Revista Catolicismo
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HÁ CEM ANOS ATRÁS, O GRANDE D. VITAL ERA ELEVADO À PLENITUDE DO SACERDÓCIO

A sagração episcopal de D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira constitui um acontecimento de transcendental importância para a história do Brasil católico, pois assinala a entrada na liça desse glorioso miles Christi.

Ocorrendo no dia 21 deste mês o centenário da elevação de Frei Vital Maria à plenitude do sacerdócio, apresentamos aqui alguns documentos relativos ao evento.

"Faça-se a vossa vontade, não a minha"

Informado oficialmente pelo Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, Ministro do Interior, de que D. Pedro II — considerando "as virtudes e méritos reunidos na pessoa de Vossa Senhoria" — o nomeara "Bispo da Diocese de Olinda, vacante pela morte de D. Francisco Cardoso Ayres", o jovem Capuchinho escreveu ao Papa Pio IX, em 8 de outubro de 1871, esta carta em que ressaltam seus sentimentos de adesão à Sé Apostólica:

"Santíssimo Padre,

Se a consideração de vossa soberana dignidade, diria eu com São Jerônimo, inspira-me temor, vossa bondade de outra parte incita-me a dirigir-Vos com respeito e com toda a alegria de minha alma este humilde escrito, em conformidade com o parecer do Senhor Núncio Apostólico, e ouso crer que Vossa Santidade tomará conhecimento dele.

O Imperador do Brasil, apesar de minha falta de mérito, a despeito de minha fraqueza e de minha humilde condição, dignou-se designar-me para a Sé episcopal de Olinda. Conheço minha indignidade; sei quanto sou desprovido das aptidões e virtudes necessárias ao desempenho de uma missão tão santa e tão elevada, por outro lado tão cheia de dificuldades e de sofrimentos. Procurei, tanto quanto possível, fugir a um encargo terrível aos próprios Anjos, sentindo-o por demais pesado para os meus fracos ombros. Mas o Superior que o Senhor me deu impôs silêncio aos clamores de minha consciência perturbada, e considerando as circunstâncias peculiares a este país e o bem da Santa Igreja, compeliu-me a obedecer às vossas ordens. Depois, dirigi uma carta ao Superior Geral de nossa Congregação. Aguardo sua resposta.

Prostrado aos pés de Vossa Santidade, peço e suplico do fundo de minha alma que não me imponhais esse fardo tão pesado para o qual não estou preparado; minha pobre alma apavorada clama à vossa clemência: Meu Pai, se é possível, apartai de mim este cálice. Abri vossos ouvidos, Santíssimo Padre, à súplica do último de vossos filhos. Contudo, faça-se a vossa vontade. Como um filho se dirige a seu Pai, eu me refugio junto de Vós; eu me abandono inteiramente aos cuidados maternos da Divina Providência; pois sei e creio que sois seu representante sobre a terra e Vos digo com uma fé sincera: Entretanto seja feita a vossa vontade, não a minha.

Rendo graças a Nosso Senhor que, na sua bondade, deu-me a ocasião de apresentar a Vossa Santidade a segurança de meu profundo respeito, como de minha filial e absoluta obediência.

Experimento uma alegria intensa em testemunhar minha fé em tudo o que ensina e aprova a Santa Igreja Romana, Mãe soberana de todas as Igrejas; sem hesitação, creio, afirmo e abraço todas as verdades que Ela ensina, particularmente os dogmas há pouco definidos pelo Concílio Ecumênico do Vaticano. Tive esta fé desde minha infância, pela graça de Deus, e aprendi desde então a honrar e amar ardentemente a Cátedra de São Pedro. É por isso que venho a Vós, sabendo que aquele que não trabalha conVosco torna inúteis seus esforços. Com a mesma fé, reprovo e condeno com todas as minhas forças a iníqua espoliação do Patrimônio de São Pedro e a ocupação sacrílega da Cidade Eterna, Capital de vosso domínio temporal. Deploro o duro e sacrílego cativeiro a que Vos reduziram filhos culpados, e condeno conVosco a conduta daqueles que perseguem a Igreja de Deus e Vos acabrunham de aflições. Experimento em mim mesmo o contra-golpe das dores que sofreis; sofro-as conVosco.

Suplico ao Deus onipotente e à Virgem Imaculada, e continuarei a implorar-Lhes que derramem força e consolação na alma de Vossa Santidade. Que o Senhor apresse o dia da vitória de sua Igreja; essa vitória é certa, pois temos por garantia dela as palavras de vida eterna.

Quem me dera as asas da pomba! Voaria a vossos pés; com os lábios, e mais ainda com o coração, oscularia vossos pés e os banharia com minhas lágrimas; em Vós eu veria e veneraria a Pedro vivo, melhor, ao próprio Cristo; pois Cristo Vos constituiu princípio e fundamento da Igreja.

Prostrado aos pés de Vossa Santidade, suplico que me concedais Bênção Apostólica".

(P. Louis de Gonzague, O. M. C., "Monseigneur Vital", Libr. Saint-François, Paris, 1912, pp. 34-36).

"Temos certeza da vontade divina a vosso respeito"

Em resposta, depois de bem informado sobre a pessoa do Bispo eleito, Pio IX enviou-lhe em data de 22 de janeiro de 1872 este Breve altamente elogioso:

"Caríssimo Filho. Saudação e Bênção Apostólica.

