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ADMIRÁVEL PROGRESSO, SUBSTITUIÇÃO EQUÍVOCA DE VALORES

Plinio Corrêa de Oliveira

A monumental Mensagem de Natal do Santo Padre Pio XII, que publicamos em nossos números anteriores (nos 87 e 88, de março e abril de 1958), merece um estudo aprofundado, da parte de todo o orbe católico. É para servir de subsídio a tal estudo que queremos consagrar ao documento pontifício alguns comentários.

Salvo nos círculos especializados, em que se segue com interesse a marcha cambaleante da filosofia dita moderna, os progressos da técnica estão provocando impressões simultâneas e díspares, em que coexistem um entusiasmo vivaz e cândido que toca as raias da adoração, e uma certa desilusão ainda incipiente, se bem que já veemente. Essas impressões, entretanto, não são ainda tais, que estejam a se transformar em atitudes filosóficas definidas. É bem este o momento para esclarecê-las com as luzes da fé e do bom senso, de maneira a evitar futuros desastres. E para pessoas nesse estado de espírito, o documento pontifício é rico em “aperçus” do maior valor.

O FATO FUNDAMENTAL

O Sumo Pontífice tem em mente, em sua Mensagem, um fenômeno cultural que é particularmente agudo na Europa e nos Estados Unidos. De um lado, os erros da filosofia desgarrada da Fé vêm conduzindo sistematicamente certas escolas a um pessimismo total em relação à existência e ao universo. De outro lado, as condições da vida hodierna criam em muitas almas uma profunda receptividade a essa tendência filosófica. O gosto do absurdo em certos ambientes “blasés”, a sensação, em outros círculos, de que a técnica vai tornando cada vez mais penosa, e até insuportável, a existência quotidiana, as recordações ainda vivas das tragédias da segunda guerra mundial, e por fim as perspectivas de uma hecatombe cósmica produzida pela técnica na eventual terceira guerra, geram em certos espíritos a idéia de que o progresso tem por conseqüência forçosa uma catástrofe, a ciência é nociva e, em última análise, o universo é mal construído. Pois, se até o próprio progresso conduz ao desastre, é porque não há ordem no cosmos.

Acrescente-se a esse quadro a visão de uma indiscutível decadência moral e intelectual das massas, uma baixa de tom em todos os campos, tanto mais acentuada quanto mais progride a técnica, e será fácil compreender como os espíritos desiludidos estão propensos a receber as elucubrações apresentadas com algum vigor literário por Sartre, mero divulgador de Kirkegaard, pensador mais profundo, mas que em uma época menos preparada teve fama muito menos geral.

Perante esse estado de espírito de largos setores da opinião ocidental, e das doutrinas filosóficas em que eles procuram escudar-se, Pio XII reafirma o princípio de que o universo é uno e bem construído, obra que é de um Deus infinitamente sábio, bom e poderoso. Em seguida, mostra o papel de Nosso Senhor Jesus Cristo na ordem universal, e por fim aponta o papel da Fé e da moral na direção de um progresso que não pode ser nocivo senão quando se desvia do ensinamento da Igreja.

Procuremos fazer uma enumeração das diversas doutrinas ou estados de espírito contra os quais o Santo Padre alerta, direta ou indiretamente, os fiéis, em sua mencionada alocução.

1 — A ADORAÇÃO OU EMBRIAGUEZ DA TÉCNICA

Em primeiro lugar, a “tecnolatria”, isto é, uma tal admiração da técnica e do progresso que pode levar a uma verdadeira apostasia: “Outros, contemplando o vasto desenvolvimento da ciência moderna, que estendeu o conhecimento, e o poder do homem até os espaços siderais, como que fascinados e cegos pelos resultados que obtiveram, não sabem admirar senão as ‘grandezas do homem’, e fecham voluntariamente os olhos às ‘grandezas de Deus’. Ignorando ou esquecendo que Deus está ainda mais alto do que os próprios céus e que seu trono repousa sobre o cume das estrelas (cfr. Job 22, 12), eles não percebem mais a verdade e o sentido do hino cantado pelos Anjos sobre a gruta onde se manifestou a suprema grandeza divina: ‘Gloria in excelsis Deo’; são pelo contrário tentados a substituí-lo por um ‘Gloria na terra ao homem’, ao homem que inventa e realiza tantas coisas, ao ‘homo faber’, como o chamam certos filósofos, porque revelou sua grandeza nas obras que aparentam sobrepujar toda medida humana”.

