Levantai-Vos, Criança Divina, e com o sopro de vossa boca destruí o inimigo que tudo é de Deus

(continuação)

Logos — Ser e Verdade. Verdade objetiva, verdade eterna, verdade substancial, o Logos é, necessariamente. Tudo foi feito no Ser-Verdade, e sem Ele nada existe. Tudo o que existe é imagem do Ser-Verdade-Bem.

Logos — Ordem eterna. Relação essencial entre a Ideia divina e o ser por Ela concebido, criado e destinado a Deus. Ordem objetiva, absoluta do "Ser", ordem igualmente objetiva, absoluta do "Vero". Verbo, conteúdo de um outro mundo, do mundo mais real, do mundo necessário, do mundo do Ato Puro, oposto ao outro, ao mundo do contingente, do potencial, do ato incompleto e da matéria.

Nasceis, Salvador, Logos-Homem, Homem-Deus. Antes de falar, sois. Sois Verdade, sois Ordem absoluta e definitiva, eterna, necessária, substancial. Sois espírito e sois carne! Proclamais a existência das duas grandes realidades harmônicas: espírito — matéria. Em Vós o espírito se encontra em sua plenitude — Pessoa Divina e alma humana — em Vós a matéria se encontra em seu máximo expoente: "Corpus autem aptasti mihi" (1) (Heb. 10, 5)! Homem definitivo. Se por ventura houve alguma evolução, sois ponto final nesta hipotética ascensão. Homem perfeito. "Primogênito entre muitos irmãos" (Rom. 8, 29). Sentar-Vos-eis um dia à direita do Pai, com vossa Humanidade assumida. Cabeça da Igreja, na qual cada fiel é membro. Cabeça definitiva. Homem definitivo.

Sois garantia e guardião da Ordem objetiva, da Verdade objetiva, do Bem, da Moral objetiva, absoluta. "Cujus regni non erit finis" (2) (do Credo). Estabeleceis um regime que não evolui desde os homens que criastes para super-homens do "novo milênio", mas um regime definitivo, "reino de caridade e graça, reino de verdade e vida, reino de justiça, de amor e de paz".

Não sois um representante da humanidade evoluída e em evolução. Sois a plenitude da humanidade. Nosso destino não é o de sermos mais perfeitos que Vós, Infante amado, mas sim o de receber da vossa plenitude a graça de sermos filhos de Deus e vossos irmãos, nascendo não dos impulsos da carne nem dos anseios da paternidade humana, mas diretamente de Deus.

Vindes trazer uma realidade tão alta, tão espiritual, que já é divina: a graça. Plantais esta realidade no centro do universo, e a ela tudo destinais. Da própria matéria a graça se apodera. Domina-a pela caridade, e um dia ressuscitareis a matéria envolta na graça, a fim de trasladar para a vossa gloria os homens, corpo e alma transfigurados.

Afirmais o espírito, mas afirmais também a matéria. Afirmais a matéria, mas afirmais também o espírito. Trazeis fé e vindicais a razão.

Em oposição ao marxismo que nega o Ser, Vós sois o Ser. "Ego sum!" (3) (Jo. 8, 58).

Em oposição ao marxismo que nega o Vero, Vós sois a Verdade: "Sum ventas!" (4) (Jo. 14, 6).

Em oposição ao marxismo que nega o espírito, Vós afirmais: "Spiritus est qui vivificat!" (5) (Jo. 6, 64).

Em oposição ao marxismo que não vê o paraíso senão na terra, Vós proclamais: "Quid prodest homini si mandam universum lucretur?" (6) (Mat. 16, 26).

Em oposição ao marxismo que proclama a suprema era do econômico, Vós dizeis: "Quaerite primum regnum Dei et justitiam ejus!" (7) (Mat. 6, 33).

Em oposição ao marxismo que brada: "Gloria ao homem na terra e guerra a Deus nas alturas", sobre o vosso berço de Infante cantam os Anjos: "Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade" (Luc. 2, 14).

Contra a Estrela gnóstica do Kremlin, fazeis brilhar vossa Estrela de Belém.

Levantai-vos de vosso berço, Senhor! Em Moscou apagam na pedra do mausoléu da Praça Vermelha o nome do grande criminoso Stalin, retiram o seu cadáver embalsamado, e o lançam em alguma fossa desconhecida. Derrubaram o ídolo adorado por trinta anos. Mas as mãos que procuram apagar o sangue estão, elas também, manchadas de sangue. São mãos de carrascos.

