Revista Catolicismo
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PALMATÓRIAS DO MUNDO? OU PALMATÓRIAS DO MAL?

Plinio Corrêa de Oliveira

SANTO INACIO DE LOYOLA é o modelo de quantos procuram praticar segundo o espírito da Igreja a virtude da circunspecção. "sede prudentes como a serpente", disse Nosso Senhor. Essa admirável virtude evangélica reluz em toda a vida desse Santo que, com uma finura talvez inigualada, soube distinguir, mesmo em seus mais delicados matizes, a influência do bem e do mal, quer no terreno, tão cheio de imponderáveis da vida espiritual, quer nos grandes problemas ideológicos, políticos e sociais de seu tempo. – No Cliché, retrato pintado por Jacopino del Conte no próprio dia da morte de Santo Inacio.

Sr. Redator:

Há católicos que julgam de sua obrigação manter-se em uma atitude de sistemática análise e comentário em relação a tudo o que se encontra nos diversos ambientes em que eles se movem.

Esta obrigação, eles julgam dever cumpri-la não só no quarto, em momento de meditação, mas em toda ocasião, e até na rua, onde se está geralmente para passeio ou trabalho. Se passa um bonde, analisam-lhe a forma, a cor, dizem se acham que sua velocidade é excessiva ou se é inferior à normal. Se passa um jovem, examinam se está vestido com extravagância ou compostura. Se passa uma jovem, têm imediatamente a atenção chamada para a observância do 6º Mandamento, e assim por diante. Nada lhes escapa. E até seu espírito se manifesta surpreendentemente destro em relacionar tudo com a moral. O bonde serve de exemplo. Se anda com velocidade exagerada, é expressão da mania de velocidade que o Papa acaba de condenar. Se anda com excessiva lentidão, é a modorra do Brasil inteiro que vêem aflorar na indolência do motorneiro. E, assim por diante, não há o que não analisem, não classifiquem e não julguem.

Esta atitude que descrevo enquanto assumida por indivíduo, também pode ser de famílias ou de associações e de jornais. De jornais... sobretudo de um jornal: o “Catolicismo”. Tudo quanto ele publica parece ser direta ou indiretamente calculado para pôr o leitor nesta atitude de sobreaviso sistemático. Basta pensar na secção “Ambientes, Costumes, Civilizações”, que se me afigura feita para mostrar que na simples forma de uma cabeça de alfinete se pode refletir todo um firmamento de convicções artísticas, filosóficas ou até teológicas.

Confesso que tudo isto me causa não pequena estranheza. A meu ver, a naturalidade deve ser uma qualidade fundamental de toda mente equilibrada, e a fortiori do católico. Ora, o ponto de partida de toda naturalidade, aquilo que lhe é como que um pressuposto comezinho, é uma certa desprevenção de espírito, por onde nossa atenção caminha sem preocupações policiais, por todos os campos onde naturalmente venha a pousar, detendo-se sobre as coisas simplesmente como elas se apresentam espontaneamente à vista, vendo num bonde apenas um bonde, e numa cabeça de alfinete apenas uma cabeça de alfinete. Assim, fazer incursões pelas mais altas regiões da metafísica ou da teologia para julgar da forma de um chapéu, da velocidade de um veículo e do vôo de uma mosca, parece-me estreito, bizantino, antipático e, por assim dizer, torcicoloso.

Eu não diria tudo, se ficasse só nisto. Contra esse hábito de dividir longitudinalmente em quatro um fio de cabelo, para ver se nele se esconde uma heresia, tenho outra objeção a fazer. E é que ele conduz a um proselitismo incômodo e irritante. Como o comum dos homens não se preocupa com tais problemas quando vê moscas, bondes ou cabeças de alfinetes, o resultado está em que é necessário a todo momento fazê-los reparar nos monstros que nestes objetos, ou outros congêneres, se ocultam. Daí a toda hora o desejo de alertar o próximo. E de lhe perturbar o sossego. – Cuidado com isto. E mais com aquilo. Quando estiver, por exemplo, atravessando uma rua, cuidado com as mil influências ideológicas e morais que se desprendem dos veículos e transeuntes. Assim, é preciso cortar uma rua de intenso movimento, com a preocupação de evitar não só os atropelamentos físicos, mas também os espirituais. E de tanto cuidado, para premunir o espírito contra uma agressão representada pelas linhas marcianas do automóvel que vem num sentido, cai-se debaixo das rodas de um ônibus que vem em sentido oposto.

Ora, pergunto, isto é cabível? E foi para que os homens vivessem metidos num tal formigueiro de preocupações, que Deus lhes deu este belo sol rutilante, este firmamento azul, esta linda natureza clara, lógica, sólida, amiga, em que eles se movem?

Francamente, não.

Não quero entrar em discussões com o Sr. Sei que os elementos imbuídos deste estado de espírito são esgrimistas temíveis, manejando o gládio da dialética com toda a espécie de citações dos Papas e de São Tomás. Não os quero acompanhar nesta esgrima fatigante, para a qual meu espírito não tem o menor pendor. Limito-me a manter o problema nos termos simples, claros, de uma clareza despretensiosa e quase diria caseira, em que o pus. É para viver neste

(continua)



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