Catolicismo - Acervo
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A Idade Média legou esplêndidos monumentos da cooperação íntima entre o poder espiritual e o poder temporal, entre a Igreja e a sociedade. Um desses monumentos é a "Sainte-Chapelle" de Paris, obra prima de arte ao serviço da fé, que Luís IX, o Rei Santo, edificou para que os espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo fossem venerados por todo o povo. Nosso clichê reproduz a carta de fundação da "Sainte-Chapelle", datada de janeiro de 1246.

O Laicismo Impreciso e Vaporoso de Nossos Tempos

No dia 25 de março último, o Episcopado Italiano publicou, sob o título de «O Laicismo», uma Pastoral Coletiva dirigida ao Clero da Itália, que teve grande repercussão no mundo inteiro. O importante documento leva a assinatura dos Cardeais das Dioceses Suburbicarias, do Patriarca de Veneza, dos Cardeais das Arquidioceses italianas, e dos Arcebispos, Bispos e Abades Nullius de todas as Dioceses da península.

Os tópicos que passamos a apresentar foram extraídos do texto integral publicado pelo «Osservatore Romano» em francês, de 29 de abril de 1960, e pela Revista Eclesiástica Brasileira de junho p. p. Os subtítulos são do original.

Constatações e ansiedades

Inicialmente escrevem os Bispos:

«Nas páginas que se seguem vereis a Nossa preocupação por um erro e por uma mentalidade que se acham em extremo contraste com a Encarnação, e com a vida sobrenatural que a Encarnação restaurou no mundo.

Há um humanismo que proclama querer tomar em consideração todos os problemas humanos, e que pretende compreendê-los e poder resolvê-los com as forças e com os valores puramente humanos, mas se obstina em ignorar ou em combater Jesus Cristo.

Foi a Encarnação que deu ao mundo Jesus Cristo, o qual pôs na verdadeira luz os problemas humanos, ensinou os princípios para a avaliação deles, ofereceu os meios para a sua solução.

Com incompreensível ilogicidade, os que apregoam o valor soberano do homem não querem saber de Jesus Cristo, da sua obra, daqueles que, homens também, crendo nEle e seguindo os seus mandatos, sabem que não somente o homem recebeu de Deus um fim que lhe supera a natureza, mas também que esta própria natureza não pode expandir-se e afirmar na sua plenitude, na sua harmoniosa integridade, se esquece o sobrenatural, se rejeita a graça, se exclui as instituições e os meios queridos por Deus para que a graça chegue às almas.

As Nossas palavras, querem sobretudo reavivar em vós o senso da dignidade que vos foi conferida como fermento, como sal, como luz da terra que sois».

O primeiro tópico da Carta, intitulado «Constatações e ansiedades", faz um rápido balanço da admirável atuação do Clero italiano no após-guerra e do afervoramento da vida religiosa do país nesse período. Em seguida indica o papel sempre mais importante que vêm assumindo as massas no concerto das forças vivas da nação, acompanhado de uma perigosa infiltração de desvios doutrinários e morais. São expressamente mencionados os seguintes: concessão a um hedonismo cada vez mais exasperado, estima excessiva e exclusiva dos valores econômicos, relativismo moral contagiante, que fascina especialmente as gerações novas, exteriorização tão desordenada da vida que, por assim dizer, sufoca na alma a possibilidade da reflexão sobre as realidades mais serias e promete um triunfo absurdo às realidades mais efêmeras e banais.

Entrando no âmago da questão, o pronunciamento episcopal denuncia e estuda nestes termos o denominador comum desses erros:

1. O LAIC1SMO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

Natureza do laicismo

«3. Na base dos diversos desvios doutrinários e práticos do mundo atual será que se pode descobrir como que um denominador comum, que de algum modo exprima a alma de tudo e represente o princípio inspirador da complexa gama das atitudes errôneas no campo religioso e moral?

Pensamos que sim, e cremos reconhecer essa atitude fundamental nessa difundida mentalidade atual que é conhecida pelo nome de «laicismo». Não receamos afirmar que este é o erro de base, no qual estão contidos em raiz todos os outros, numa infinidade de derivações e de tonalidades.

4. É difícil dar uma definição do laicismo, visto que ele exprime um estado de alma complexo e apresenta uma multiforme variedade de posições. Todavia, é possível identificar nele uma linha constante que assim poderia ser definida: uma tendência ou, melhor ainda, uma mentalidade de oposição sistemática e alarmista para com toda influência que a Religião em geral, e a Hierarquia católica em particular, possam exercer sobre os homens, sobre as suas atividades e instituições.

Assim é que nos achamos frente a uma concepção puramente naturalista da vida, na qual os valores religiosos ou são explicitamente recusados ou são relegados ao recinto fechado das consciências e à mística penumbra dos templos, sem nenhum direito a penetrar e a influenciar a vida pública do homem (sua atividade filosófica, jurídica, científica, artística, econômica, social, política, etc.).