Levantai-Vos, Criança Divina, e com o sopro da vossa boca destruí o vosso inimigo, o inimigo de tudo o que lembra a Deus, vosso Pai.

Levantai-Vos, Criança Divina, e fazei que os homens compreendam que são filhos de Deus e não filhos de brutos, e que os animais que ruminam em torno de vossa creche não são seus irmãos, mas seus súditos, porque Vós, Logos, Ser-Verdade, acendestes em nosso coração a chama da alma espiritual, e nos destes um destino eterno.

Levantai-Vos, Senhor, e fazei que nossas cabeças não mais sintam a vertigem que faz que nos pareça o mundo vacilar, mas sintam que o universo repousa em vossa mão.

1) "Preparastes para Mim um corpo".

2) "Seu reino não terá fim".

3) "Eu sou".

4) "Eu sou a verdade".

5) "É o espírito que vivifica".

6) "De que vale ao homem ganhar todo o mundo?"

7) "Procurai primeiramente o reino de Deus e a sua justiça".

ESCREVEM OS LEITORES

A TRÉPLICA DO EXMO. REVMO. SR. ARCEBISPO DE GOIÂNIA

Sr. P. F., Rio de Janeiro (Est. Guanabara): «Duas perguntas. Por que a «Revista Eclesiástica Brasileira», quando publicou o artigo de D. Fernando Gomes, Arcebispo de Goiânia, contra o livro «Reforma Agrária — Questão de Consciência» (REB, junho de 1961, pp. 387-399), não pediu a nenhum dos autores suas observações a respeito, e quando publicou a resposta de D. Antonio de Castro Mayer, pediu a D. Fernando Gomes que respondesse (REB, setembro de 1961, pp. 669-671)? Segunda: que lhe parece a tréplica de D. Fernando Gomes?»

R - Não sabemos o móvel da "Revista Eclesiástica Brasileira" na sua maneira de agir. Em geral, quando um periódico se bate por uma opinião, procura ou desfazer ou diluir nos leitores qualquer impressão contraria causada por algum artigo que se veja na contingência de publicar. Acreditamos que, sendo agro-reformista, tenha a REB agido no caso dessa maneira. Achando que devia publicar a refutação que o Sr. Bispo D. Antonio de Castro Mayer opôs às considerações do Sr. Arcebispo D. Fernando Gomes, procurou extenuar mediante a tréplica deste último a impressão que os argumentos do primeiro causariam nos leitores. Cremos que foi só isso. Qualquer jornal costuma proceder assim.

* * *

Com todo o respeito e reverencia que devemos ao Exmo. Revmo. Sr. Arcebispo de Goiânia, julgamos que sua tréplica não abalou a argumentação de S. Excia. Revma. o Sr. Bispo de Campos. Ela se desfaz com a leitura do artigo de D. Antonio de Castro Mayer. Sem intenção de apresentar aqui todo um arrazoado, que o espaço desta seção não comporta, consignaremos, não obstante, algumas observações para justificar o que acabamos de afirmar.

Assim:

1) Achamos que o Sr. Bispo Diocesano tem razão de lamentar que o Sr. D. Fernando Gomes, na sua crítica, não atenda ao nexo existente entre a primeira e a segunda parte do livro. Quem, numa obra com duas partes intimamente relacionadas, analisa uma sem atender à ligação que tem com a outra, expõe-se a um julgamento falho. Foi o que aconteceu ao Exmo. Sr. Arcebispo de Goiânia ao declarar, por exemplo, que os autores de "Reforma Agrária — Questão de Consciência" veem socialismo em tudo. Se S. Excia. Revma. tivesse lido a segunda parte do livro, teria verificado que, de 213 projetos de política rural apresentados ao Congresso Nacional, a obra critica apenas 20, que são os que propugnam uma reforma agrária de cunho socialista (pp. 234-235). O que quer dizer que os autores não estão assim tão obcecados com algo de irreal, que o estejam vendo por toda parte.

