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Desconcertante Congresso Latino-Americano para o Apostolado dos Leigos

QUEREM A LUTA DE CLASSES NA SOCIEDADE E NA IGREJA

Nossos confrades de "Cruzada", de Buenos Aires, dedicaram as oito páginas do número de dezembro último à análise das deploráveis conclusões a que chegou o I Congresso Latino-Americano para o Apostolado dos Leigos, realizado naquela cidade em outubro do ano findo.

"A mais desconcertante reunião da história religiosa da América Latina. Críticas à Igreja e à Hierarquia. Demolição das estruturas sociais. Supervalorização do econômico". Tais são as expressivas manchetes que se leem na primeira página daquele número especial.

"Cruzada" reproduz o texto completo das conclusões do Congresso, acrescentando-lhes notas destinadas a "facilitar ao leitor a compreensão da linguagem às vezes obscura e confusa dos congressistas". Um editorial estampado na 2a página — sob o título de "Congresso para o apostolado promove a luta de classes" — apresenta uma visão de conjunto das conclusões e tece graves e oportunas considerações a respeito.

Dada a importância do certame em questão, que reuniu representantes do laicato católico de treze nações latino-americanas, achamos oportuno traduzir o editorial de “Cruzada”, que oferecemos à consideração de nossos leitores. É o seguinte o seu texto integral:

Pouco antes da reunião do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) em Mar del Plata, ou seja, de 7 a 9 de outubro p. passado, realizou-se em Buenos Aires o I Congresso Latino-Americano para o Apostolado dos Leigos. Esse certame, que reuniu representantes de treze nações, constitui uma preparação para o Congresso Internacional para o Apostolado dos Leigos, que terá lugar em 1967 em Roma.

*

A importância da reunião para a vida religiosa do laicato latino-americano resulta de várias circunstâncias. No momento em que se estreitam cada vez mais as relações entre os países do nosso continente, um congresso de leigos desses mesmos países estende esse esforço de aproximação ao campo tão interessante e tão importante do apostolado leigo. É natural, pois, que para ele se voltem os olhos de todos os dirigentes católicos das nações ibero-americanas. As conclusões do presente Congresso estão destinadas a uma grande divulgação, como também a exercer considerável influência nos rumos do pensamento e da ação da América Latina.

Ademais, já que esse Congresso é uma preparação para a reunião internacional romana, é natural que os resultados a que haja chegado se reflitam na atuação que as várias delegações sul-americanas terão em Roma.

Em consequência, um estudo cuidadoso de tais conclusões não pode deixar de interessar a quantos desejam um incremento da causa católica nesta parte do mundo.

Por ora, parece que a divulgação do texto integral das conclusões não foi grande. Que nos conste, a imprensa apenas apresentou resumos delas. Era natural, pois, que "Cruzada" desejasse publicar o texto integral, colaborando assim para dar maior penetração aos resultados a que tão importante assembléia houvesse chegado. Para isto, dirigimo-nos ao Secretariado do Congresso, logo que o mesmo se encerrou, e obtivemos cópia de tais conclusões, constantes de dezoito folhas mimeografadas.

Recebido o texto, começamos a lê-lo com vivo interesse.

Com efeito, era de se esperar um documento que contivesse valores positivos, inspirado por um entranhável amor à Igreja, à Hierarquia e às instituições em que se concretiza a civilização cristã. É verdade também que de antemão admitíamos como possível que o Congresso assinalasse aqui ou ali erros ou omissões, porém com um espírito de respeitosa submissão à Igreja, e com um reconhecimento sadiamente otimista de quanto se vem desenvolvendo nos múltiplos setores de nossas atividades religiosas.

Em lugar disto, todavia, encontramos afirmações impregnadas de acrimônia em relação à Hierarquia e à Igreja. Um pessimismo doentio inspira o documento, já quando exagera até o dramático as lacunas de nossa vida religiosa, ou quando descreve nossas condições sociais ou econômicas com demasias e unilateralidades que se compreenderiam melhor em um panfleto marxista. Analisando-se o quadro traçado com estas pinceladas pessimistas, não é difícil advertir que elas formam um grande conjunto cujas diferentes partes são coerentes entre si. Esse conjunto pode ser assim resumido:

• 1 — A situação do povo na América Latina é miserável. O subdesenvolvimento reina por toda parte. Isto resulta da incompetência, da apatia e do egoísmo da classe dos proprietários, os quais pensam unicamente em suas próprias vantagens e comodidades, são negligentes na exploração das riquezas que têm entre as mãos, e impedem assim a melhoria das condições de vida dos operários e das nações.

• 2 — Esta oligarquia de proprietários aceita, para manter-se, apoio do capital estrangeiro, e permite assim que os países da América do Sul sejam objeto de uma exploração de tipo colonial ou semicolonial.

• 3 — Diante deste fato, grande parte dos elementos da Hierarquia Eclesiástica, ou até todos eles, tomam uma atitude de silêncio comprometido e conformista. Não despertam as massas para a consciência de sua miséria e dos seus direitos. Não exigem que o país entre nas vias do desenvolvimentismo. Com isto traem sua própria missão, pois na miséria não surte efeito a ação evangélica.

• 4— A relação entre a oligarquia sócio-econômica e a Hierarquia Eclesiástica não é apenas de conivências, mas de identidade. Em outros termos, os dignitários eclesiásticos exercem suas funções espirituais com o mesmo comodismo, o mesmo espírito rotineiro e o mesmo egoísmo com que a oligarquia procede no terreno temporal. E por isto o subdesenvolvimento espiritual não é menor do que o sócio-econômico. O laicato católico vive em uma espiritualidade egoísta e primária, ignorante de todas as correntes espirituais renovadoras que circulam em nossos dias. Sobretudo, nada sabe de seus deveres para com a Igreja, nem de suas obrigações para com as massas oprimidas em matéria de justiça social. Tudo isto faz com que a Igreja não seja o fermento de libertação e ascensão das massas, senão, pelo contrário, um freio que as mantém no estancamento religioso, econômico e social.

• 5 — As instituições eclesiásticas, como por exemplo as de ensino, servem de preferência as classes ricas e desenvolvem uma ação antiquada e inadaptada às necessidades de nossos dias.

*

Deste quadro, se deduzem os remédios. Estes são — para o Congresso — análogos no que se refere à Igreja e à sociedade temporal, e consistem em reformas de base.

Quanto às reformas sócio-econômicas, tendem elas a operar a transferência da propriedade das mãos da oligarquia para a dos operários. E isto, tanto no que diz respeito à agricultura, quanto no que toca à empresa comercial ou industrial.

Deste modo, resultará destruída a oligarquia, e a estrutura social deixará de estar formada por várias classes, para ficar reduzida a uma só. Ou seja, acabaremos por ter uma sociedade sem classes, o que é um ideal conforme às utopias do socialismo e do comunismo, mas contrário à doutrina invariável dos Papas até nossos dias (cf. "Reforma Agraria — Cuestión de Conciencia", Mons. Geraldo de Proença Sigaud, S.V. D . , Arzobispo de Diamantina, Mons. Antonio de Castro Mayer, Obispo de Campos, Plinio Corrêa de Oliveira y Luiz Mendonça de Freitas — Edic. "Club de Lectores", Buenos Aires, 1963 — pp. 64-85).

Claro está que êste objetivo não se enuncia de modo explícito no documento. Deixa, porém, entrever-se no espírito que sopra em todas as suas páginas, e, sobretudo, em sua sistemática omissão a respeito de um ponto capital. — Em toda a América Latina vê-se uma verdadeira orquestração artificial em favor de reformas

(continua)



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