5. Temos assim, antes de tudo, um laicismo que na prática se identifica com o ateísmo. Ele nega a Deus, opõe-se abertamente a toda forma de religião, refere tudo à esfera da imanência humana. O marxismo está precisamente nesta posição, e não é o caso de nos determos a ilustrá-lo.

Temos, depois, uma expressão menos radical, porém mais comum, de laicismo, que admite Deus e o fato religioso, mas se recusa a aceitar a ordem sobrenatural como realidade viva e operante na história humana. Na edificação da cidade terrena ele entende de prescindir completamente dos ditames da Revelação cristã, nega à Igreja uma superior missão espiritual orientadora, iluminadora, vivificadora da ordem temporal.

6. As crenças religiosas, segundo este laicismo, são um fato de natureza exclusivamente privada; para a vida pública só existiria o homem na sua condição puramente natural, totalmente desligado de qualquer relação com uma ordem sobrenatural de verdade e de moralidade. O crente é, por isto, livre de professar na sua vida privada as ideias em que crê. Mas, se, saindo do âmbito da prática individual, a sua fé religiosa tenta traduzir-se em ação concreta e coerente para informar segundo os ditames do Evangelho também a sua vida pública e social, então faz-se disso um escândalo, como se se tratasse de uma pretensão inadmissível.

À Igreja reconhece-se, quando muito, um poder independente e soberano no desenvolvimento da sua atividade especificamente religiosa e provida de um escopo imediatamente sobrenatural (atos de culto, administração dos Sacramentos, pregação da doutrina revelada, etc.). Mas se Lhe contesta todo direito de intervir na vida pública do homem, visto que esta gozaria de plena autonomia jurídica e moral, e não poderia aceitar dependência alguma, ou sequer mera inspiração, de doutrinas religiosas externas.

7. Não Nos deteremos a refutar tais afirmações, que estão em nitidíssimo contraste com a doutrina católica. Queremos somente frisar o alcance gravíssimo delas. Praticamente se nega o fato histórico da Revelação ou se prescinde dele; desconhece-se a natureza e a missão salvadora da Igreja; tenta-se fragmentar a unidade de vida do cristão, no qual é absurdo querer cindir a vida privada da vida pública; abandona-se ao arbítrio do indivíduo ou das coletividades a distinção entre a verdade e erro, o bem e o mal, abrindo assim o caminho a todas as aberrações individuais e sociais, das quais — infelizmente — os nossos últimos decênios têm oferecido testemunhos atrozes.

Como se vê, o fenômeno laicista tem suas raízes imersas num contraste substancial de princípios. Ele não se esgota no fato político contingente, mesmo se prefere desenvolver sobretudo neste terreno a sua polemica cotidiana contra a Igreja. Na sua acepção mais consequente, ele é uma concepção de vida diametralmente oposta à concepção cristã.

8. O perigo inerente a esse erro é hoje acentuado por dois fatos. Antes de tudo, na hodierna situação italiana, o laicismo geralmente evita as atitudes vulgares e grosseiras do velho anticlericalismo do século XIX. É mais hábil, mais flexível, mais lúcido e mais atualizado segundo as técnicas do tempo. À agressão direta ele prefere a insinuação pérfida e a crítica subtil; à discussão aberta ele prefere os ditos de espírito e o escárnio; ao ataque às ideias ele prefere a utilização das fraquezas dos homens; às declamações espetaculares de praça pública ele prefere o ouropel de uma certa severidade cultural.

Mesmo quando ataca a Igreja, ele se esforça por se acobertar com nobres motivos: quisera desligá-La, de todo «compromisso» temporal, purificá-La de toda «contaminação» mundana e política, pô-La ao passo dos tempos e remoçar Lhe as estruturas internas, a fim de que, livre e rejuvenescida, Ela possa tornar a exercer o seu soberano ministério espiritual sobre as almas.

9. A isto se junta outro fator importante: o laicismo foge a posições doutrinarias precisas. Como todos os erros de hoje, ele prefere as atitudes imprecisas e vaporosas. Aproveita-se sobretudo de impressões, sentimentos e ressentimentos, estados de alma. Isso às vezes é devido à superficialidade das suas ideias, porém muitas vezes obedece a um cálculo preciso. Ele gosta de jogar com o equívoco para atingir os seus escopos sem suscitar reações excessivas, mormente naquela parte da opinião pública ainda ligada — de algum modo — à Religião e à moral cristã. Mimetiza-se para operar sem ser perturbado, de modo a criar gradualmente um clima de pensamento e de vida desligado de qualquer referência sobrenatural, e aberto a todas as aventuras intelectuais e morais.

Estes fatos tornam a cilada muito mais grave, pois sob o respeito aparente à fé religiosa do povo pode ser gradual e insensivelmente consumada uma obra de corrosão sistemática da alma católica do país».

Prosseguindo, os Exmos Prelados frisam a característica profundamente anti-religiosa da atitude laicista atual, enumerando-lhe as

(continua)



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