Além do mais, um livro visando combater a tendência socialista atuante no Brasil será sempre incompleto se não relacionar a doutrina com a situação agropecuária do País. De acordo com a aplicação certa ou errada que ele faça da doutrina ao caso concreto, sua argumentação será concludente ou não. Examinar, pois, apenas a argumentação, sem examinar a necessária confirmação dos fatos, é fazer crítica falha e expor-se a conclusões apressadas.

2) Também não nos parece tenha o Sr. D. Fernando Gomes justificado sua afirmação de que o livro é omisso quanto à reforma agrária de inspiração cristã.

Pretende o ilustre Prelado que seus autores não tomam em consideração os abusos do capitalismo existentes em outros setores da vida rural. Com toda a reverencia, parece-nos que dá prova de ter lido o livro muito superficialmente ao insistir nessa asserção.

Se "Reforma Agrária — Questão de Consciência" focalizou especialmente a presença do socialismo, na invasão agro-reformista, foi porque este fato se tornou um problema de grande atualidade e reclamava um estudo serio e concludente. O furor com que investiu contra o livro a imprensa comunistizante, demonstra a utilidade dele e o seu valor altamente positivo na defesa da estrutura agrária de acordo com a doutrina católica. Seja-nos permitido repetir aqui a estranheza que já manifestou o Sr. D. Antonio de Castro Mayer quanto ao fato de o Sr. Arcebispo de Goiânia ter-se mostrado tão exigente de parte positiva na obra, e ter sido tão benévolo ao julgar conforme à doutrina da Igreja a lei de Revisão Agrária do governo de São Paulo, onde, a par do atentado contra o direito de propriedade, mediante a desapropriação de terras inaproveitadas, só porque inaproveitadas, e o imposto expropriatório, nada há que vise a fomentar a emenda dos costumes, indispensável em qualquer reforma agrária verdadeiramente cristã.

3) Pelas palavras do Sr. D. Fernando, acreditaríamos que a Revisão Agrária paulista foi canonizada pela Encíclica "Mater et Magistra".

Não será possível transcrever aqui todo o trecho em que o providencial documento trata da agricultura. Nossos leitores podem vê-lo em "Catolicismo", n.° 129, de setembro deste ano. Salientemos que ele não fala uma só vez em desapropriação, e muito menos em desapropriação de terras inaproveitadas, só porque inaproveitadas, quando este princípio falso está na base de toda a Revisão Agrária do governo paulista. O Papa não tem nenhuma palavra que justifique a tributação expropriatória sobre os imóveis agrícolas, outro ponto cardial da lei agrária de São Paulo. João XXIII, no lugar mesmo em que enaltece a empresa agrícola de dimensões familiares, toma todo o cuidado para não apresentá-la como tipo único de exploração agrária, admitindo, pois, de acordo com as condições dos diversos países e regiões, propriedades rurais de várias dimensões. Enfim, a Encíclica é uma muralha contra o socialismo, pela saliência que dá ao princípio de subsidiariedade, quando a Revisão Agrária tem como base a intervenção estatal. Por tudo isso, com toda a reverencia, admiramos como possa asseverar o Sr. D. Fernando Gomes que, "a respeito da Revisão Agrária do Estado de São Paulo, temos, para júbilo de todos, a palavra autorizada e esclarecedora do Santo Padre João XXIII, na recente Encíclica Mater et Magistra".

* * *

Pelo exposto, julgamos que o Exmo. Revmo. Sr. Arcebispo de Goiânia não respondeu aos argumentos de S. Excia. Revma. o Sr. Bispo de Campos.

Nossa l.a página.

No clichê a cena central do Presépio napolitano pertencente à Prefeitura Municipal de São Paulo. Suas 700 figuras (10 a 50 cm. de altura), de madeira ou terra cota, das quais a maioria conserva os primorosos trajes originais, datam do século XVIII, quando a representação artística do Presépio atingiu, em Nápoles, seu máximo esplendor. Pela perfeição dos traços e da expressão, constituem pequenas obras-primas da arte barroca.

Como seus congêneres, este Presépio — um dos poucos saídos da Itália — apresenta em torno da cena do Natal, localizada numa ruína romana, a reprodução, impressionantemente fiel e cheia de vida, de uma aldeia napolitana do século XVIII, com suas casas, suas vielas, suas praças, suas fontes, e seu bom povinho entregue à faina diária ou à alegre comemoração do nascimento de Nosso Senhor.

