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Aspectos da coleta de adesões de transeuntes à interpelação ao Presidente Frei: um operário assina na Plaza de Armas, em La Serena; um posto de coleta no bairro de Providencia, em Santiago; outro flagrante na Plaza de Armas, na cidade de La Serena.

O noticiário que hoje publicamos sobre a interpelação dirigida ao Presidente chileno pelo grupo de jovens colaboradores da valorosa revista católica "Fiducia", de Santiago do Chile, reflete a vivacidade e a amplitude das reações que essa iniciativa oportuníssima provocou na capital e no interior do país irmão.

As cúpulas do PDC chileno, e notadamente o Sr. Eduardo Frei Montalva, Presidente da República recém-eleito na legenda pedecista, mantêm uma política ambígua, consistente em algumas declamações espalhafatosas contra o comunismo, e, simetricamente, na afirmação de princípios, na adoção de medidas e na proteção de pessoas que de um ou outro modo servem à causa comunista.

Entre outras medidas, o Presidente Frei encaminhou ao Congresso um projeto de reforma constitucional cujo efeito é reduzir ou mesmo suprimir inteiramente a garantia dada pela carta magna chilena ao direito de propriedade.

Esta ambiguidade de atitudes não é, aliás, um monopólio dos grupos dirigentes do PDC do Chile. Também os Partidos Democratas-Cristãos da Argentina e do Brasil possuem a mesma lamentável característica.

Inconformados com a confusão criada no panorama ideológico e política de seu país por esta indefinição que versa precisamente sobre o problema mais grave e mais profundo do mundo contemporâneo, que é a opção entre o comunismo e a autêntica civilização cristã, nossos jovens confrades de "Fiducia" dirigiram ao Presidente da República uma interpelação que tinha todos os requisitos para merecer de S. Excia. uma resposta. Toda situada no terreno doutrinário, elevada em sua linguagem, respeitosa em sua atitude em face do ilustre destinatário, ela representava a perplexidade de oitocentos universitários lúcidos e patrióticos. Acresce que aos milhares a subscreveram também chilenos alheios ao meio estudantil. Por isto mesmo, intelectuais de projeção, jornais de prestigio nacional, personalidades eminentes como o preclaro Arcebispo de La Serena, entraram em liça pró e contra, na controvérsia que empolgou a nação.

Em meio a esse espoucar de argumentos, a nota dominante foi o silêncio desdenhoso, frio, e sobretudo enigmático do Sr. Eduardo Frei. Na controvérsia foi ele — pelo menos até o momento — o grande mudo, o grande ausente.

E assim a ambiguidade pedecista assumiu o aspecto de uma esfinge a pairar sobre a nação chilena.

Só sobre a nação chilena? O enigma demo-cristão adeja também sobre a Argentina e o Brasil, criando um grave problema no que diz respeito ao futuro de toda a América Latina.

CHILE: «FIDUCIA»

INTERPELA

E FREI SE CALA

A. A. Borelli Machado

Jovens católicos que se congregam em torno da revista «Fiducia», editada em Santiago do Chile, entregaram no dia 13 de maio p.p. ao Presidente Frei uma interpelação em que pedem ao supremo Magistrado do país que defina a sua posição em face do direito de propriedade, exposto a grave risco pelo projeto de reforma constitucional por ele enviado ao Congresso. Como se sabe, o atual Presidente da nação irmã, Sr. Eduardo Frei Montalva, foi eleito sob a legenda do PDC e alcançou a vitória em consequência, sobretudo, da ameaça representada por outro candidato, de orientação declaradamente marxista. Em outro local desta edição estampamos o texto integral da interpelação, cujos primeiros signatários são os principais colaboradores de «Fiducia»: Patricio Larrain, Max Griffin, Patricio Amunátegui, Javier Polanco, Alejandro Bravo, Cristian Vargas, Carlos Del Campo, Mauricio Vargas, Jaime Guzman, e outros.

A interpelação contou com a assinatura de mais de 800 jovens, na maioria universitários, e teve a mais ampla divulgação pela imprensa, tendo saído na íntegra nos prestigiosos quotidianos «El Diario Ilustrado» e «El Mercurio», da capital chilena, em «El Dia», de La Serena, e em «La Unión», de Valparaiso; os demais diários de Santiago, os de Concepción, Temuco, Valdivia, Osorno, e em geral todos os órgãos de imprensa e emissoras de rádio do país divulgaram trechos do documento ou deram notícias a respeito.

