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A Revolução Francesa venceu suas etapas mais difíceis, as iniciais, porque elementos do clero e da nobreza, acreditando no lema "ceder para não perder", com ela colaboraram por algum tempo. A igualdade revolucionária entre as três classes, suposta condição para a concórdia social, foi então preconizada por toda espécie de gravuras. Talleyrand, Bispo de Autun, chegou a tomar a iniciativa de propor a entrega dos bens do Clero ao governo revolucionário. O desfecho dessa política simboliza-o a gravura do jornal pontifício "Pèrc Duchesne": um "sans culote" prepara-se para matar um Padre espavorido. Ao mesmo tempo a Revolução derramava a borbotões o sangue dos nobres e dos camponeses por toda a França.

A ESPOLIAÇÃO AGRÁRIA DOS BENS DA IGREJA NA REVOLUÇÃO FRANCESA

Orlando Fedeli

A História é mestra da vida, já o afirmava Cícero. E, para os que têm olhos para ver e ouvidos para entender, ela continua a dar lições muito sabias e muito úteis.

Ainda agora, quando tanto se fala em reforma agrária, em desapropriação de terras, etc. verifica-se uma curiosa reiteração de erros cometidos no passado em face de problemas análogos. Repetem-se slogans que datam de séculos — pelo menos em seu espírito — e renovam-se atitudes e táticas troianas diante do cavalo de pau. Em todos os grandes movimentos revolucionários, como por exemplo a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e a Bolchevista, fizeram-se grandes "Reformas Agrárias" no sentido socialista e confiscatório da expressão:

1) porque essa é uma medida que está de acordo com a filosofia igualitária e anticatólica da Revolução;

2) como manobra destinada a aniquilar forças essencial ou naturalmente contra-revolucionárias, como a Igreja, as elites rurais, ou seja, os senhores de terras;

3) como tática de divisão da sociedade, lançando pobres contra ricos, trabalhadores agrícolas contra proprietários, súditos contra governos, etc.;

4) para fazer da redistribuição das terras, uma tentação de cobiça para muitos aos quais a Revolução repete a promessa de Lúcifer: "Tudo isto te darei se prostrado me adorares" (Mat. 4, 9). E quantos não se têm deixado seduzir, dando apoio à Revolução, trocando a verdade católica, a justiça, a alma, por um prato de lentilhas?

Tomando como exemplo de ação revolucionaria a secularização dos bens da Igreja durante a Revolução Francesa, vejamos como agiram então revolucionários e não-revolucionários, as astucias dos primeiros e as atitudes que tomaram ou deveriam ter tomado os últimos.

A Igreja era nas vésperas da Revolução de 1789 a instituição mais rica da França. No decorrer dos séculos as esmolas, as doações, os legados tinham carreado para a ordem eclesiástica patrimônios e tesouros enormes, como sinal ínfimo de gratidão pelo bem infinito que a Igreja realizava.

Esta situação não era bem vista pelos precursores da Revolução. Em 1749 já um edito proibia testar em favor da Igreja.

Ao mesmo tempo, corria uma propaganda de boatos e semiverdades que exageravam o montante dos bens eclesiásticos, increpavam de errada a administração deles, ou então punham sob a lente de aumento da demagogia certos abusos ou escândalos que às vezes realmente ocorriam por parte dos detentores desses bens.

Até o chamado baixo-clero, em certos lugares, acabara por formar ideias mais ou menos subversivas sobre o assunto: "na esfera eclesiástica ele distinguia a pequena propriedade, isto é, a sua, que reputava sacratíssima, e a grande, isto é, a dos beneficiários de gordos dízimos, da qual ele usaria um luto muito aliviado" (Pierre de La Gorce — "Hist. religieuse de la Rév. française", vol. 1, p. 134). julgavam estes curas que certas leis que então se começava a propor só atingiriam os grandes "latifundiários" do Clero, só atingiriam a grande propriedade eclesiástica e não a pequena, esquecendo que a lei, antes de golpear os grandes ou pequenos proprietários, golpearia a propriedade.

Por outro lado, os Estados Gerais, que inaugurariam a Revolução ao se erigirem em Assembleia Nacional Constituinte, tinham sido convocados por Luís XVI para dar solução à crise financeira do Estado. Muito se exagerou então essa crise, que, segundo o próprio Mirabeau escrevia a um amigo, se poderia resolver facilmente em apenas oito dias (P. de La Gorce, ibid., p. 135).

A tática era pois muito simples: com uma das mãos agitava-se o espantalho da bancarrota, da fome e de toda desgraça; enquanto com a outra apontavam-se as arcas bojudas e abarrotadas da Igreja.

Em agosto de 1789, o futuro girondino Buzot sustentou da tribuna da Assembleia que os bens eclesiásticos pertenciam à nação. Outros deputados repetiram a afirmação ou lhe fizeram alusões simpáticas, mas ninguém chegou a propor qualquer medida concreta nessa linha. Era manifesto, porém, que nuvens negras se acumulavam no horizonte.

A tese de Buzot era extremada e foi com certo alivio, evidentemente sem fundamento, que alguns representantes do Clero na Assembleia viram em setembro outro deputado pedir apenas (quanta moderação!) os objetos de ouro e prata das igrejas, para atender as necessidades públicas. O Arcebispo de Paris, Monsenhor Juigné, subiu à tribuna para, em seu próprio nome e em nome de grande número de seus colegas, ceder toda a prataria e alfaias não indispensáveis ao decoro do culto. "Entre os membros do Clero, vários se agarraram à esperança de obter quitação do resto cedendo de bom grado, cedendo logo" (id., ibid., p. 139).