DEBATE NA TV TUPI DE SÃO PAULO

CAPITALISMO E SOCIALISMO:

QUAL A POSIÇÃO DA IGREJA?

(Plinio Corrêa de Oliveira e Paulo de Tarso)

DESPERTOU vivo e geral interesse na cidade de São Paulo, o debate ocorrido na TV-4 daquela capital, no dia 24 de outubro p.p., entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o deputado federal Sr. Paulo de Tarso Santos, sobre o problema se o socialismo e o capitalismo são, ou não, compatíveis com a doutrina católica.

*

O debate foi uma promoção da Televisão Tupi, no programa "O Grande Juri", dirigido pelo produtor de TV Aurélio Campos.

Na rua, 21 populares, após assistirem o programa através de receptores colocados na Avenida São João, a alguns metros da esquina da Avenida Duque de Caxias, foram convidados pelo repórter associado Carlos Spera a dar o "veredicto do Grande Juri" sobre a discussão havida.

*

VÁRIOS fatores de monta concorreram para conferir ao aludido debate uma atualidade palpitante.

Antes de tudo, o tema. O Brasil, em cujo Congresso estão prestes a se discutir "reformas de base" fortemente socialistas, se encontra em uma encruzilhada histórica das mais graves. Ora, precisamente neste momento, a Encíclica "Mater et Magistra", cuja imensa repercussão nem os mais empedernidos inimigos da Igreja podem negar, veio iluminar os problemas relativos ao socialismo com sábios e profundos ensinamentos. O que ensinou o Papa sobre o socialismo, e mais especialmente sobre um possível ou suposto socialismo Católico? É a pergunta que paira em todos os lábios. A tal propósito, as opiniões se bifurcam. Elementos de projeção têm sustentado que, falando a Encíclica em socialização, abriu vias para uma reconciliação entre o socialismo e o Catolicismo. Esta folha se pronunciou desde logo em sentido oposto (cfr. "Catolicismo", n.° 129, de setembro p.p.). O termo "socialização" não existe no texto oficial da "Mater et Magistra". Mas ele poderia estar na Encíclica — como figura em outros documentos pontifícios — sem que daí algo se inferisse quanto à reconciliação entre socialismo e Catolicismo. Pois "socialização" não é palavra etimologicamente derivada de socialismo, mas de sociedade. Aliás, o princípio da subsidiariedade, enunciado pela "Mater et Magistra", é a quintessência do anti-socialismo. Por fim, a Encíclica de João XXIII reafirma expressamente o ensinamento dos Papas anteriores sobre a matéria. Do que se segue estar em pleno vigor a afirmação de Pio XI na "Quadragesimo Anno", de que Catolicismo e socialismo são termos contraditórios.

Tomado pois o vocábulo "socialismo" na acepção que lhe dão todos os documentos pontifícios até aqui, um socialismo católico é verdadeiro contra-senso. E só o deixará de ser no dia em que um dos termos antagônicos — socialismo e Catolicismo — mudar de sentido. Como este último não sofrerá jamais tal mudança, socialismo católico só será possível a partir do momento em que se admitir que o socialismo deixou de ser socialista. Como poderia haver um protestantismo católico no dia em que a própria palavra "protestantismo" mudasse de significado, e o fato fosse admitido na linguagem eclesiástica por algum documento da Santa Sé.

No sentido geral dessas ideias, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou no "Diário de São Paulo", no dia 7 de setembro p.p., um artigo de larga repercussão.

O autorizado pronunciamento do Exmo. Revmo. Sr. D. Vicente Scherer, Arcebispo de Porto Alegre (in "Jornal do Dia", de 17 de outubro p.p.), contra a ideia de um socialismo cristão, também repercutiu intensamente na opinião pública.

O debate entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que nas fileiras do laicato católico é o líder inconteste da reação anti-socialista, e o jovem ex-prefeito de Brasília, que representa uma tendência tão oposta, tinha pois algo de simbólico que lhe deu o caráter de um acontecimento-chave.

É claro que, pela própria natureza das coisas, o pronunciamento popular que se seguiu não tinha, nem podia ter, um caráter de arbitragem, mas apenas de teste da opinião pública. Nesta matéria o único juiz supremo é o próprio Papa.

