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VALOR ESTÉTICO E VALOR MORAL NA PRODUÇÃO ARTISTICA

Cunha Alvarenga

O valor estético e o valor moral de uma obra de arte são duas coisas distintas. Entretanto, não se pode falar em autonomia absoluta do valor estético, embora seja ele de importância capital na obra de arte em si mesma considerada. Distinção neste caso não significa separação completa nem liberdade ou independência em relação à ordem moral, em nome do falso princípio da arte pela arte.

Diz São Tomás de Aquino que "para que um homem faça bom uso da arte que possui, necessita de vontade reta, que se aperfeiçoa mediante a virtude moral" (Suma Teol. I-II, q. 57, a. 3, ad 2). Comentando esse trecho, esclarece Cayetano que "pode uma pessoa blasfemar de Deus em um discurso gramatical perfeitíssimo". Entendamos, portanto: a arte tem suas leis próprias, tem seu campo próprio e seus próprios recursos. Não se trata, porém, de uma arte desencarnada, separada do homem; ela permanece sempre um simples meio de expressão nas mãos do artista. Este, como qualquer outro mortal, está sujeito à suprema vontade de Deus, que é o Sumo Bem, a Suma Verdade e a Suma Beleza. Portanto, tem que se conformar com a lei moral emanada desse mesmo Deus.

BELEZA OU ILUSÃO DO DEMONIO?

A verdadeira obra de arte é pois aquela que se acha em harmonia com a ordem que Deus estabeleceu no universo como um todo, e em cada uma de suas partes, por pequena e humilde que seja. A beleza do universo criado não existe por si mesma, porém como simples reflexo do Criador, e a quem quer que ame a Deus sobre todas as coisas há de repugnar essa contrafação do belo que é uma obra de arte realizada com desrespeito da lei moral. Dizer, por exemplo, geometricamente e sem mais explicações, que a finalidade própria de uma obra de arte é a beleza e não o bem, conforme pregavam os estetas renascentistas e hoje repetem seus herdeiros liberais, é admitir a coexistência pacifica da beleza com a maldade, com a devassidão, com o crime, com as paixões desregradas. Não se trata, neste caso, da autêntica beleza que emana do universo criado por Deus, mas de ilusão do demônio, de fantasia fugaz como a que Mefistófeles fez aparecer diante dos olhos cansados desse homem velho que era Fausto.

Na ordem da graça em que nos achamos, não devemos dissociar o artista do cristão. E a capacidade artística nos é dada gratuitamente por Deus em proporções muito variadas. Entre um Dante e um São Francisco de Assis, entre a Divina Comedia e o Cântico do Sol podemos ver claramente essa gradação. Mas em ambos os casos a beleza do poema não se acha separada do louvor devido a Deus, embora se trate de manifestações artísticas bem diferentes.

ARTE E ESPÍRITO DE VARIEDADE

Pobre da arte se ficasse circunscrita a frios padrões estereotipados. Que seria da arte popular, não erudita, se se aplicassem ao campo estético rígidas normas de perfeição olímpica? De um Fra Angélico a um simples oleiro, que imensa gama de criações artísticas! Mesmo porque todo o homem é um esteta a seu modo. E a dificuldade maior ou menor que este ou aquele possa ter em exteriorizar esse pendor artístico pouco ou nada prejudicará sua missão sobre a terra, pressuposta a necessária retidão de intenção e a indispensável humildade. Tomemos o caso de Santa Teresinha. Gostava ela de pintar e podemos dizer que suas despretensiosas produções artísticas eram de valor mediano. Este fato terá influído desfavoravelmente no ânimo dos que acompanharam a vida e a atuação dessa extraordinária carmelita ?

Mais ainda. São Luís Maria Grignion de Montfort foi um dos mais admiráveis apóstolos do mundo moderno. Sua pregação deixou um rastro luminoso pela França, em todos os lugares em que o galicanismo e o jansenismo não dificultaram ou proibiram seu trabalho pela salvação das almas.

Pois bem. É importantíssima a parte que tocava aos cânticos na pregação do evangelizador da Vendéia. Para isso o Santo se fez poeta. E há uns versos dedicados "Aos poetas de hoje" que podem ser considerados como a explanação de sua arte poética. Por eles se comprova mais uma vez a verdade de que os caminhos de Deus são bem diversos dos caminhos dos homens.

Com toda a certeza, de Boileau a nossos dias muitos homens de letras não concordariam com o método de versificação usado pelo humilde missionário. Salve-se a beleza, dizem tantos críticos literários de ontem e de hoje. Salve-se a verdade e o bem, diz o Santo. Os cânticos de São Luís Maria — como ele escreve em "Aos poetas de hoje" —"se não são belos, são bons", "se não deleitam os ouvidos, rimam grandes maravilhas". São pobres versos comuns, mas "nem por isso são menos salutares". Neles não se deve procurar "o espírito sublime" mas a expressão da verdade. Versos feitos para os pequeninos, versos sem vaidade, destinados a guardar a inocência da alma. Têm eles a finalidade moral de destruir os vícios, de cantar a grandeza do Altíssimo, de fazer amar a justiça.