Os termos da carta que Nos dirigistes fazem-Nos crer, ainda mais, que Deus, apesar de vossa pouca idade, vos chama ao elevado encargo do Episcopado. Com efeito, vossa humildade, o temor que experimentais à vista dessa honra assustadora, vossa preocupação de afastar a dignidade que vos é oferecida, vossa inteira submissão às decisões de Deus e de vossos Superiores preparam vossa alma para o exercício dessa grande missão, e vos merecem abundantemente os auxílios do Céu. Os acentos de vossa fidelidade para com a Igreja e a Santa Sé, vossa dor à vista da abominável guerra empreendida contra Elas, vossa vontade de permanecer-Lhes sempre estreitamente unido e de lutar por Elas, tudo vos mostra disposto a trabalhar com ardor pela causa de Deus, graças à força com que Ele vos cobre; tudo Nos persuade de que nada negligenciareis para buscar a salvação e progresso espiritual do rebanho a vós confiado. Assim, não podendo duvidar da vontade divina a vosso respeito, Nós vos exortamos a afastar todo temor; confiai-vos a Deus, com Ele podereis tudo; depositai nEle vossas preocupações e, elevado o coração, dai início ao cumprimento do encargo que vos é confiado. Para o que, Imploramos sobre vós a abundância dos favores celestes; como penhor deles e segurança de Nossa benevolência, concedemos-vos com amor a Bênção Apostólica" (P. Louis de Gonzague, p. 38).

Legenda: Larga fronte nobre e como que vivificada pelo sopro das grandes ideias, sobrancelhas vigorosas, de uma linha implacavelmente regular, olhos igualmente de uma impressionante regularidade de desenho e admirável nitidez, dos quais se desprende um olhar calmo, forte e profundo, que vê ao longe e está habituado a considerar as coisas por seus aspectos mais altos, mais transcendentes e portanto mais reais. Nariz que tem uma linha de indiscutível franqueza, barba espessa e varonil, porte ereto. Tudo em D. Vital indica o Pastor que ama ardentemente cada uma de suas ovelhas, e que por isto mesmo é capaz de lutar contra qualquer fera, para a expulsar do aprisco. —Assim descrevíamos a figura do Bispo de Olinda, em nosso n.° 52.


Como um jornal da época viu a cerimônia

Um jornal da época, "O Diário de São Paulo", assim descreveu a solene cerimônia da sagração, que durou mais de quatro horas e teve lugar na Catedral de São Paulo:

"O ato que começou às 9,30 horas da manhã e prolongou-se até perto das 2 da tarde, foi celebrado com toda a pompa e brilhantismo. Assistiram-no S. Excia. o Sr. Presidente da Província, a comissão nomeada do seio da Assembléia Legislativa Provincial e muitos funcionários públicos, civis e militares.

Oficiaram o Exmo. Sr. D. Pedro Maria de Lacerda, Bispo da Diocese do Rio de Janeiro; no lugar de Bispos Assistentes, os Revmos. Cônegos Arcediago Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade, e Tesoureiro-Mór Manoel Emygdio Bernardes, dignidades do Cabido da Catedral; como Presbítero Assistente o Revmo. Cônego Dr. João Jacinto Gonçalves de Andrade, e como Diáconos da Missa, os Revmos. Srs. Cônegos Antonio José Gonçalves e Dr. Marcellino Ferreira Bueno.

Foram padrinhos os Srs. Conselheiro Vicente Pires da Motta e Dr. Martinho da Silva Prado.

O templo mal podia conter o povo que afluíra a assistir uma das mais tocantes e imponentes solenidades que no mesmo se têm celebrado.

No Largo da Catedral esteve postado um Batalhão de guardas-nacionais e no do Colégio um parque de artilharia, que deu as salvas de estilo, quer no começo do ato, quer depois de findo.

Logo depois de iniciada a solenidade, foi lida a Bula do Santíssimo Padre, quanto à preconização e à sagração.

O Prelado recém-sagrado, ao retirar-se da Sé, mal podia adiantar um passo, porque a multidão atropelava-se para beijar-lhe o anel. Quase processionalmente foram, conduzidos ao Seminário Episcopal os dois Prelados, porque seguiram a pé, acompanhados de numerosos assistentes.

Às 4 horas foi servido no refeitório do Seminário Episcopal um lauto jantar, oferecido a mais de cem convidados. O Exmo. Sr. Presidente da Província brindou ao Bispo recém-sagrado e imediatamente depois ao Bispo sagrante. Este, por sua vez, brindou ao Exmo. Sr. Presidente da Província e ao Revmo. Vigário Capitular.

Além desses houve ainda mais os seguintes brindes: a Fr. Caetano de Messina, a Fr. Eugenio de Rumilly, ao Conselheiro Pires da Motta, aos Professores do Seminário Episcopal, ao Dr. João Mendes, à Assembléia Legislativa Provincial.

O jantar foi findo, levantando o Exmo. Sr. Bispo D. Pedro de Lacerda o brinde de honra a S. M. o Imperador e ao Santo Padre Pio IX. A exposição de motivos, elevada concepção do espírito de tão eminente Prelado, tocou o coração dos assistentes, como bons católicos e fiéis monarquistas. Pode-se dizer que foi um apelo leal à permanência da união íntima entre o Estado e a Igreja. Não se podia concluir melhor uma semelhante festa em aplauso à Sagração de um Bispo brasileiro.

De nossa parte saudamos ao Exmo. Sr. D. Vital de Oliveira, para que seja feliz no seu Episcopado, lutando sempre e sem descanso pela verdade evangélica".



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