Tanto mais que, logo de início, o debate tomou uma amplitude ainda maior que a prevista, pois o produtor do programa declarou inesperadamente que ele envolveria também o delicado problema do capitalismo. Esta circunstância deu ainda maior importância à discussão.

*

PUBLICAMOS aqui o texto integral do debate, anotado de duas fitas magnéticas em nosso poder. Estas apresentam lacunas (que assinalamos no texto) apenas nas breves passagens em que, empenhados numa discussão mais viva, ambos os participantes falavam simultaneamente.

O leitor não terá dificuldade em concordar com a opinião generalizada em São Paulo, de que os pronunciamentos firmes, claros, documentados do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira contrastavam com as atitudes evasivas ou as opiniões indisfarçavelmente erradas do Deputado Paulo de Tarso, e de que à argumentação cerrada do primeiro, o jovem prócer pedecista não opôs senão generalidades capazes de impressionar certas áreas eleitorais de expressão muito mais quantitativa do que qualitativa.

Quanto ao teste, é obvio que a priori não poderia exprimir a opinião pública em seu conjunto, mas só uma fração dela, isto é, o público muito especial e característico que nas grandes cidades se detém nas artérias de intenso movimento popular, às 23 horas, para assistir durante 50 minutos um programa de televisão. Ninguém duvida de que não se circunscreve a isto a opinião de um país de 60 milhões de habitantes...

Entretanto, ainda mesmo este teste não produziu resultados concludentes. Incumbido de consultar os presentes, o repórter Carlos Spera usou para isso uma fórmula que insinuava ou impunha a resposta. Com efeito, a pergunta correta deveria ser a que o produtor Aurélio Campos formulara no início do programa: capitalismo e socialismo — qual deles, a seu ver, está mais perto da doutrina católica?

Incorreto, por personalizar indebitamente a questão, seria perguntar: o Sr. concorda com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, ou com o Deputado Paulo de Tarso?

O repórter Carlos Spera, o mais das vezes, não adotou nenhuma destas fórmulas, mas outra, de caráter tendencioso: o Sr. é pró ou contra o Sr. Paulo de Tarso? Não há quem não veja que a resposta está contida na capciosa interrogação.

Tudo isto não obstante, os votos, como indicam as fitas de gravador em nosso poder, somaram 7 a favor do Sr. Plinio Corrêa de Oliveira e 14 a favor do Sr. Paulo de Tarso. O que o encarregado da apuração parece ter ouvido mal, proclamando o resultado de 6 a 15.

*

REGISTRANDO o esplêndido triunfo alcançado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, de que a leitura do presente documento dá inteira demonstração a nossos leitores, é com prazer que esta folha assinala sua simpatia pela lealdade do gesto do Sr. Paulo de Tarso, em aceitar a discussão e afirmar publicamente seu pensamento.

Quantos, ideologicamente afins com o vibrante deputado pedecista, se vêm mantendo em um mutismo confuso e irritado, em lugar de dizer de público o que têm a objetar sobre as tomadas de posição de "Catolicismo" e seus colaboradores!

Essa circunstância dá particular valor à afirmatividade do Sr. Paulo de Tarso, e temos prazer em o declarar aqui.

Destas considerações genéricas passemos rapidamente a algumas observações de outra natureza.

*

O debate entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o Deputado Paulo de Tarso se dividiu em duas partes essenciais, correspondendo a duas questões de cunho fundamentalmente doutrinário, como seja, a posição, respectivamente, do capitalismo e do socialismo em face da doutrina católica. Sobre ambos os problemas, a discussão — apesar da desproporção entre a evidente exiguidade do tempo e a amplitude das questões — projetou toda a clareza necessária. Para que disto se certifique qualquer pessoa, basta ler o texto que dela publicamos.

Entretanto, à margem destes dois veios centrais do debate, "Catolicismo" deseja consignar algumas notas feitas de um ponto de vista mais especial. Ninguém ignora o prestígio político e intelectual do Deputado Paulo de Tarso nos círculos da assim chamada esquerda católica brasileira, da qual o ex-prefeito de Brasília, é um dos líderes mais conhecidos. Esta folha já tem manifestado suas apreensões quanto a certas tendências ideológicas, a um tempo extremadas sem fundamento doutrinário consistente, que, interpretando mal o conceito de democracia cristã, circulam em determinados meios. De uma e outra coisa se colhem exemplos frisantes na análise atenta dos pronunciamentos do Sr. Paulo de Tarso durante o debate na TV paulista, é claro que nos cingimos aqui apenas ao comentário de alguns desses exemplos. Para maior comodidade dos leitores, inserimo-lo sob a forma de Notas da Redação — no próprio texto da discussão.

