Catolicismo - Acervo
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. . . E o senhor da vinha respondeu a um dos operários que se queixavam: "Amigo, eu não te faço injustiça: não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e vai-te; que eu quero dar também a este último tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer dos meus bens o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?" No clichê, desenho de Andrea del Sarto (século XVI).

Condenados pelo Evangelho

os privilégios?

Cunha Alvarenga

As posições doutrinarias do chamado esquerdismo católico, que há anos vimos porfiadamente combatendo, estão agora, e infelizmente, passando no mundo inteiro para o campo das aplicações práticas, através da atuação de partidos ou movimentos políticos filiados àquela corrente.

Fazendo ouvidos de mercador ao que claramente proclama a doutrina social da Igreja, procuram essas milícias do maritainismo justificar sua atuação totalitária por meio da velha e tantas vezes contestada distinção especiosa entre o socialismo enquanto filosofia de vida e enquanto mero sistema econômico, pretendendo que este seria aceitável, e só aquela, condenável. Como se não estivéssemos diante de um sistema político-social que se propõe estrangular a humanidade tomando como um de seus mais importantes pontos de apoio exatamente a vida econômica (tão certo é que quem escraviza os corpos terminará também por escravizar as almas).

Exemplo típico dessa atitude temos nas seguintes declarações de conhecido político filiado a essa corrente católica esquerdista: «O Cristianismo não tem sistema econômico a impor dogmaticamente, nem nos obriga a combater as posições econômicas do socialismo; toda a confusão surge do fato de pretender, o capitalismo, transformar-se em dogma econômico do Cristianismo. Chego mesmo a pensar que o Evangelho prolongado no terreno econômico estaria mais na linha da comunhão, que na do privilegio» (Sr. Paulo de Tarso, em declarações prestadas em Brasília à «Folha de São Paulo» e publicadas por aquele matutino em 5 de junho de 1961).

Tomar como ponto de partida que o Cristianismo não tem sistema econômico a impor dogmaticamente, é fugir aos termos reais do problema socialismo-capitalismo. A questão se acha mal formulada. O que devemos investigar é se os pressupostos básicos de um determinado regime ou sistema econômico estão de acordo com a lei natural e com as lições emanadas da Sagrada Escritura.

Vejamos, portanto, sumariamente — dentro dos limites de um artigo de jornal — como à luz dos Evangelhos nenhuma característica essencial do regime capitalista é por si mesma odiosa ou condenável, a confirmar o que claramente nos dizem as Encíclicas sociais: «Leão XIII pôs todo o empenho em ajustar essa organização econômica (o regime capitalista) às normas da reta ordem: de onde se deduz que ela não pode condenar-se por si mesma» (Encíclica «Quadragesimo Anno» do Papa Pio XI), embora esteja sujeita a abusos. E é importante assinalar que, ao combater o regime capitalista, essas correntes esquerdistas investem contra os fundamentos de toda e qualquer ordenação econômica sadia, arrastando-os ao mesmo patíbulo do processo espoliativo, para justiçá-los em nome da coletivização universal. «É certo — diz Pio XI — que mesmo hoje não é este (o regime capitalista) o único modo vigente de organização econômica: existem outros, dentro dos quais vive uma multidão de homens, muito importante por seu número e por seu valor, como, por exemplo, a profissão agrícola; nela a maior parte do gênero humano, honesta e honradamente acha seu sustento e seu bem-estar» (Encíclica citada). Mas a palavra de ordem é exterminar a propriedade privada e a livre iniciativa onde quer que elas se encontrem, seja na cidade, seja no campo.

Ora, a livre iniciativa na vida econômica e a propriedade privada decorrem da lei natural e portanto não podem ser discricionariamente eliminadas de nenhum sistema econômico moralmente aceitável. Na pregação do Divino Salvador ressalta esta verdade, pois tanto a propriedade privada como a livre iniciativa, longe de serem condenadas ou controvertidas, são por Ele tratadas como coisas ditadas pelo senso comum e que fluem da ordem natural das relações humanas.

