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Filial presente a João XXIII por dois aniversários augustos

Plinio Corrêa de Oliveira

Ao longo da história, têm variado muito os presentes escolhidos pelos homens para exprimirem sua estima e sua alegria aos que desejam obsequiar por motivo de nascimento, de aniversário, de bodas ou por qualquer outra razão.

Os antigos, afeitos ao simbolismo, gostavam de dar presentes de alto valor, não tanto por causa da utilidade que pudessem ter para o homenageado, como para expressar, através dos predicados do objeto ofertado, algo de espiritual que seria propriamente a quinta-essência do dom. Assim, os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus ouro, incenso e mirra, e expressavam com isto o amor de Deus, a oração e a penitência, disposições de alma que representavam uma oferenda incomparavelmente mais importante do que a utilidade que esses presentes poderiam ter para a Sagrada Família, do ponto de vista prático, na vida quotidiana.

Não é possível esboçar aqui uma história dos presentes através dos séculos. Saltando, pois, daquelas remotas eras para o século XIX, mais próximo (e entretanto tão distante!) de nós, podemos observar que o presente ainda conservava então seu significado simbólico. A uma senhora ofereciam-se flores, perfumes, leques, quando não joias, em geral com uma discreta e bem escolhida alusão a algum predicado dela. A um senhor (ainda os havia) dava-se algum objeto em relação com suas atividades ou seu modo de ser: uma bengala, por exemplo, rija como uma espada mas adornada e distinta como um bastão de comando, símbolo da alta categoria e do poder de quem a empunhava. Ou uma pasta de trabalho de couro precioso e perfumado, discreta, sisuda, elegante, como preciosos, poéticos, distintos, elevados e nobres seriam os pensamentos que seu dono consignaria nas folhas que ali guardasse. Havia, pois, presentes, que “ficavam bem” para uma pessoa, e não para outra, porque condiziam com aquela e não com esta. Mas, se bem que sempre vivo, o simbolismo já então denotava sintomas de fraqueza. É que frequentemente era acompanhado de longos e espraiados discursos. De discurseira, diziam, não raras vezes, as pessoas afeitas à concisão e à rapidez. Onde há símbolo, o palavreado longo e prolixo é particularmente dispensável. Pois, ou o símbolo fala sua linguagem específica, à qual só se podem somar, quando muito, breves palavras, ou – se se acha necessário reforçá-lo com uma longa e verbosa explicação – cumpre reconhecer que ele é aguado, de expressão confusa ou gasta.

Essa debilidade do símbolo se acentuou em nossos dias. No presente de luxo, que ainda conserva um vestígio de valor simbólico, o que se olha como símbolo é cada vez menos a relação entre o objeto e os predicados do presenteado, e cada vez mais o preço. Este, sim, é um símbolo que ainda “fala”. E “fala” tanto, que dispensa palavras. Indica em números a “cotação” do homenageado junto ao ou aos homenageantes. Quanto mais caro o presente, tanto mais é amigo quem dá, e tanto mais fica amigo quem recebe. Há nisto uma expressão viva do poder do número e – porque não dizê-lo? – do poder do dinheiro, em nossa época rude, atormentada e utilitária. Não fica nisto porém, em matéria de presentes, a influência do utilitarismo contemporâneo. O presente com vago resquício de significado simbólico vai desaparecendo para dar sempre mais lugar ao presente prático. Isso se nota sobretudo por ocasião de casamentos: as pessoas de posses medianas se cotizam para oferecer geladeiras, batedeiras, aspiradores, máquinas para lavar, encerar, costurar ou escrever, faqueiros, roupas de cama ou mesa; enquanto as pessoas de maiores recursos dão casas, títulos, automóveis, iates quiçá.

O simbolismo vai morrendo ao sopro gélido do utilitarismo. Sob o influxo deste, entretanto, começa-se a operar por sua vez mais uma transformação. Quem presenteia já não pensa só na utilidade de quem recebe. Pensa também em si. O desprendimento vai minguando.Quem dá perde gradualmente a vontade de dar. E vai vendo cada vez mais no presente um velado imposto. O ocaso da generosidade cristã e o triunfo do hiperutilitarismo pagão levam aos últimos estágios de decadência o presente. Quem o dá, fá-lo sempre mais frequentemente rangendo os dentes e sorrindo com os lábios. Quem o recebe,

(continua)



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