S. LUÍS BEM ASSIMILOU S. TOMÁS

Ora, versos compostos com tamanha indiferença pela "Arte poética" de Boileau, que estava em moda no tempo, só poderiam produzir efeitos desastrosos, segundo a tese daqueles que acham que “um mau romance, de boa moral, é muito mais pernicioso do que um bom romance sem moral alguma ou mesmo com uma moral perniciosa. Deste ao menos se guarda a beleza, ao passo que o outro nos afasta do bem, por enjoo...” (1). Tais versos, que seu autor é o primeiro a confessar que são comuns, sem maior beleza, sem sublimidade, sem altissonância, que não visam a deleitar os ouvidos e não se empenham em seguir os métodos dos grandes poetas do dia, tais pobres versos estariam destinados — a ser verdadeira a tese a que vimos de aludir — a exercer um contra-apostolado, a produzir uma devastação entre as ovelhas de tão canhestro pastor.

Na realidade, porém, que aconteceu? Felizmente para a causa da Igreja, São Luís Maria muito bem assimilou o que São Tomás de Aquino quis dizer ao fazer a distinção entre arte e moral, e não hesitou em cantar as glorias de Deus e combater os vícios em versos pobres e despretensiosos, certo de que as almas simples, os humildes de coração o compreenderiam, qualquer que fosse a condição social de seus ouvintes. Reconhecia o apostolo do Santo Rosário as deficiências de seus recursos estéticos, mas não vacilava em usar desses imperfeitos meios de expressão poética para a salvação das almas. E foi cantando alguns desses versos singelos, dedicados à Santíssima Virgem, que anos mais tarde as Filhas da Sabedoria subiram ao cadafalso durante a Revolução.

Viandantes neste mundo, todos os meios devemos empregar para atingir nosso último fim. Se até a chuva e o orvalho, o gelo e a neve devem louvar e exaltar o Senhor (cf. Dan. 3, 64 e 70), o que de mais natural que usarmos de tudo, inclusive de nossos dotes artísticos, por mais humildes que sejam, para dar gloria a Deus e conduzir nossos irmãos à sua eterna morada? Como no caso do óbolo da viúva (cf. Marc. 12, 41-44), Nosso Senhor aceita complacente tudo aquilo que Lhe é dado com simplicidade de coração. E é bem significativo que, na hora de sua morte, entoasse São Luís Maria Grignion de Montfort os primeiros versos de um de seus cânticos, "O Caminho do Paraíso”:

"Allons, mes chers amis,

Allons en Paradis.

Quoi qu'on gagne en ces lieux,

Le Paradis vaut mieux".

(1) Tristão de Ataide, artigo «Os falsos amigos», em O Jornal do Brasil», de 10 de março de 1960, transcrito em Catolicismo», no 112, de abril do mesmo ano.


Toma posse dia 16

O novo Arcebispo de Diamantina, Exmo. Revmo. Sr. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D.

Diversas e significativas solenidades estão programadas, em Jacarezinho, são Paulo, Belo Horizonte e Diamantina, para homenagear o egrégio Prelado, como noticiamos no último número.

No clichê, o brasão de armas de S. Excia. Revma.


Verdades esquecidas

UMA POESIA DE PEQUENO VALOR LITERÁRIO PODE EDIFICAR

O texto publicado desta vez em "Verdades Esquecidas" é comentado por nosso colaborador Cunha Alvarenga no artigo que estampamos ao lado. Trata-se do cântico "Aux poètes du temps" ("Obras de San Luis Maria Grignion de Montfort" - BAC, Madrid, 1954 - p. 708, no 2). Reproduzimo-lo na língua original, para que nossos leitores — que na sua grande maioria conhecem o francês — possam verificar a modesta qualidade literária dos versos, à qual alude o comentário do Sr. Cunha Alvarenga.

DIEU SEUL

São Luís Maria Grignion de Montfort

Ceci n'est pas pour vous charmer,

Vous qui ne pensez qu'à rimer,

Grands poètes, gens incommodes.

Je laisse à d'autres vos méthodes.

* * *

Je sais bien que vous n'approuvez

Que les vers qui sont relevés,

Que des phrases à double étage,

Qui font un fou plutôt qu'un sage.

* * *

Vous ferez dix tours et contours

Pour faire un vers tout à rebours,

Pour exprimer une sornette,

Un vain combat d'une amourette.

* * *

Voici mes vers et mes chansons:

S'ils ne sont pas beaux, ils sont bons,

S'ils ne flattent pas les oreilles

Ils riment de grandes merveilles.

* * *

S'ils ne sont que pour les petits,

Ils n'en sont pas d'un moindre prix;

Si ce sont des vers ordinaires,

Ils n'en sont pas moins salutaires.

* * *

Lisez-les donc, et les chantez,

Pesez-les et les méditez,

N'y cherchez point l'esprit sublime,

Mais la vérité que j'exprime.

* * *

Prédicateur, dans mes chansons

Vous pouvez trouver vos sermons,

J'en ai digéré la matière

Pour vous aider et pour vous plaire.

* * *

Voici des sujets d'oraison,

Je crois le dire avec raison,

Car souvent un vers, une rime

Font qu'une vérité s'imprime.

* * *

Chaque mot d'un vers doit porter

Pour qu'on le puisse méditer,

Pour le garder en sa mémoire,

Pour son bouquet et pour sa gloire.

* * *

Coeur affligé, chantez, chantez,

En chantant vous vous surmontez,

Le cantique est très efficace,

Pour avoir la joie et la grâce.

* * *

Chantez, et de bouche et de coeur,

A haute voix, avec ardeur,

Pour bannir du coeur la tristesse

Et pour le remplir d'allégresse.

* * *

Prenez garde à la vanité,

Qui chante veut être écouté;

Si votre voix est ravissante,

Que votre âme soit innocente.

* * *

Chantons donc tous, et comme il faut,

Chantons les grandeurs du Très-Haut,

En chantant détruisons le vice

Et faisons aimer la justice.



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