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Neste mês de julho transcorre mais um aniversário do acontecimento que simbolicamente assinala o início da Revolução Francesa: a queda da Bastilha. Essa circunstância torna oportuna a publicação de um artigo, escrito por um de nossos mais jovens colaboradores, sobre os guerrilheiros heroicos que então se ergueram no Baixo Maine em defesa da Igreja e da civilização cristã. É um dever de justiça recordar em nossos dias os seus feitos, para tornar imorredoura a memória desses nobres soldados da Contra-Revolução. — No clichê: "A emboscada dos chouans", gravura do século XIX.

JEAN CHOUAN, HERÓI DA CONTRA-REVOLUÇÃO

Orlando Fedeli

A Revolução Francesa foi um dos maiores flagelos que já caíram sobre a humanidade e uma das principais vitórias do demônio em sua luta contra a Igreja. Impregnada do espírito protestante e do filosofismo do século XVIII, ela necessariamente viria a combater a Igreja, tornando-se essa luta o eixo de todo o movimento de 89. Infelizmente, quantos ainda hoje, e mesmo católicos, esquecem os ultrajes feitos a Deus e à Religião para apreciarem de um modo "imparcial" os fatos principais da Revolução! Estranha "imparcialidade", que se preocupa em rebuscar e revirar a lama da Revolução a fim de encontrar nela algo bom e sadio que compense tantos horrores. Tais observadores "neutros" acabam, quase sempre, concluindo que a Revolução contribuiu sobremodo para a felicidade dos homens, porque, por exemplo, estabeleceu o sistema métrico decimal... Ou então, aduz-se o "fermento evangélico" que se encontraria nos líderes revolucionários. Que fermento evangélico seria esse, que levava a profanar as igrejas com orgias, a adorar a deusa Razão na pessoa de uma atriz de teatro, a destruir relíquias e Hóstias? Foi este fermento evangélico que inspirou, talvez, o compositor desta estrofe cantada na Igreja de Notre-Dame, em Paris:

"Sur les autels de Marie

Nous plaçons la Liberté,

De la France le Messie

C'est la sainte Egalité".

Na verdade o que houve na Revolução foi espírito satânico. Ela, pregando a liberdade, perseguiu a Religião, apoderou-se dos bens eclesiásticos, saqueou as igrejas, perseguiu os Padres fiéis ao Papa. Quem não apostatasse era deportado ou morto.

Querer separar a Revolução da questão religiosa equivale a não compreender sua história. O aspecto religioso é que explica a dinâmica mais profunda da Revolução e a reação contra ela. A Contra-Revolução católica e monárquica verificou-se principalmente no Oeste, numa zona que coincide com a da pregação de São Luiz Grignion de Montfort. O grande devoto de Maria Santíssima percorrera, no início do século XVIII, o Oeste da França pregando a verdadeira devoção a Nossa Senhora, o amor à Cruz e ao rosário. Seu apostolado deixou marcas profundas na região. Quase um século depois, os camponeses da Vendéia e do Maine iam à luta rezando o terço, cantando ladainhas, e tendo como estandarte a bandeira do Rei com o Sagrado Coração de Jesus no centro.

Vendéia, principalmente, desperta admiração por sua grandeza e seu martírio. Houve, porém, homens que, apesar de não terem tido oportunidade de praticar ações tão importantes quanto as da Vendéia, distinguiram-se de tal maneira por sua coragem e dedicação, que o nome de seu chefe passou a ser o de toda a insurreição no Maine e na Bretanha. Estes homens foram os primeiros a levantar o estandarte da fidelidade a Deus e ao Rei, e foram os últimos a se submeterem. Suas ações não tiveram, a princípio, grande importância militar, mas o espírito com que combatiam os elevou a tal ponto, que não ficaram aquém de um Cathelineau ou um La Roche-Jaquelein vendeanos. Foram os chouans, do Baixo Maine.

A região é pontilhada de morros e colinas e bem regada por rios. Os camponeses costumavam tratar as arvores de tal modo, que estas ficavam com ramos longos e troncos grossos e ocos. Os chouans usavam-nos como esconderijos. Numerosas cercas cerradas e fossos dificultavam a travessia dos campos. Tudo isto tornava a região propicia para guerrilhas.

Os camponeses eram apegados a seus costumes e profundamente piedosos. Eram também caridosos e hospitaleiros. Um provérbio local dizia que Deus faz pagar três vezes a esmola recusada. Veneravam seus Curas, que consideravam como representantes do bom Deus.

Em 1792, multiplicando-se os ataques sacrílegos às igrejas e ao Clero, os manceaux ergueram-se com energia. Alguns cantões, porém, apoiaram a república, e em geral foram justamente aqueles cujos Párocos haviam apostatado.

