessem a impressão de que se está exagerando. Realmente, para os liberais, toda apreciação severa, toda afirmação radical, é por isto mesmo suspeita de exagero. E isto máxime quando se refere a gente com cujas tendências comungam pelo menos em parte. Seria necessário fazer face a essas críticas com o depoimento de quem, além de ser Santo canonizado pela Igreja, tem toda a autoridade inerente à Cátedra de São Pedro.

Continuamos, em nosso artigo de hoje, a descrever o perfil moral do modernista, com base na Encíclica "Pascendi".

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Além do orgulho e da curiosidade, outra causa do modernismo é a ignorância. "Sim, esses modernistas, que se ostentam como doutores da Igreja, que levam às nuvens a filosofia moderna, e olham tão de cima a filosofia escolástica, se Deixaram iludir por aquela e atrair por suas aparências falaciosas, somente porque, ignorantes da escolástica, lhes faltou o instrumento necessário para dissipar as confusões e desfazer os sofismas da filosofia moderna. Ora, é de uma aliança da falsa filosofia com a fé, que nasceu, cheio de erros, o sistema modernista" ( 2 ).

E, pouco adiante, o Sumo Pontífice prossegue: "Ignorância ou temor, a bem dizer uma e outra coisa, o fato é que o amor das novidades vai sempre a par com o ódio aos mestres escolásticos; e não há índice mais seguro de que o gosto das doutrinas modernas começa a nascer em um espírito, do que ver nascer nele repugnância pelo método escolástico.

"Que os modernistas e seus fautores se lembrem da proposição condenada por Pio IX: O método e os princípios que serviram aos antigos doutores escolásticos, na cultura da teologia, não correspondem mais às exigências do nosso tempo, nem ao progresso das ciências".

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É natural que, movidos por sua febre de novidades, os modernistas também se tenham lançado contra todas as boas tradições cristãs. Por isto, diz a seu respeito São Pio X: "Sua atenção ( dos membros do Conselho de Vigilância diocesano ) se fixará muito particularmente nas novidades das palavras, e eles se lembrarão, a este propósito, da advertência de Leão XIII: Não se pode aprovar, nos escritos dos católicos, uma linguagem que, influenciada por um condenável espírito de novidade, parece ridicularizar a piedade dos fiéis, e fala de nova ordem de vida cristã, de novas doutrinas da Igreja, de novas necessidades da alma cristã, de nova vocação social do Clero, de nova humanidade cristã, e de outras coisas do mesmo gênero. Não tolerem essas coisas nos livros e nos cursos dos professores. - Eles fiscalizarão igualmente os impressos em que se trata das piedosas tradições locais e das relíquias. Não permitirão que tais questões sejam agitadas nos jornais ou nas revistas destinadas a alimentar a piedade, com um tom de sarcasmo no qual se deixa notar um verdadeiro desprezo, ou à maneira de sentença sem apelação, sobretudo quando se trata, como é comum, de tese que não vai além dos limites da probabilidade, e que não se apóia senão sobre opiniões preconcebidas".

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"Recomendamos, enfim, ao Conselho de Vigilância - prossegue a Encíclica - que tenha os olhos assídua e diligentemente voltados para as instituições sociais, e para todos os escritos que tratam de matéria social, para ver se neles não se infiltra algo de modernismo, e se tudo corresponde bem exatamente às vistas dos Soberanos Pontífices".

* * *

A este respeito, acrescenta o Papa: "O que exige, principalmente, que falemos sem tardança, é que os artífices de erros não devem ser procurados hoje entre os inimigos declarados. Eles se ocultam, e nisto está um título de apreensão e de angústia muito particular, no próprio seio e no coração da Igreja, inimigos tanto mais temíveis quanto menos declarados. Falamos, veneráveis Irmãos, de grande número de católicos leigos e, o que é mais deplorável, de Padres, que, sob o pretexto de amor à Igreja, absolutamente falhos de filosofia e de teologia sérias, impregnados, pelo contrário, até a medula dos ossos, de um veneno de erro haurido entre os próprios adversários da fé católica se inculcam, com desprezo de toda modéstia, como renovadores da Igreja. Esses tais, em falanges cerradas, dão audacioso assalto a tudo quanto há de mais sagrado na obra de Jesus Cristo, sem respeitar sua própria Pessoa, que tentam rebaixar, por uma temeridade sacrílega, até o nível da simples e pura humanidade.