COLETA DE ASSINATURAS NA RUA, EM QUATRO CIDADES

No dia seguinte à entrega da interpelação, os estudantes saíram às ruas de Santiago, para colher adesões à sua iniciativa. Posteriormente foram também a Valparaiso, Viña del Mar e La Serena com o mesmo objetivo. A maioria das pessoas por eles abordadas na via pública manifestavam a sua simpatia, aderindo com a sua assinatura à interpelação. Até o momento em que encerramos esta edição, o número de adesões assim obtidas ultrapassa 3 mil.

ENORME REPERCUSSÃO NA IMPRENSA DE TODO O PAÍS

O impacto da interpelação sobre a opinião pública foi enorme. Por mais de três semanas os principais jornais da capital «El Mercurio», «El Diario Ilustrado», «La Nación», «Golpe», «Tercera de La Hora», «Las Ultimas Noticias», «El Siglo», «Clarín» e «Las Noticias de Ultima Hora» — e do interior reservaram grandes manchetes, muitas delas em primeira página, e extensos editoriais, para tratar do «caso Fiducia», comentando, elogiando ou criticando a interpelação e os acontecimentos que se seguiram. O dossier dos recortes da imprensa chilena que se referem à interpelação continha, até 8 de junho último, nada menos de 110 peças.

O principal teórico do PDC chileno, Sr. Jaime Castillo Velasco, saiu pelas páginas do jornal oficioso do governo, «La Nación», no dia 18 de maio, tentando refutar os argumentos expendidos na interpelação. Mais tarde voltou ao ataque, desta vez dedicando três artigos ao estudo do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira, «A liberdade da Igreja no Estado comunista», citado pelos autores da interpelação para corroborar importante parte de suas teses. Outro teórico da DC, Sr. Julio Silva Solar, publicou extenso artigo na edição de 20 de maio de «La Nación», desenvolvendo sua teoria sobre o direito de propriedade, e dizendo logo de inicio: «Não sabíamos, até agora, que Cristo tinha vindo ao mundo para defender a propriedade privada».

Órgãos oficialmente comunistas ou de orientação nitidamente marxista ou socialista, como os jornais «El Siglo», «Clarín», «Las Noticias de Ultima Hora», e a revista «Vistazo», não pouparam ataques a «Fiducia», assumindo de modo indireto a defesa de Frei e da reforma constitucional por ele preconizada.

INCISIVO PRONUNCIAMENTO DO ARCEBISPO DE LA SERENA

Não faltaram também representantes do Clero para assumir posição de um e outro lado. O Revmo. Pe. Oscar Dominguez publicou em «La Nación» de 19 de maio, com vistosa chamada no alto da primeira página, um artigo intitulado «A Igreja não ampara privilégios», em que se propõe rebater a argumentação de «Fiducia». Pelas páginas de «Golpe», um Pároco que se assina Frei Escoba, dirigiu uma carta aberta ao Pe. Dominguez, criticando a sua tomada de atitude.

«El Diario Ilustrado», órgão conservador, rejeitou também as críticas do Pe. Oscar Dominguez, refutando a sua argumentação. Estabeleceu-se desse modo uma polêmica entre o Sacerdote e o jornal, com réplicas e tréplicas cruzando de um lado para o outro. «La Nación», o órgão governista, saiu a campo, por seu turno, contra «El Diario Ilustrado».

Quando a polêmica ia, assim, acesa, o Arcebispo de La Serena, Exmo. Revmo. Mons. Alfredo Cifuentes, figura de grande e merecido prestígio em todo o país, enviou à direção de «Fiducia» uma carta altamente elogiosa. O pronunciamento do venerando Prelado foi amplamente divulgado pela imprensa, alcançando grande repercussão. (Nossos leitores encontrarão em outro local desta edição o texto do importante documento).

Um editorial de «La Nación», assinado H. P. V., desfechou pesada invectiva contra o pronunciamento do Arcebispo, sob o título de «Carta àquele que aderiu a «Fiducia». Jornais comunistas como «Las Noticias de Ultima Hora», «El Siglo» e «Clarin», glosaram o ataque. O ambiente se inflamou ainda mais. Algumas manchetes são bem significativas: «Ultras» dividem fileiras católicas — Encrespa-se caso «Fiducia» («El Siglo»); «Ultra-direita se agrupa para golpe de Estado» («Las Noticias de Ultima Hora» — 1a página); «Rififi no Clero por carta a Frei — Causaram comoção os rapazes de «Fiducia» («Golpe» — com título na 1a pagina); «Turma de «Fiducia» agita ambiente clerical — Respostas vão e vêm, perturbando a paz dos católicos» («Golpe»); «Comoção na Igreja Católica — Farisaico ataque do diário do governo «La Nación» ao Arcebispo Cifuentes causa inquietação em Sacerdotes chilenos — Eisenhower respondeu, por que não responde Frei?» («P.E.C. — Política, Economia, Cultura»).