Tanto ao falar aos seus discípulos como ao Se dirigir ao povo, o Filho de Deus usou de uma linguagem simples e clara, tomando exemplos da vida diária para melhor fazer-Se compreendido por seus ouvintes. Um homem é proprietário de uma vinha (Mat. 21, 33-41), outro adquire um campo (Mat. 13, 44), um terceiro contrata livremente operários para a vindima e dispõe também livremente do dinheiro que é seu (Mat. 20, 1-16). Um homem de alta condição deixa dez marcos de prata com seus servos para que eles negociem com esse dinheiro (Luc. 19, 11-26); outro, administrador fiel e prudente, é louvado pelo seu senhor (hoje diríamos patrão capitalista ou fazendeiro) por tratar bem os serviçais confiados à sua guarda (Luc. 12, 42-48), e assim por diante.

Os católicos esquerdistas, fazendo coro com os socialistas de todos os matizes, condenam o sistema capitalista porque tem por objetivo o lucro. Ora, também o lucro, em si mesmo, não é condenável e se acha em perfeito acordo com a lição dos Evangelhos. Basta que nos lembremos da parábola dos talentos (Mat. 25, 14-30). Por ela verificamos que a produtividade do dinheiro, em certas condições, era um fato admitido pelo Divino Mestre. Mereceram elogio os servos que diligentemente trabalharam e fizeram multiplicar o capital confiado à sua guarda e ao seu zelo. Pelo contrário, o servo que enterrou o dinheiro por inércia, não lhe dando aplicação produtiva, foi punido pelo senhor.

Dir-se-á, porém, que o que vale nesta como em outras parábolas é sua aplicação à vida espiritual, à vida da graça, e não seu aspecto puramente temporal. Mas a pedagogia divina se servia de fatos de fácil compreensão para os ouvintes, passando dessa evidencia da vida quotidiana para uma aplicação em esfera transcendente. Estamos, portanto, diante de um dado aceito já nos tempos evangélicos pelo senso comum, que nos diz ser justa e até louvável a produção de bens econômicos não somente para a própria subsistência, mas também para venda ou troca do excesso ou do supérfluo, servindo o dinheiro como mero denominador comum da riqueza real que vêm a ser esses bens ou serviços permutados dentro da sociedade humana. O capital assim empregado em atividades econômicas gera o que comumente se chama lucro. O que pode ser condenável não é o lucro em si mesmo, ou o visar o capitalista a esse lucro, que decorre de bens produzidos ou de serviços prestados. O que é imoral é o abuso, o lucro extorsivo ou onzenário , lesivo ao próximo, — mas qual a instituição política, social ou econômica que não está sujeita a abusos, a começar pelo próprio Estado, que com suas modernas tendências absorventes e totalitárias é hoje o maior opressor dos fracos e desamparados?

Outro aspecto do regime capitalista acremente criticado e irremissivelmente condenado tanto pelos comunistas e socialistas, quanto pelos maritainistas ou católicos de esquerda, vem a ser o regime do salariado. Também ele pode prestar-se a abusos, mas em si mesmo é perfeitamente aceitável e justo, suposto sempre que o salário se ache na proporção do serviço prestado e que sejam humanas as condições de trabalho.

Ainda aqui a doutrina social da Igreja é confirmada pelos Evangelhos, que nos dão vários exemplos dessa livre contratação de serviços. Mas onde a justiça do regime do salariado aparece melhor é na parábola dos vinhateiros (Mat. 20, 1-16). O senhor da vinha contratou homens que trabalharam maior ou menor número de horas, e a todos pagou o mesmo salário, previamente ajustado. Os que começaram a trabalhar na primeira hora reclamaram contra a pretensa injustiça. Mas a resposta do proprietário a um deles veio clara e pronta: «Amigo, eu não te faço injustiça: não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e vai-te; que eu quero dar também a este último tanto como a ti. Ou não me é licito fazer (dos meus bens) o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?»