"Estes homens se espantarão de que os inscrevamos entre os inimigos da Igreja. Ninguém terá surpresa diante disso, com algum fundamento, quando - pondo de lado suas intenções, cujo julgamento está reservado a Deus - examinar suas doutrinas e, em função delas, seu modo de falar e de agir. Inimigos da Igreja, certamente eles o são, e ninguém se afasta da verdade dizendo que são dos piores. Não é de fora, com efeito - já o notamos - mas é principalmente de dentro que os modernistas tramam a ruína da Igreja; o perigo está hoje quase nas entranhas mesmo e nas veias da Igreja: seus golpes são tanto mais seguros quanto eles sabem melhor onde lançá-los. Acrescentai a isto que não é apenas nos ramos e nos galhos que deitaram o machado, mas na própria raiz, quer dizer: na fé, e em suas fibras mais profundas. Depois, uma vez cortada esta raiz da vida imortal, dão-se ao trabalho de fazer circular o vírus por toda a árvore: nenhuma parte da fé católica existe que fique ao abrigo de sua mão, nenhuma que eles não façam tudo para corromper. E, enquanto prosseguem por mil caminhos diversos na realização de seus desígnios nefastos, nada há de mais insidioso, nem de mais pérfido, do que sua tática".

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"Com efeito, amalgamando em si o racionalista e o católico, os modernistas o fazem com tal requinte de habilidade, que iludem facilmente os espíritos menos advertidos. Aliás, exímios em sua temeridade, não há consequência diante da qual recuem, ou, mais ainda, que não sustentem com obstinação e em alto som. Acresce que, coisa própria a iludir, têm uma vida toda de atividade, uma assiduidade e um ardor singulares em todo gênero de estudos, costumes recomendáveis ordinariamente por sua austeridade. Enfim, e isto parece tirar toda esperança de remédio, suas doutrinas de tal maneira lhes perverteram a alma, que eles se tornaram inimigos de toda autoridade, impacientes de todo freio; fundando-se em sua consciência falseada, fazem tudo para que se atribua ao puro zelo da verdade o que é exclusivamente obra de obstinação e de orgulho".

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Conforme a fundamental duplicidade de seu espírito, os modernistas têm toda uma tática especial para disseminar os seus, erros dando-lhes aparência de verdades atraentes e simpáticas.

Essa tática, São Pio X a descreveu admiravelmente: "O que projetará maior luz ainda sobre essas doutrinas dos modernistas, é sua conduta, que é inteiramente coerente com suas doutrinas. Ao ouvir os modernistas, ao ler os seus trabalhos, ter-se-ia a tentação de acreditar que eles caem em contradição consigo mesmo, que são oscilantes e indecisos. Longe disso: tudo é pesado, tudo é desejado entre eles, mas à luz do princípio de que a fé e a ciência são estranhas uma à outra. Tal passagem de seus trabalhos poderia ser assinada por um católico; voltai a página, tereis a impressão de ler um racionalista. Escrevendo história, nenhuma menção fazem da divindade de Jesus Cristo; subindo à cátedra sagrada, proclamam-na alto e bom som. Historiadores, desprezam os Padres e os Concílios; catequistas, citam-nos com honra. Se prestardes atenção, há para eles duas exegeses inteiramente distintas: a exegese teológica e pastoral, a exegese científica e histórica. - Do mesmo modo, em virtude desse princípio de que a ciência não depende, sob nenhum ponto de vista, da fé, se eles dissertam sobre a filosofia, a história, a crítica, ostentam de mil modos - não tendo horror de caminhar assim nas pegadas de Lutero - ostentam de mil modos, dizíamos, seu desprezo pelos ensinamentos católicos, pelos Santos Padres, pelos Concílios universais, pelo Magistério eclesiástico; advertidos sobre esse ponto, lançam brados de protesto, queixando-se amargamente de que se lhes viola a liberdade. Enfim, dado que a fé é subordinada à ciência, repreendem a Igreja - abertamente e em toda ocasião - pelo fato de que Ela se obstina em não sujeitar e não acomodar seus dogmas às opiniões dos filósofos. Quanto a eles, depois de terem feito tabula rasa da antiga teologia, esforçam-se por introduzir uma outra, complacente para com as divagações desses mesmos filósofos".

