Catolicismo - Acervo
Busca Google dentro do Site:
«
»
<<       Página       >>


O desembarque junto à falésia de Biville, visto por Armand de Polignac, um dos conjurados de Georges Cadoudal

Georges, general do Morbihan (pintura anônima da época).

Napoleão Bonaparte, primeiro cônsul (quadro de Phillips).

O processo dos conjurados (desenho de Armand de Polignac)

A execução de Cadoudal (desenho de Armand de Polignac)

GEDEÃO

Orlando Fedeli

Bretanha, velha província da França. Terra de Du Guesclin e da boa Duquesa Ana. Terra de marinheiros rudes, de heróis e de santos. A alma bretã, forte, fiel e combativa, se plasmou à semelhança dos rochedos altivos da costa cicatrizada e recortada pelo oceano. Ela se formou ajoelhada aos pés dos calvários de pedra que São Luís Grignion de Montfort tanto amava.

A Revolução Francesa arremeteu como o oceano raivoso contra as tradições católicas dessa região. Muita coisa foi destruída, muitos não resistiram. Houve ali, todavia, quem não cedesse, quem continuasse lutando quando quase ninguém mais lutava contra a Revolução e contra Bonaparte. Era um punhado de chouans e seu chefe era um simples camponês, quase esquecido hoje, mas que adquiriu então tal gloria, que mereceu, como os Reis, ser conhecido apenas pelo primeiro nome. Foi Georges Cadoudal, — Georges, o general do Morbihan.

Georges Cadoudal nasceu no primeiro dia do ano de 1771, na aldeia bretã de Kerléano. Seu nome de família era já um pressagio de gloria e de sofrimentos: Cadoudal significava, na língua celta, guerreiro cego.

Estudante ainda, seu porte já era agigantado; sua força excepcional se tornou lendária. Dizia-se que, segurando pelas patas trazeiras um potro, este, mesmo chicoteado, não conseguia se mover. Apesar de seu tamanho, era muito ágil e destro. Jovial e afável, como bom bretão era de uma tenacidade inabalável, astuto e desconfiado. Sua piedade era ardente e sólida.

Quando a Revolução começou, muitos Padres e nobres da Bretanha, iludidos pelos seus ideais especiosos, lhe emprestaram apoio. O próprio Cadoudal, em 1789, deu sua assinatura a um manifesto de aplauso aos estudantes de Rennes que, liderados pelo futuro general da Revolução Jean Victor Moreau, tinham atacado os nobres refugiados no Convento dos Franciscanos.

Foram as primeiras medidas contra a Igreja que abriram os olhos do povo. A Constituição Civil do Clero, que visava à formação de uma igreja cismática e "democrática" (Bispos e padres seriam eleitos por sufrágio universal, sem exclusão dos eleitores não católicos), levantou toda a França católica contra a Revolução. Georges participou em 1793 de motins de camponeses contra a conscrição militar, e por isso foi preso. Viu-se, em consequência, obrigado a servir no exército revolucionário que combatia os vendeanos. Aproveitou, porém, a primeira oportunidade para passar às fileiras do Exército Católico e Real.

Lutou então entre os soldados de Bonchamps, e participou com eles de todas as batalhas. O general realista Stofflet, vendo-o combater, comentou: "Se esta cabeça grande não for arrancada por uma bala de canhão, irá longe".

Após a catastrófica derrota de Savenay, o grande Exército Católico se dissolveu. Cadoudal voltou à sua terra natal com um companheiro de armas, Pierre Mercier, apelidado "la Vendée".

Em 1794, Cadoudal tornou-se noivo da irmã de Mercier. De comum acordo, porém, os dois jovens adiaram o casamento até que o Rei voltasse ao trono.

Georges e Mercier logo organizaram um levante na Bretanha. Foi então que, por motivos de segurança, adotaram nomes de guerra: o primeiro passou a ser Gedeão e o segundo, Jonatas, nomes bíblicos que calhavam bem à grandeza da vocação de Cadoudal e à fiel amizade de Mercier.

Esta primeira tentativa de levante malogrou devido a uma traição. Em junho de 1794, os dois amigos e a família Cadoudal foram presos e enviados a Brest. A mãe e um tio de Georges não resistiram aos sofrimentos, e morreram na prisão.

Georges e Mercier fugiram pouco depois e novamente se aplicaram a organizar a insurreição realista e católica em todo o Morbihan ou Baixa Bretanha.

A contra-revolução do Morbihan se distingue de suas congêneres por seu caráter popular: enquanto por toda a parte é um nobre que comanda os insurrectos, ali o chefe e seus imediatos são homens do povo.

Georges revelou-se um hábil organizador: dividiu o seu território em nove legiões, impôs aos seus homens um código militar rigoroso, criou um corpo de cavalaria e de artilharia. Não faltava nem mesmo um serviço de saúde.

Tinha tal autoridade o novo Gedeão, que podia exigir de seus soldados a castidade, virtude de que ele mesmo dava exemplo.

