Catolicismo - Acervo
Busca Google dentro do Site:
«
»
<<       Página       >>


A gnose, dos trovadores

a Guimarães Rosa

Cunha Alvarenga

Por mais de uma vez já nos ocupamos, em "Catolicismo", dos vários disfarces adotados pela Revolução. É relativamente fácil estudar a ação revolucionária quando esta se desenvolve à luz do dia, escancaradamente. Mais árdua é a tarefa de acompanhá-la nas trevas da noite, mas é indispensável fazê-lo, pois um dos característicos da obra dos sectários que dirigem essa conjuração é o mistério com que procuram cercar seus conciliábulos, seus juramentos, seus sinais, sua linguagem convencional, sua comparceria subterrânea, sua propaganda invisível, os segredos que não podem chegar aos ouvidos profanos.

Ocupar-nos-emos hoje em primeiro lugar, embora de passagem, em dar aos nossos leitores um exemplo histórico, para depois demonstrar que os recursos modernos usados pela Revolução gnóstica não são novos, mas se repetem de modo acentuadamente monótono ao longo dos séculos.

Em sua História de Santa Isabel da Hungria, já notava Montalembert como, em pleno século XIX, a crítica de seu tempo procurava valorizar a literatura dos trovadores medievais da Provença, a qual não encerra nenhum elemento católico e muito raramente se eleva acima do culto da beleza material, representando, "salvas algumas exceções, a tendência materialista e imoral das heresias meridionais daquela época" ("Histoire de Sainte Elisabeth de Hongrie" Pierre Téqui Edit., Paris, 1930, p: 110). Pelo contrário, na França do norte, ao lado de certas obras líricas de caráter licencioso, no século XIII a epopéia nacional e católica floresceu em todo o seu esplendor.

Ora, a crítica moderna dá mais um passo para a frente e, ao continuar a realçar a produção literária occitânica, deixa perceber, nas entrelinhas, o verdadeiro papel que os trovadores do grupo da poesia hermética desempenharam na difusão da heresia cátara ou albigense, uma das mais importantes manifestações do ressurgir do gnosticismo na Europa medieval.

O Prof. Segismundo Spina, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no alentado volume em que estuda a lírica trovadoresca, mostra-nos como o amor cortês "é a religião dos trovadores, um verdadeiro culto à mulher, que prevê a observância de todo um complexíssimo ritual. [...] Transposição do esquema social criado pelo feudalismo, o amor se tornou um "serviço" [...], como o compromisso que se estabelecia entre o senhor e o vassalo. [...] Essa "vassalagem amorosa", invenção dos trovadores, tinha como agente a mulher casada, pois a solteira não gozava, no sul da França, de significação social. O caráter adulterino de que se reveste o amor cortês torna-se hoje dificilmente compreensível; todavia precisamos levar em consideração o espírito e os costumes dessa época, sobretudo na França meridional — onde o regime feudal não assumia a rigidez estrutural do Norte; outras condições éticas — como a heresia dos cátaros, teriam em parte acondicionado ou propiciado a inspiração desse lirismo" (Segismundo Spina, "Apresentação da Lírica Trovadoresca", Livraria Acadêmica, Rio, 1956, pp. 375-376).

Em curso de arte medieval dado em 1963 na Aliança Francesa da cidade de São Paulo, um dos conferencistas forneceu importante chave para o enigma das poesias herméticas da Provença medieval, mostrando como as reiteradas referências à mulher amada ocultavam alusões à igreja cátara e correspondiam a um medo simbólico de difundir o erro maniqueu sem levantar as suspeitas dos não-iniciados(1). A par disso, porém, acrescentamos nós, a mística trovadoresca se apresentava também como importante veículo de processo catártico. A "joy", estado de espírito que se apossa do trovador em seu transe pseudo-místico, é "um sentimento novo, desconhecido dos antigos e da Cristandade da Idade Média, que, além do desfecho sexual, cria a alegria de amar, esta exaltação sentimental, que, sem ser estranha ao desejo, o transcende espiritualizando-o e eleva o seu beneficiário acima de si mesmo" (Pierre Belperron, "Joie d'Amour", p. 49 — apud S. Spina, op. cit., pp. 402-403). Compreende-se assim que "o amor seja para os trovadores um estágio educativo, uma longa provação; daqui o caráter tantas vezes doloroso dessa interminável experiência" antes de se encontrar "a joi, o êxtase, a alegria suprema; mas à custa de penosos sacrifícios" (Rodrigues Lapa, "Lições de Literat. Port.", 3.a ed., p. 21 — apud S. Spina, op. cit., p. 114).