No total, os insurretos não passaram de 6.000 homens que alternadamente manejavam as armas e os instrumentos de lavoura. Combatiam em pequenos grupos, armando emboscadas.

O aspecto desses homens era rude. Seus cabelos eram longos. Usavam um chapéu de abas largas, no qual alguns colocavam um penacho branco, símbolo da monarquia. Outros prendiam fitas brancas ao chapéu, nas quais se liam lemas monarquistas ou frases piedosas. Vestiam um casaco de pele de cabra que os protegia contra a chuva e o frio. Levavam costurado na roupa a imagem do Sagrado Coração, e o terço pendurado ao pescoço. Suas armas eram velhos fuzis de caça; no início, alguns só possuíam um longo bordão, a "forte", que em tempo de paz utilizavam para atravessar cercas e saltar fossos. Os chouans manejavam-no habilmente e enfrentavam com ele até dois soldados armados de sabre.

A maior parte desses camponeses adotava um apelido ou nome de guerra, para evitar represálias dos "patriotas" contra suas famílias. As alcunhas ora lembravam alguma característica pessoal, como por exemplo, Moustache, Jambe d'Argent, la Gaieté; ou então, eram como que lemas dos novos cruzados: Vengeur, Sans Peur, Coeur de Lion; outros ainda eram sumamente pitorescos: Benedicite, Petit Prince, Brise-Bleu, Tranche-Montagne, Mousqueton, Mitraille, Sabre-Tout, Francoeur, etc.

Eram homens de coragem extraordinária que enfrentavam tropas muito superiores em número e em armamento.

Os revolucionários procuraram tornar odioso o nome dos chouans, atribuindo-lhes massacres e roubos. Chegaram até a pagar bandidos que se vestiam como campônios para praticarem crimes e assim comprometer os soldados católicos.

É certo que mesmo entre os chouans houve alguns elementos maus. Isto, porém, não era geral, tanto mais que os ladrões e assassinos tinham muito mais futuro servindo a Revolução. Basta analisar superficialmente os homens que então governavam para ver de que lado estavam os bandidos.

Os chouans eram, em regra, muito piedosos. O terço era sua oração predileta, mediante a qual pediam a vitória antes da luta. Essa mesma prece era rezada como ação de graças após o combate. Nos esconderijos passavam o tempo desfiando as ave-marias. Muitos anos depois da Revolução foi encontrado na região um esqueleto dentro de uma árvore oca. Um fuzil ao lado e o terço enroscado nos ossos da mão indicavam que aquele homem, fora um chouan.

A revolta chouan teve início em 15 de agosto de 1792, na aldeia de Saint-Ouen des Toits, por ocasião da escolha dos "voluntários" que deviam ser incorporados ao exército revolucionário. Os camponeses foram reunidos na igreja profanada. Quando se tentou registrar os nomes dos conscritos, ouviram gritos de "abaixo os patauts (pejorativo que designava os republicanos), nada de voluntários". Os guardas tentaram impor a ordem, mas um homem lançou-se à frente, gritando corajosamente: "Não, não! Nada de voluntários. Se for preciso pegar em armas pelo Rei, nossos braços são dele, nós todos iremos, respondo por todos; mas se é necessário partir para defender o que chamais liberdade, vós que a desejais, combatei por ela. Quanto a nós, somos do Rei e só do Rei". Todos repetiam as mesmas palavras. Armou-se um tumulto e os revolucionários tiveram que fugir.

Quem havia falado desse modo desassombrado era Jean Cottereau, também chamado Jean Chouan, um camponês que desfrutava de enorme prestigio na região.

Outrora contrabandeara sal da Bretanha, pois naquela província não havia o imposto da "gabela", e o produto custava doze soldos menos que no Maine. Jean Chouan, para ajudar a mãe viúva, começou a se dedicar a esse contrabando. Foi preso, tendo escapado à morte em virtude da intervenção de sua mãe, que foi até Versalhes e obteve de Luís XVI o perdão para seu filho. Continuou, porém, a contrabandear. Em dada ocasião, numa luta entre contrabandistas e coletores de impostos, um destes foi morto. Jean Chouan teve que fugir. Mais tarde foi novamente preso, e ao sair da prisão estava transformado noutro homem.

Desde então, levou vida pacifica, até a Revolução. Sua piedade cresceu muito depois que ele saiu da prisão, e nunca mais arrefeceu. Guardou porém todo o seu prestigio de homem resoluto e hábil no combate.

Quando a Revolução se mostrou francamente inimiga do Rei e da Igreja, Jean aderiu à conjuração do Marquês de Ronarie, que procurava

(continua)



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