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EQUILIBRISTAS

Cunha Alvarenga

Não se concebe um trapezista ou um equilibrista que exerça o seu oficio durante as 24 horas do dia e ao longo dos 365 dias do ano. A admiração que nos causa sua arte provém justamente de que ela só pode exercer-se por uns poucos instantes, pois a ninguém é licito estar a desafiar constantemente a lei da gravidade. Trapezistas e equilibristas são também aqueles que na luta entre a Revolução e a Contra-Revolução desejam tomar uma posição intermédia, a chamada "terceira posição". Como não se trata de um espetáculo de variedades, mas de atitude que tem que ser mantida constantemente, o resultado é que tais malabaristas, devido ao cansaço provocado por seus artificiais contorcionismos, vivem perdendo o equilíbrio e se abatendo contra o chão duro da realidade.

Assim, por exemplo, diz o Sr. Tristão de Ataide que "não é com a contra-revolução, igualmente, que se evitam as revoluções mas com o contrário da revolução violenta. Isto é, com o combate preventivo às causas que provocam e tornam, por vezes, indeclináveis as revoluções violentas. Por isso é que a Paz tem sido a nota dominante em todos os pontificados recentes e foi a gloria do autor da "Mater et Magistra" e da "Pacem in Terris", roteiros irreversíveis de sabedoria universal" (artigo "Lobos ou cordeiros?" na "Folha de São Paulo" de 15 de agosto p. p.).

Pelo que se leu, S. Sa. é contrário à Contra-Revolução, e não sabemos o que os Pontificados recentes têm a ver com esta sua singular postura. Qualquer oposição frontal à Revolução é considerada um mal pelo Sr. Alceu Amoroso Lima. Note-se que a Contra-Revolução não consiste necessariamente em uma ação violenta, mas em agir no sentido contrário ao da Revolução, em todos os setores da vida religiosa, política e social em que este monstro procura deitar seus tentáculos.

Não é que o incondicional maritainista julgue descabida qualquer ação violenta: não, a violência pode ser indeclinável, mas exclusivamente do lado da Revolução! Contra os adversários, só a Revolução o pode ser, até mesmo empregando meios violentos se não tivermos antes o cuidado de eliminar as causas que provocam suas violências. E subjacente a este raciocínio se acha a incrível convicção do Sr. Tristão de Ataide de que as revoluções são benfazejas, pois se encarregam de eliminar, a seu modo, as causas de atrito ou de males para a humanidade, que em nossa desídia não tivemos a cautela de espontaneamente remover. Assim, em um momento de distração, S. Sa. deixou a sua apregoada posição de equilíbrio, caindo decididamente do lado da Revolução.

A concepção que o Sr. Tristão de Ataide tem da Revolução não é aquela que se depreende de um estudo sério da História e que ressalta claramente dos documentos pontifícios.

Segundo o esquema superficial que ele adota, a partir do século XIX a humanidade se cindiu em dois blocos antagônicos, de um lado a Revolução, de outro a Reação, por motivo das lutas sociais que dividiram "a Burguesia liberal e o Proletariado socialista em dois compartimentos estanques da sociedade moderna" ("Mater et Magistra — Pacem in Terris", Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963, p. 5 da introdução à M. et M.). Mais ainda: "A tendência geral foi ligar os católicos e a Igreja ao Capital e ao espírito conservador, deixando o mundo do trabalho à ação das ideologias anarquistas, socialistas ou comunistas" (ibid., p. 6).

Assim, de um lado formam os partidários do liberalismo, que o Sr. Tristão de Ataide confunde, para seus efeitos malabaristas, com o capitalismo ou "feudalismo econômico", com os reacionários, espíritos sectários, fossilizados e fixistas. De outra parte se acham os pobres espoliados, as vítimas inocentes do Poder Econômico, que não tiveram outra alternativa senão formar nas hostes do socialismo, do comunismo, da Revolução proletária.

Ora, embora dizendo que há "uma oposição formal da doutrina social católica, tanto com o espírito revolucionário como com o espírito conservador ou reacionário" (ibid., p. 10), e declarando-se contra a Revolução e contra a Reação, na realidade, pelo próprio modo de estabelecer os termos da questão, deixa o Sr. Alceu Amoroso Lima entrever claramente para que lado vão seus pendores ideológicos.

DISTORÇÃO DOS DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS

Não é de hoje que S. Sa. insiste nessa posição superficial e unilateral em face do problema da Revolução e da Contra-Revolução, fazendo agora esforços inauditos para demonstrar que "o espírito das Encíclicas" do Santo Padre João XXIII vem ,em socorro de suas teses. Para isso procura fazer tabula rasa de tudo que nas Encíclicas dadas a lume pelo pranteado Pontífice e nos documentos dos Papas anteriores se apresenta como estorvo à sua quimérica e revolucionaria construção verbal.