Cadoudal organizou ainda um serviço de informações e espionagem completo: dele faziam parte quase todos os camponeses da região, inclusive crianças e mendigos. Havia conseguido colocar homens seguros até mesmo nas policias de Paris, Lorient e Vannes.

Quando estava quase tudo pronto para a ação, em 1795, realizou-se uma conferência de paz entre monarquistas e revolucionários em Prévalay.

Georges compareceu na qualidade de general do Morbihan, e sua inteireza e energia contribuíram largamente para o malogro das manobras dos revolucionários, que visavam a obter dos chouans o juramento de sujeição à República.

Ainda em 1795, ele apoiou com sua tropa o desembarque de doze mil nobres emigrados na península de Quiberon. Diversas traições levaram a expedição ao fracasso mais completo. Cadoudal tentou salvá-la do cerco dos revolucionários por uma manobra envolvente. Ordens da Agencia Real de Paris afastaram seus homens da batalha; em consequência, mais de mil realistas foram aprisionados e fuzilados.

O desastre limitou os objetivos do jovem general. Já não podia vencer a Revolução; apenas tinha possibilidade de defender os camponeses do Morbihan contra as violências dos "bleus".

O general Hoche, depois de infligir aos realistas a derrota de Quiberon, iniciou uma política de conciliação, dando uma relativa liberdade aos católicos. Muitos, iludidos e desanimados, deixaram a luta.

Em 1796, Georges escrevia a um Padre refratário: "Resta-nos, somente, o infeliz Morbihan... A absoluta maioria das potencias da Europa reconhece a República..."

Depois que todos os chefes monarquistas do Oeste se submeteram, Georges Cadoudal foi obrigado também a cessar o combate. Luís XVIII mandara, aliás, "poupar o sangue de seus súditos", porque confiava que a realeza voltaria pelo sufrágio popular.

De fato, nesse ano de 1797 quase toda a França aspirava à volta da bandeira dos lises. A Revolução estava profundamente desprestigiada. A vitória da direita nas próximas eleições era certa, mas Luís XVIII não devia ter esquecido a má fé de seus adversários.

Os candidatos da reação venceram nas eleições do ano V, mas estas foram anuladas pelo golpe de 18 frutidor e a perseguição aos anti-revolucionários redobrou de intensidade.

Georges partiu para a Inglaterra, com a esperança de convencer algum dos Bourbons emigrados de ir se colocar à frente dos insurretos do Oeste. Passou ali sete meses, e enquanto isto a lei dos reféns, que permitia prender os parentes dos culpados ou suspeitos de sedição e sequestrar seus bens, reavivou a reação contra-revolucionária. Tanto mais que Fouché, novo ministro da polícia, recomendava que se ampliassem ainda as medidas de rigor da lei.

Em 1799, a guerra civil recomeçou.

Em três semanas os chouans e vendeanos conquistaram Le Mans, Mayenne, Bayeux, Pont-Château, Guérande, Craon, Laval, Château-Gontier, Saint-Brieuc, Alicenis, Candé. Até Nantes foi tomada, Nantes que vira o malogro de Catelineau. Só faltava o desembarque de um Bourbon para unir todos os esforços e alcançar a vitória completa. A Revolução estava perdida. Foi então que Napoleão chegou e a salvou. Substituindo o Consulado ao Diretório, ele se apresentou como restaurador da autoridade e da ordem. Dizia-se que seria um segundo Monk, e que os ingleses tinham favorecido sua saída do Egito com a condição de ele restaurar a monarquia francesa. A maior parte dos chefes direitistas se deixou enganar. É curioso como a Revolução há séculos repete sempre os mesmos estratagemas, e sempre há ingênuos que se iludem.

A maioria dos generais realistas aceitou a trégua então oferecida por Bonaparte. Somente Georges, Bourmont e Frotté recusaram a paz

Em consequência, todo o Morbihan foi posto

(continua)



Advertência

Este texto, reconhecido pelo processo OCR, não passou por revisão e pode conter erros de digitação.
Sua transcrição parcial ou total está autorizada, desde que seja citada a fonte e o texto conferido com o da imagem original.

Agradecemos desde já reportar-nos erros de digitação, através do
Fale conosco


CRÉDITOS
© Copyright 1951 -

Editora Padre Belchior de Pontes Ltda.

Diretor
Paulo Corrêa de Brito Filho

Jornalista Responsável
Nelson Ramos Barreto
Registro na DRT/DF
sob o nº 3116

Administração
Rua Javaés, 681
1° Andar
Bairro Bom Retiro
CEP 01130-010
São Paulo- SP

SAC
(11) 3331 4522
(11) 3331-4790
(11) 2843-9487

Correspondência
Caixa Postal 707
CEP 01031-970
São Paulo-SP

E-mail:
catolicismo@terra.com.br

ISSN 0102-8502

 HOME 
 
TOPO
+ZOOM
-ZOOM
Home Page
HOME
Ir ao texto da matéria
TEXTO