ORGANIZAÇÕES CATÓLICAS CONTRA A INTERPELAÇÃO

Este último artigo assinala que quando esteve no Chile o Presidente Eisenhower, a junta diretora da Federação dos Estudantes enviou-lhe uma carta de caráter polêmico, que o Chefe de Estado norte-americano não deixou de responder. E o jornal comenta, referindo-se a Frei: «Até agora S. Excia. guardou silêncio. Ninguém se explica esta atitude, já que foi interpelado pelos jovens católicos com o respeito que merecem sua pessoa e seu alto mandato».

O semanário ilustrado «Ercilla» publicou extensa reportagem historiando os fatos. Nas três fotografias que ilustram o texto aparecem o Exmo. Arcebispo de La Serena, um grupo de jovens de «Fiducia», e membros da Democracia-Cristã que atacaram a interpelação.

Organizações católicas também entraram na arena. A Equipe Arquidiocesana da Ação Católica Universitária e a Equipe Central da Paróquia Universitária lançaram um veemente manifesto conjunto discrepando de «Fiducia». «La Nación» do dia 20 de maio publicou o documento com título de primeira página: «O grupo «Fiducia» não representa a opinião oficial da Igreja». E destaca: «Não há conexão íntima entre direito de propriedade e liberdade de culto». O Grupo Pedecista de estudantes de jornalismo da Universidade Católica também repeliu a interpelação de «Fiducia», em outro manifesto. O Centro de Alunos de Sociologia da mesma Universidade foi mais longe, divulgando um desafio para um «foro universitário» a fim de discutir publicamente o conteúdo da carta dirigida a Frei.

Ainda na última semana de maio travou-se uma polêmica entre o Revmo. Pe. Deltrán Villegas Mathieu, SS. CC., doutor em teologia, e o Prof. Juan Antonio Widow Antoncich, catedrático de Metafísica e Teodicéia da Universidade Católica de Valparaiso. O primeiro atacava «Fiducia», apelando, inclusive, a certa altura, para o termo «socialização» que, como se sabe, falta no original latino da «Mater et Magistra» mas apareceu em muitas traduções. O segundo saiu em defesa da revista.

Em face de todas essas reações, o diretor de «Fiducia», Sr. Patricio Larrain, distribuiu uma nota à imprensa em que declara em nome de seus companheiros que, para não se desviar do objetivo precípuo da interpelação, a revista não pretende entrar em polêmicas ou participar de debates públicos enquanto não obtiver «resposta pública, pessoal e direta do Exmo. Sr. Presidente da República a cada uma das graves perguntas respeitosamente feitas dentro de nosso legítimo direito». Ao mesmo tempo, protesta contra o ataque do jornal do governo ao ilustre Arcebispo de La Serena.

AGÊNCIAS TELEGRÁFICAS DISTORCEM OS FATOS

A iniciativa de «Fiducia» teve repercussão de âmbito internacional, pois as agências telegráficas a divulgaram para todo o mundo. Certos despachos, aliás, distorceram o significado dos fatos, dando uma importância descabida a dois editoriais, um da revista «Vistazo», outro do diário «Las Noticias de Ultima Hora», ambos comunistas, que viam atrás da interpelação de «Fiducia» a preparação de um golpe militar para depor o Presidente Frei!

OUTRAS REPERCUSSÕES

• «El Diario Austral», da cidade de Temuco, publicou em sua edição do dia 2 de junho uma nota assinada pelo Secretario-Chanceler do Bispado e dirigida aos católicos e à opinião pública da região, nos seguintes termos: «O Sr. Bispo de Temuco, diante da campanha empreendida pela revista «Fiducia» em defesa da propriedade privada, encarrega-me de manifestar que a posição da mencionada revista, embora lícita e respeitável, não compromete a Igreja Católica».

• O Sr. Victorino Garrido, presidente da Sociedade Nacional de Proprietários Urbanos, dirigiu uma carta ao Sr. Patricio Larrain, diretor de «Fiducia», em que comunica que a diretoria daquela associação, depois de estudar detidamente a interpelação ao Presidente Frei, decidiu «felicitar

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