Ora, em nenhum de seus documentos declara João XXIII, ou sequer de longe insinua, que perderam seu valor e eficácia os ensinamentos de seus Antecessores. Pelo contrário, o que vemos, sobretudo na "Mater et Magistra", é um profuso reiterar do que ensinaram, notadamente, os Papas Leão XIII e Pio XII, que mais abundantemente trataram da questão social.

Censurava o Santo Padre Pio XI aqueles católicos que "em suas conversações, em seus escritos, e em toda sua maneira de proceder se portam como se os ensinamentos e preceitos promulgados tantas vezes pelos Sumos Pontífices, especialmente por Leão XIII, Pio X e Bento XV, houvessem perdido sua força primitiva ou houvessem caído em desuso". Tais católicos devem ser reprovados como modernistas, como a seguir diz o Papa: "No que é preciso reconhecer uma espécie de modernismo moral, jurídico e social, que reprovamos com toda a energia, do mesmo modo que o modernismo dogmático" (Encíclica "Ubi Arcano Dei", de 23 de dezembro de 1922).

Que diz João XXIII sobre os documentos de Leão XIII? Derroga-os? Ordena que sejam lançados sob o mais completo silêncio? Ouçamos sua voz: "Os preceitos que aquele Pontífice cheio de sabedoria deu a toda a humanidade brilharam com mais esplêndida luz porque os tempos em que foram promulgados estavam obscurecidos por grandes trevas: porque, enquanto a economia e as condições sociais passavam por radicais transformações, era grande o calor das discussões e violentas as revoltas" (Encíclica "Mater et Magistra", tradução de "Catolicismo", no 129, de setembro de 1961).

Coloca Leão XIII no século XVI o início da crua guerra movida pelos inovadores contra a Fé Católica. O livre exame protestante abre as portas ao racionalismo e ao liberalismo. "Com uma nova impiedade, desconhecida pelos próprios gentios, vimos os Estados constituir-se sem ter em conta, para nada, Deus e a ordem por Ele estabelecida" (Encíclica "Quod Apostolici Muneris", de 28 de dezembro de 1878).

O liberalismo é, assim, fruto da impiedade e se acha no bojo da Revolução. Colocar liberalismo de um lado e socialismo de outro, em luta implacável, constitui prova de inexplicável cegueira para um intelectual católico. O individualismo liberal, transformando a sociedade humana em poeira anorgânica, preparou diretamente as veredas para o socialismo. O poder da massa, do grande número, é – obra-prima do espírito liberal: "Assim como a razão individual é para o indivíduo na vida privada a única norma reguladora de sua conduta, da mesma maneira a razão coletiva deve ser para todos a única regra normativa na esfera da vida pública. Daqui o número como força decisiva e a maioria como criadora exclusiva do direito e do dever", escreve Leão XIII na Encíclica "Libertas", ao definir o liberalismo de primeiro grau. Mais ainda: "A lei, reguladora do que cumpre fazer e do que cumpre evitar, fica abandonada ao capricho de uma maioria numérica, verdadeiro plano inclinado que leva à tirania. (...) Armada a multidão com a ideia de sua própria soberania, facilmente degenera na anarquia e na revolução, e suprimidos os freios do dever e da consciência, não resta mais que a força; a força, que é radicalmente incapaz para dominar por si só as paixões desatadas das multidões. Temos provas convincentes de todas estas consequências na diária luta contra os socialistas e revolucionários, que desde há muito tempo se esforçam por sacudir os próprios fundamentos do Estado. Analisem, pois, e determinem, os que retamente ajuizar da realidade, se esta doutrina (o liberalismo) é proveitosa para a verdadeira liberdade digna do homem, ou se é mais uma teoria corruptora e destruidora desta liberdade" (Encíclica citada).

Os liberais e os socialistas são inimigos sistemáticos de uma hierarquia social reconhecida e protegida pelo Estado. Todo privilegio lhes parece um favor arbitrário feito a um particular ou a uma casta, e uma injustiça contra os outros cidadãos ou as outras classes.

A nação, tanto para os liberais quanto para os socialistas, se compõe de indivíduos isolados, iguais em direitos e em deveres. Tanto para o liberalismo quanto para o socialismo todos os cidadãos são como que grãos de poeira. Não há classes intermediarias nem personagens influentes, cujo espírito tradicional mantenha estáveis as instituições públicas, e cuja autoridade

(continua)



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