Maniqueísmo no século XX

Esta exposição, que em forma resumida damos aos nossos leitores, confere com aquilo que sabemos da heresia cátara por outras fontes. Assim o historiador Jean Guiraud, ao tratar do catarismo no século XII, nos mostra como esses neo-maniqueus, em sua aversão absoluta ao casamento, a ele preferiam a libertinagem, sendo fácil de compreender a razão disto: "Os laços da libertinagem eram mais frágeis que os do casamento e não resultavam na constituição de uma família", a qual seria conseqüência lamentável para quem considerava a geração de seres materiais um mal que se deveria combater a todo transe (ver Jean Guiraud, "L'Inquisition Médiévale", Grasset Edit., Paris, 1928, p. 36).

Eis "o doce paganismo dos trovadores provençais", tão do agrado do Prof. Spina e de todos os adeptos da literatura inspirada pela Revolução. Foi ele exterminado a ferro e fogo pela cruzada ordenada por Inocêncio III contra a heresia albigense.

Mas passemos do século XIII ao século XX. Há poucos meses atrás, os meios intelectuais brasileiros, foram abalados pela morte repentina de Guimarães Rosa, escritor muito festejado por certa crítica literária, e cujo renome ultrapassou nossas fronteiras, tendo vários de seus livros traduzidos no Exterior. Destaca-se entrei eles: "Grande Sertão: Veredas", que o público não avisado toma como mero romance de costumes regionais, do sertão de Minas, aparecendo em sua trama vaqueiros, jagunços, fazendeiros, matutos, — todos enleiados por meio de ações as mais das vêzes muito pouco limpas. O mesmo poderíamos dizer de outros livros seus, tais como "Primeiras Estórias", "Corpo de Baile" e "Tutaméia".

Mas a leitura atenta dos "suplementos literários" de certos jornais diários não deixa de ser instrutiva. Por eles ficamos conhecendo todo um submundo de bruxos e bruxas, de cidadãos aparentemente pacatos com os quais cruzamos nas ruas, e que se entregam ao culto da magia e de tudo quanto são modalidades de esoterismo que os espíritos emancipados julgariam de há muito mortas e enterradas.

Foi assim que encontramos no suplemento literário de "O Estado de São Paulo" de 27 de março de 1965 um estudo do Sr. Benedito Nunes sobre "O amor na obra de Guimarães Rosa". Depois de descrever sumàriamente as três espécies de amor que aparecem em "Grande Sertão: Veredas", "diferentes formas ou estágios de um mesmo impulso erótico, que é primitivo e caótico em Diadorim, sensual em Nhorinhá e espiritual em Otacília" (lembremo-nos dos hílicos, psíquicos e pneumáticos da classificação gnóstico-maquinéia), diz o autor que a relação existente entre elas "traduz um escalonamento semelhante ao da dialética ascensional transmitida por Diotiama a Sócrates em "O Banquete" de Platão", e acrescenta: "Procuraremos mostrar, neste estudo, que a tematização do amor, na obra de Guimarães Rosa, repousa principalmente nessa ideia mestra do platonistno, colocada, porém, numa perspectiva mística heterodoxa, que se harmoniza com a tradição hermética e alquímica, fonte de toda uma rica simbologia amorosa, que exprime, em linguagem mítico poética, situada no extremo limite do profano com o sagrado, a conversão do amor humano em amor divino, do erótico em místico".

Tal como vimos no caso da falsa mística trovadoresca, observa o articulista: "[...] vale assinalar que, tanto em "Grande Sertão: Veredas" como em "Corpo de Baile", sobressai o caráter não pecaminoso das relações sexuais, por um lado e, por outro, a ausência de degradação e de malícia nas prostitutas, que nem sempre são figuras secundárias, circunstanciais".

Estamos diante de uma tradição mágico-alquímica abertamente confessada: "O conspecto da alquimia,

Continua na página 4



Advertência

Este texto, reconhecido pelo processo OCR, não passou por revisão e pode conter erros de digitação.
Sua transcrição parcial ou total está autorizada, desde que seja citada a fonte e o texto conferido com o da imagem original.

Agradecemos desde já reportar-nos erros de digitação, através do
Fale conosco


CRÉDITOS
© Copyright 1951 -

Editora Padre Belchior de Pontes Ltda.

Diretor
Paulo Corrêa de Brito Filho

Jornalista Responsável
Nelson Ramos Barreto
Registro na DRT/DF
sob o nº 3116

Administração
Rua Javaés, 681
1° Andar
Bairro Bom Retiro
CEP 01130-010
São Paulo- SP

SAC
(11) 3331 4522
(11) 3331-4790
(11) 2843-9487

Correspondência
Caixa Postal 707
CEP 01031-970
São Paulo-SP

E-mail:
catolicismo@terra.com.br

ISSN 0102-8502

 HOME 
 
TOPO
+ZOOM
-ZOOM
Home Page
ÍNDICE
Ir ao texto da matéria
TEXTO