Dois fatos ressaltam dessa parábola, em abono do que afirmamos. O primeiro é a aceitação do salariado como coisa perfeitamente normal e justa. O segundo é a mesma aceitação da livre iniciativa no campo econômico. Satisfeita a justiça — e naturalmente também a caridade — faz o capitalista o que melhor lhe parece com os seus bens.

A participação nos lucros, ou aquilo que se dá além do justo salário, não se impõe por decreto coercitivo, mas há de se revestir desse aspecto espontâneo, como quem dispõe do que é seu para melhor recompensar seus fiéis e dedicados auxiliares. De qualquer maneira, vem a parábola dos trabalhadores da vinha nos mostrar como aos olhos do Divino Mestre a instituição do salariado é justa e equitativa, ao contrário do que através dos séculos sempre apregoaram os demagogos socialistas, de Simão Mago a Francisco Julião. A Cristo Nosso Senhor não repugnou que uns fossem proprietários de vinhas e que outros fossem assalariados que trabalham de sol a sol, e essa lição de desigualdade econômica perpassa por todo o Evangelho.

Segundo comunistas e socialistas, os frutos do trabalho pertencem exclusivamente ao trabalhador. O proprietário ou capitalista é um parasita, opinião que é compartilhada pelo chamado esquerdismo católico. Eis a razão pela qual os agro-reformistas vermelhos e cor-de-rosa se mostram ferrenhamente contrários ao arrendamento de terras, pois o solo, segundo eles, deve pertencer a quem o cultiva, assim como os operários urbanos devem ser coproprietários das empresas.

Que nos mostram os Evangelhos a respeito do verdadeiro sentido da destinação social da terra? O proprietário de uma vinha (Mat. 21, 33-41) arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se para longe. Chegando o tempo da vindima, enviou seus servos aos cultivadores, para receberem destes os frutos da vinha. Os vinhateiros, porém, depois de terem prendido e espancado os servos, os despediram com as mãos vazias. Enviou-lhes o senhor outros criados seus, e estes foram cobertos de ultrajes e alguns até assassinados. Agiam esses lavradores em conjunto, como se estivessem organizados em verdadeira Liga Camponesa nessa trama contra o legítimo proprietário das terras. Enfim, o senhor da vinha manda o seu próprio filho, pensando que ele seria respeitado. «Mas os vinhateiros, logo que o viram, disseram entre si: — Este é o herdeiro; matemo-lo para que a herança seja nossa. Então, apoderando-se dele, o lançaram fora da vinha e o mataram».

Ora, nesta parábola, o Divino Salvador deixa a solução do caso aos seus ouvintes, apelando para o seu sentimento de justiça: «— Quando, pois, vier o dono da vinha, que há de fazer àqueles lavradores? Responderam-lhe: — Matará sem piedade esses malvados, e arrendará a sua vinha a outros lavradores, que lhe paguem o fruto na sua estação».

Eis, portanto, reconhecido o «privilégio» do proprietário, enquanto proprietário, de receber o que é devido pelo arrendamento de suas terras. Estaria Cristo Nosso Senhor justificando assim um ato de ganância capitalista, ou antes verberando o crime dos que atentam contra o direito de propriedade?

Aí está o que sumariamente podemos responder àqueles que afirmam que os Evangelhos, prolongados ao campo econômico, estariam mais na linha da comunhão do que na do privilégio, ou da desigualdade. A renúncia aos bens próprios e a vida em comunidade nunca foram um preceito dos Evangelhos, mas um conselho para aqueles que aspiram a um estado mais perfeito.

Lembremo-nos de que não somente na distribuição dos bens materiais, mas até mesmo na vida da graça, nos impõe Deus a lei da desigualdade: «A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido, e ao que muito confiaram, mais conta lhe tomarão» (Luc. 12, 48).



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