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Como pôde o mundo odiar Aquele

que passou fazendo o bem?

Plinio Corrêa de Oliveira

A gravura desta página reproduz uma tela de Lucas Cranach, o Velho (1471-1528), conservada no Museu de Gand: "A coroação de espinhos". Em torno do Divino Redentor, manietado e revestido de uma púrpura de irrisão, agrupam-se cinco figuras. No primeiro plano, um homem Lhe estende uma vara à guisa de cetro e, ao mesmo tempo, num cumprimento caricato, suspende o gorro e mostra-Lhe a língua. Ao lado, outro alarga a boca em atitude de escárnio. Os demais, ao fundo, se empenham em enfiar na cabeça adorável do Salvador, à guisa de coroa, como que um imenso chapéu de espinhos. No centro o Filho de Deus, dando mostras de dor física, mas sobretudo de intenso sofrimento moral, que supera o tormento corpóreo, e absorve inteiramente a Vítima divina. Dir-se-ia que Nosso Senhor sofre com o rancor destes miseráveis verdugos, mas que esse ódio não é senão a orla de um imenso oceano de rancor que se estende para além, até as fímbrias do horizonte. E é por esse oceano que o olhar de Jesus se alonga em dolorosa meditação.

O quadro de Lucas Cranach focaliza um aspecto importantíssimo da Paixão: o contraste entre a santidade infinita e o amor inefável do Redentor, a baixeza insondável e o implacável ódio dos que O supliciaram e mataram. Nele se patenteia a oposição irredutível entre a Luz – "erat lux vera" (Jo 1, 9) – e os filhos das trevas, entre a Verdade e o erro, a Ordem e a desordem, o Bem e o mal.

"Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo contristavi te?" - "Ó meu povo, que mal te fiz Eu, ou no que te contristei?" - Estas palavras, que a liturgia da Sexta-Feira Santa põe nos lábios de Nosso Senhor, estão bem no centro do tema que acabamos de enunciar.

Que um homem odeie quem lhe faz mal pode ser censurável, porém não é incompreensível. Mas como pode um homem odiar quem é bom, quem lhe faz bem?

Este problema é quase tão velho como a humanidade. Por que Caim odiou Abel? Por que os judeus perseguiram e não raro mataram os profetas? Por que os romanos perseguiram os cristãos?

Mais recentemente, porque foi difundido pelos protestantes tanto sangue de mártires, porque fez o mesmo a Revolução Francesa, ou a Revolução bolchevista na Rússia? Em nossos dias, como explicar o ódio dos comunistas na guerra civil espanhola, nas perseguições do México, da Hungria e da Iugoslávia? A terra ainda chora a morte do Cardeal Stepinac. Pergunta-se: porque foi ele tão odiado?

Bem sabemos que, formuladas assim, tais perguntas parecerão a muitos um tanto simplistas. O ódio dos inimigos da Igreja nem sempre foi gratuito. Não faltaram, por vezes, também da parte dos católicos, provocações e excessos que geraram reações. De outro lado, houve, em certo número de casos, equívocos, mal-entendidos e incompreensões que deram lugar a violências. Houve então mártires, não porque a Igreja fosse devidamente conhecida e sem embargo odiada como tal, mas precisamente porque ela era desconhecida ou desfigurada indevidamente.

Não negamos nada disto. Mas reduzir a estas causas o ódio das trevas contra a Luz, do mal contra o Bem, isto sim é singularmente simplificar o problema.

É o que na Paixão se evidencia com clareza meridiana.

* * *

Notemos preliminarmente que, se os católicos podem ter falhas, Nosso Senhor não as teve. Quer quanto ao fundo e à forma de sua pregação, quer quanto ao tato e à oportunidade com que ensinava, quer ainda quanto ao caráter edificante de seus exemplos, ao valor apologético de seus milagres, e ao aspecto santíssimo e empolgante de sua Pessoa, não pode haver dúvida. Ele não deu pretexto a

(continua)



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