DANDO INICIO ao programa, o produtor de TV Aurélio Campos formulou a questão sobre a qual deviam versar os debates: "qual destes dois sistemas sociais está mais perto ou mais longe do Cristianismo: o capitalismo, ou o socialismo? Em que ponto deve se situar a Igreja Católica com relação a esses dois pólos opostos?”

Em seguida, passou a apresentar aos telespectadores o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o Deputado Paulo de Tarso, "figuras exponenciais do pensamento cristão — e portanto católico — brasileiro".

AURÉLIO CAMPOS: À minha direita, inquestionavelmente uma das mais ativas e brilhantes penas de nossa imprensa, a serviço do pensamento católico; um líder natural dos pontos de vista mais tradicionais da Igreja; diretor do jornal "Catolicismo", ex-deputado federal, professor da Universidade Católica: Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.

Quanto ao seu oponente, preferimos usar as próprias palavras com que, em recente entrevista, o nobre deputado se definiu: "Aos que me pretendessem fichar como comunista, eu perguntaria e responderia com São Paulo: Vocês são católicos?... eu também sou. Vocês têm a confiança da Hierarquia?... eu também tenho. Vocês são bons chefes de família?... eu também sou. Vocês têm muitos filhos?.. eu também tenho. Vocês pertencem à burguesia?... eu também. Existe apenas uma diferença: eu não devo fidelidade à minha classe burguesa, mas ao Cristianismo". É o Deputado Paulo de Tarso.

(...) Meus amigos, a pergunta já foi formulada e já conhecem os dois ilustres convidados. E eu daria, a cada um, três minutos para que se situassem dentro da pergunta formulada.

Dou a palavra ao ilustre professor, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, para que exponha o seu pensamento em síntese, dentro do tempo determinado, a fim de definir a posição. Muito obrigado, Professor.

O PROF. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA: A posição que eu tomo é a seguinte: o capitalismo é um regime social e econômico que, em si mesmo, é perfeitamente consentâneo com a doutrina católica. É evidente que esse sistema, como tudo quanto é humano, pode ter tido abusos, e abusos consideráveis. E não só os pode ter tido, como os tem ainda em nossa época, e isso é flagrante. Que esses abusos são responsáveis, em grande parte, pelos erros que a doutrina católica condena, também a este respeito não há dúvida nenhuma. Porém, de acordo com a doutrina dos Pontífices, em si mesmo considerado, e abstração feita dos abusos que lhe são acidentais, esse regime é conforme à doutrina católica.

Exatamente o oposto deveria eu dizer a respeito do socialismo. O socialismo, em todas as suas variantes, em todas as suas modalidades, é essencialmente contrário à doutrina católica, independente dos abusos a que por acréscimo possa dar lugar nesta ou naquela parte do globo. E, nessas condições, não vejo a possibilidade de um socialismo católico, porque, como diz o Papa Pio XI na Encíclica «Quadragesimo Anno», Catolicismo e socialismo são termos incompatíveis.

A razão dessa incompatibilidade deita suas raízes no mais profundo da doutrina católica. Nós sabemos que Deus dotou o homem de inteligência e vontade para que, de acordo com a expressão eloquente do Papa Leão XIII, o homem seja, de algum modo, a sua própria providência. Ora, acontece que o homem tem portanto a liberdade de prover a tudo quanto lhe convém, tendo apenas por limitação a ação dos grupos sociais imediatamente superiores. Esses grupos sociais provêm ao interesse do homem naquilo em que ele não pode agir por si mesmo, mas, por sua vez, esses grupos sociais se limitam pelo Estado naquilo em que os grupos não são suficientes para si. Nessas condições, a ação do Estado é uma ação supletiva do grupo social, como é...

AURÉLIO CAMPOS: Termine seu pensamento, Professor, por favor: seu tempo terminou.

PCO: ...como é supletiva do indivíduo. E querer absorver tudo no Estado é agir a contrário sensu da doutrina católica.