Como se vê, a sobrestimação da técnica pode afastar tanto de Deus quanto uma seita filosófica errada.

Claro está que muitas vezes essa adoração passa despercebida às próprias pessoas que a ela se entregam. Será o caso de incluir no exame de consciência, relativamente ao 1º Mandamento, esta pergunta: amei exageradamente a técnica?

Este entusiasmo pela técnica pode não chegar a tão flagrante excesso. Pode não constituir uma adoração, mas “uma espécie de embriaguez”, como bem diz o Santo Padre. Neste caso produzirá naturalmente efeitos menos graves.

Alguns destes efeitos podem ser:

a) desinteresse pelos assuntos da Religião, e inapetência do que é espiritual, porque afastam o espírito do ambiente próprio à técnica;

b) confiança na técnica para resolver todos os problemas do homem e da sociedade, relegadas a um plano secundário a Religião e a moral;

c) desprezo das vantagens proporcionadas ao homem pela filosofia, pela literatura, pelas belas artes: só os frutos da técnica são indispensáveis, o mais é supérfluo;

d) a glória verdadeira toca ao “homo faber”, pois seu espírito se consolida varonilmente nas certezas que as ciências conducentes à técnica e a experiência conferem; sua vontade forte e audaciosa está em vias de conquistar o universo; o teólogo, o filósofo, o literato e o artista são espíritos fracos, que vivem nas penumbras das meias certezas, guiados pelo sentimento, fechados à realidade prática, e por isto incapazes de participar com energia na luta pela subjugação do universo.

Como se vê, essas consequências menos graves são no entanto gravíssimas. A embriaguez da técnica poderia ser, ao lado da adoração da técnica, um ponto utilíssimo de exame de consciência quanto ao 1º Mandamento.

O combate à tecnolatria é formal desejo do Pontífice: “É chegado o momento de reconduzir a suas justas proporções a admiração do homem moderno por si mesmo”.

Não se trata de recusar ao técnico o valor que em justiça lhe pertence. Mas é preciso reconhecer que, enquanto ele, escravo dessa “espécie de embriaguez que as conquistas da técnica suscitam”, ficar só na técnica e recusar dobrar o joelho ante o mundo do espírito e, principalmente, ante a ordem sobrenatural, o técnico será irremediavelmente incompleto: “ ...os admiradores do ‘homo faber’ deveriam persuadir-se de que, ao se deterem com admiração e em atitude de adoração diante do presépio do Deus Menino, eles não retardariam sua marcha para o progresso, mas a coroariam com a perfeição do ‘homno sapiens’.

2 — A CANDURA TECNOLÁTRICA

Muitos espíritos, no Brasil, professam a idéia ingênua de que todo progresso técnico, pelo próprio fato de constituir um passo à frente em sua esfera peculiar, não produz nem pode produzir inconvenientes em outros campos.

Esta candura resulta de um deslumbramento infantil em face de certos resultados imediatos da técnica. Assim, as grandes cidades, cujas ruas enxameiam, durante o dia, de automóveis esplêndidos, e cujos céus fulguram à noite com anúncios luminosos coruscantes; os arranha-céus parecidos com palácios de gigantes; a ostentação da riqueza, tudo enfim nos deslumbra. E, embora saibamos que há mil inconvenientes na construção das grandes cidades, continuamos obstinadamente a fazê-las. Porque? Candura invencível: é tão “bonito”, tão “adiantado”, tão “progressista”, que não acreditamos seriamente que daí possam vir males profundos.

O Soberano Pontífice mostra-nos, pelo contrário, que a técnica, depois de um momento de deslumbramento, pode apresentar surpresas tão grandes que até angustiam certos espíritos: “Por isto, o Anjo que anunciou aos pastores as maravilhas do Natal começou por encorajá-los: ‘Não temais, pois vos dou a nova de uma grande alegria para todo o povo’ (Luc. 2, 12). Bem diferentes, ao contrário, os sentimentos que provoca a notícia das novas maravilhas da técnica. Uma vez passado o primeiro movimento de exultação, os homens de hoje, ante o desenvolvimento inesperado de seus conhecimentos e as consequências deles decorrentes, ante esta invasão inaudita no microcosmo e no macrocosmo, atormentados por uma certa ansiedade, se perguntam se

(continua)



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