"Uma das táticas dos modernistas, tática na verdade muito insidiosa, consiste em jamais expor suas doutrinas metodicamente em seu conjunto, mas em transmiti-las de algum modo e disseminá-las aqui e lá. Isto faz com que se tenha a impressão de que são indecisos e flutuantes, quando na realidade suas idéias são perfeitamente definidas e consistentes".

* * *

Como acabamos de ver, os modernistas agem dentro da Igreja como verdadeira quinta coluna, pois, segundo é de toda evidência, sua intenção consiste em conservar o aspecto de católicos, para mais facilmente disseminar nas próprias fileiras católicas a peçonha de seus erros.

Infelizmente, como sempre acontece, existe uma terceira força para facilitar a ação dessa quinta coluna. Essa terceira força é formada por aqueles católicos, quiçá bem intencionados, que, por um excessivo desejo de conciliação, ou pelo temor de parecerem atrasados, retrógrados, ou reacionários, adotam em sua linguagem, em suas atitudes, em toda a linha de sua conduta, uma orientação que, se não é diretamente modernista, facilita o deslizar perigoso dos espíritos para essa heresia.

Foi o que com muita finura observou o Santo Pontífice: "O que é muito estranho, é que católicos, que Sacerdotes, dos quais queremos pensar que tais monstruosidades lhes fazem horror, se comportem, entretanto, na prática, como se as aprovassem plenamente; é muito estranho que católicos, que Sacerdotes, tributem tais louvores, prestem tais homenagens aos corifeus do erro, que se tem a impressão de que querem honrar por esta forma, não os homens em si mesmos, talvez não de todo indignos de alguma consideração, mas os erros que tais homens abertamente professam, e dos quais se arvoraram em campeões".

* * *

Muito bem organizados, do ponto de vista da propaganda, os modernistas se aliam no mundo inteiro, para o efeito de difundir melhor as suas doutrinas.

"Não se pode deixar de sentir estranheza e surpresa, diante do valor que certos católicos lhe atribuem ( à crítica modernista ). Para isto há duas causas: de um lado, a aliança estreita que fizeram entre si os historiadores e críticos da escola modernista, por cima de todas as diversidades de nacionalidade e de religião. De outro lado, a audácia sem limites desses mesmos homens: que um dentre eles abra seu lábios, e os outros, a uma voz, aplaudirão, elogiando o progresso que comunica à ciência; se alguém tem a infelicidade de criticar uma ou outra de suas novidades, por monstruosa que seja, em fileiras cerradas os modernistas investem contra ele; quem nega suas doutrinas é tratado de ignorante, quem as adota e defende é elevado às nuvens. Muitos que, iludidos com isto, se inclinam para os modernistas, recuariam de horror se o percebessem".

* * *

Como tantas vezes acontece com os hereges, os modernistas têm um ardente espírito de proselitismo:

"Se, pelo menos, tivessem menos zelo e menos atividade em propagar seus erros! Mas tal é, neste particular, seu ardor, tal sua pertinácia no trabalho, que não se pode considerar sem tristeza como despendem, em arruinar a Igreja, energias magníficas, que seriam tão aproveitáveis se fossem bem empregadas. - Seus artifícios para iludir os espíritos são de duas maneiras: esforçar-se por

(continua)



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