AURÉLIO CAMPOS: Muito obrigado, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. E agora, o Deputado Paulo de Tarso.

O DEP. PAULO DE TARSO: Temos um documento recente e oficial da Igreja, a Encíclica «Mater et Magistra», como roteiro de nossas definições. Ela condena o liberalismo e o marxismo. O marxismo, no plano econômico, significa o comunismo, ou o socialismo que mantém fidelidade a uma essência materialista. E o liberalismo, no plano econômico, significa o capitalismo (1). Afirmar-se que pode haver um capitalismo abstrato consentâneo com o Cristianismo, a meu ver só tem importância acadêmica (2). Na verdade, o capitalismo é o materialismo prático (3), que perpetua a miséria, perpetua a fome do povo, perpetua a injustiça. E São Tomás ensinava que a justiça está para a sociedade como a saúde para o corpo. A Encíclica lembra que devemos sair do plano abstrato para as aplicações concretas dos princípios nela defendidos (4).

Assim, eu entendo que nós devemos partir para uma ruptura com formas arcaicas de constituições jurídicas superadas do passado, numa verdadeira, numa autêntica revolução cristã pelo amor do próximo, combatendo todas as injustiças da estrutura capitalista que aí está, lutando por uma reforma agrária que permita ao homem ser proprietário da terra que trabalha (5); lutando por uma reforma urbana que mostre que a casa deve servir de lugar para que o homem more, e não para instrumento de renda (6); lutando por uma reforma eleitoral que evite que ocorra o que ocorreu nas últimas eleições: apenas 19,14% da população nacional votaram para Presidente da República. Entendo que inclusive o analfabeto deve votar (7), porque o direito de votar é um direito natural. O homem, pelo fato de ser homem, deve ter o direito de escolher aqueles que vão realizar o bem humano da comunidade. Acho que devemos lutar contra a espoliação das nossas riquezas pelos grupos econômicos internacionais (8); devemos lutar contra os abusos do poder econômico (8) ; devemos lutar para que a educação deixe de ser um privilégio (8), porque Cristo não morreu apenas para redimir o rico. O Sangue de Cristo foi derramado também para libertar o pobre. E até há um certo messianismo no Antigo Testamento que dá ênfase ao pobre. Quando João Batista perguntou ao Cristo se Ele era o Cristo, Ele disse: «Os coxos andam, os cegos vêem e os pobres são evangelizados». É preciso que aqueles que estão sofrendo aqueles que estão na miséria, aqueles que estão sofrendo a injustiça, por exemplo, na empresa econômica, sintam ao seu lado um Cristianismo adulto (9), um Cristianismo disposto a manter a perenidade dos seus princípios, mas disposto também a reconhecer que sua aplicação é analógica e deve estar sujeita ao clima histórico que aí está, O importante é que a empresa, que é o microcosmo capitalista, não seja propriedade apenas do empresário. O lucro da empresa resulta do esforço de muitas pessoas humanas e não pode pertencer apenas a uma só, ou a umas poucas (10).

(1) N. da R. — O capitalismo estaria, pois condenado doutrinariamente.

(2) N. da R. — Modo de esquivar o debate sobre a afirmação supra. Não se compreende como afirmação doutrinária tão grave possa não ter qualquer importância concreta.

(3) N. da R. — Afirmação nebulosa em matéria de importância capital. A prática da injustiça não supõe necessariamente uma tomada de posição materialista. Se bem que o materialismo abra caminho para todas as injustiças.

(4) N. da R. — A partir deste momento, a questão de saber se em si o capitalismo é anti-cristão está esquivada. Segue-se uma longa diatribe contra o capitalismo.

(5) N. da R. — Proposição vaga e perigosa. O que significa aí «o homem»? Cada homem? A generalidade dos homens? Neste caso se deveria desejar a abolição do regime do salariado por inumano, o que justificaria uma “Reforma Agrária” à Fidel Castro.

(6) N. da R. — A proposição parece afirmar a injustiça do inquilinato, abrindo caminho a uma «Reforma Urbana».

(7) N. da R. — Demagogia. Como pode um analfabeto conhecer os inúmeros problemas concernentes aos interesses nacionais? O direito de votar está condicionado ao bem comum, e não pode ser exercido por pessoas incapacitadas para tal.

(continua)