Não era esta, aliás, a primeira concessão na matéria. Depois de na noite delirante de 4 de agosto ter aprovado o resgate dos dízimos, o Clero aquiescera a que eles fossem abolidos sem indenização. Também dessa vez fora decisiva a atitude conciliadora de Monsenhor Juigné.

O mês de outubro de 1789 viu o Rei ser levado a Paris num cortejo em que figuravam as cabeças de vários de seus defensores. Deste modo a pressão do medo cresceu em muitos corações.

O golpe era esperado. O que ninguém podia prever foi a mão que o deu. A Assembleia contava muitos incrédulos, muitos ímpios: incrédulos ou ímpios inicialmente guardaram silêncio; ela possuía legistas, economistas, filósofos: uns e outros, no primeiro momento, calaram-se; ela se tinha dividido em comissões e tinha particularmente um "comitê eclesiástico": este não tinha esboçado nenhum plano. A abolição da propriedade eclesiástica promoveu-a um Bispo.

"Este Bispo foi Talleyrand" (id., ibid., p. 140).

No dia 15 de outubro o Bispo de Autun tomou a palavra na Assembleia. Seu discurso foi muito moderado na forma. Falou "com uma curiosa dosagem de audácia, de unção, de nuances, com um tom de indiferença e quase de desprendimento" (Fliche et Martin, "Hist. de l'Eglise", vol. XX, p. 48). "Foi com uma voz suave e quase acariciante, dizem as testemunhas do tempo, foi com um gesto simples e desembaraçado, admirável de aisance e de bom-tom que o Prelado-gentilhomem veio dar à Igreja, da qual era um dos altos dignitários, este golpe fatal" (Mourret, "Hist. générale de I'Eglise", vol. VII, p. 89).

Como se vê, era o beijo de Judas em estilo de corte.

Talleyrand discorreu sobre as necessidades do Estado, sobre a ineficácia dos meios preconizados para solucionar a crise, enumerou as riquezas existentes no reino, e daí passou muito naturalmente a falar de uma "operação sobre os bens eclesiásticos". Declarou depois que esta operação era inevitável, que ela devia ser extensa, e acabou por confessar o direito do Estado sobre os bens da Igreja mediante certas condições; uma delas era que o governo cuidasse da subsistência do Clero. O que sobrasse serviria para aliviar as necessidades do Tesouro.

A traição era agravada pelo fato de que em seu discurso Talleyrand entregava a ordem eclesiástica à discrição do Estado, na ânsia de justificar a expropriação dos bens da Igreja: “... se não é licito à nação destruir todo o corpo do Clero, porque este é essencialmente necessário ao culto da Religião, pode ela certamente destruir agremiações particulares deste corpo se as julgar nocivas ou simplesmente inúteis, e este direito sobre a existência acarreta necessariamente um direito muito extenso sobre a disposição dos bens" (A. Latreille — "L'Eglise Cath; et la Rév. Française", vol. 1, p. 77).

Quem se tivesse deixado enganar pela propaganda revolucionaria, iludindo-se com as promessas de felicidade paradisíaca com que se apresentava à França a "operação sobre os bens da Igreja", poderia perceber facilmente seu erro vendo quem apoiou a moção de Talleyrand. O raciocínio é claro: se uma lei agrada aos revolucionários, tão organizados, tão astutos, tão certeiros em seus golpes, é porque com suma probabilidade favorece seus fins anticatólicos, e portanto todo fiel; só por isto, deve se pôr de sobreaviso contra tal lei. Vendo que um Mirabeau corrupto e mazorqueiro, um Barnave protestante rancoroso aplaudiam a proposta contra os bens da Igreja, nenhum católico podia permitir-se uma atitude desprevenida e cândida a respeito do caráter e dos fins de tal "operação".

Um Bispo destoou do coro de Pastorais escritas, por essa época, a propósito da agitação que os acontecimentos políticos iam espalhando pela França. Em geral pediam elas a pacificação dos espíritos, mas o Bispo de Tréguier falou das desgraças que estavam se abatendo sobre o país, e fez votos pela restauração do antigo-regime. Seu escrito foi denunciado como contra-revolucionário (hoje dir-se-ia reacionário), e depois até o processaram.

Enquanto isso, Religiosos iam de vez em quando à Assembleia para oferecer os bens de seus conventos, dos quais não podiam dispor, criando assim um clima de "apoio geral" às medidas preconizadas pelo Bispo de Autun.

Na Assembleia, poucas vozes se levantavam em defesa da Igreja, apesar de haver mais de duzentos deputados do Clero. Uma delas foi a do abbé Maury, que mais tarde, no império napoleônico, teria comportamento tão diferente deste. Denunciando a moderação falaz de seus adversários, exclamava ele da tribuna: "Pretendem expropriar-nos sem espoliar-nos: mas não há morte violenta sem homicídio, nem expropriação sem usurpação" (P. de La Gorce — ibid., p. 148).

Quando se discutira na Constituinte a questão dos dízimos, Maury dissera com muita verve aos deputados: "Fizestes notáveis progressos na conquista dos bens alheios" (Fliche et Martin — ibid., p. 47). Talleyrand provava com sua moção que os progressos eram ainda maiores do que julgava o fogoso abbé.

"Tudo o que era intransigência em Maury se transformava em seus colegas eclesiásticos em apelos conciliatórios. Era com palavras muito comedidas que eles proclamavam a legitimidade do seu domínio, duplamente consagrado pelo tempo e pelos serviços prestados (...). Essa

(continua)



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