Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

Estado de Mato Grosso, incluindo a ilha do Bananal, em Goiás), de um uniforme de guerrilheiro sandinista, cuja jaqueta o Prelado vestiu no mesmo instante (1).

(1) A imprensa quotidiana deu pouco realce a essa sessão, bem como às demais da Semana de Teologia, que se realizava, entretanto, aberta ao público, no teatro da PUC. E, pelo contrário, dedicou fartos noticiários ao Congresso de Taboão da Serra, com entrevistas bombásticas concedidas pelos participantes deste. Paradoxalmente, o Congresso se desenvolvia, como foi dito, de forma sigilosa, sob forte esquema de segurança, sendo estritamente vedado o comparecimento de pessoas não inscritas. A "Noite Sandinista" foi posteriormente explorada pela chamada "imprensa alternativa" – semanários contestatórios de extrema-esquerda (cfr. "Movimento", 3 a 9 de março de 1980). O semanário da Arquidiocese trouxe ampla reportagem sobre a matéria, com a significativa chamada de 1ª página "Nicarágua é apenas um começo" ("O São Paulo", 7/13-3-80).

Reproduz-se, a seguir, o texto integral dos discursos então pronunciados pelos representantes sandinistas, bem como as palavras proferidas pelo coordenador da sessão, Frei Betto, e pelo homenageado, Bispo D. Pedro Casaldáliga.

Os tópicos mais interessantes desses vários pronunciamentos são aqui objeto de comentários, precedidos sempre do sinal gráfico *. Todos os títulos e subtítulos, bem como destaques introduzidos no texto, são do comentador.

* * *

Do estudo desses discursos se depreende que:

Sandinismo e comunismo

1º) A Revolução Sandinista contém um substrato de programa socioeconômico ainda não inteiramente definido, mas do qual já são dados a público, oficialmente, vários lineamentos gerais bem como pontos programáticos. Tanto uns quanto outros correspondem ao que os partidos comunistas da Ibero-América pedem aos seus mais íntimos e chegados "companheiros de viagem". O caráter radicalmente igualitário da ideologia sandinista não deixa dúvidas de que o sandinismo, ou se identifica com o comunismo, ou se situa nos subúrbios ideológicos deste.

Uma revolução latino-americana

2º) O sandinismo se tem em conta de mera expressão nicaraguense de uma revolução socioeconômica una, a qual seus seguidores afirmam que está lavrando em todo o mundo ibero-americano.

3º) Por sua vez, essa revolução latino-americana seria manifestação do descontentamento geral dos grupos sociais marginalizados, bem como, em escala internacional, também dos povos subdesenvolvidos.

Frente única de várias forças...

4º) Na política interna da Nicarágua, o sandinismo é uma frente única

(continua)

LEGENDA:
- O Arcebispo de Manágua, D. Miguel Orbando, fala aos reféns aprisionados pelos sandinistas no Palácio Nacional, na capital da Nicarágua.
- "O São Paulo" - órgão oficioso da Arquidiocese paulopolitana, dirigido por D. Angélico Sândalo Bernardino - exultante com as palavras do Cardeal Arns: "A coisa apenas começou..."


Quem é D. Pedro Casaldáliga

D. Pedro Maria Casaldáliga Pla, C.M.F., nasceu na Catalunha (Espanha) em 1928. Ordenou-se Sacerdote em 1952, e em 1968 chegou ao Brasil como missionário claretiano. Em 1970 foi nomeado Administrador Apostólico de São Félix do Araguaia, e no ano seguinte elevado a Bispo da mesma Prelazia, situada ao nordeste do Estado de Mato Grosso, na área chamada Amazônia Legal.

É autor de várias poesias, que reuniu primeiramente no volume Clamor elemental (Ediciones Sígueme, Salamanca, 1971, 103 pp.), depois em Tierra nuestra, libertad (Editorial Guadalupe, Buenos Aires, 1974, 151 pp.), e mais recentemente em Antologia retirante (Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978, 240 pp.).

Sua autobiografia, Yo creo en la justicia y en la esperanza! (Desclée de Bouwer, Bilbao, 1976, 202 pp.) também foi publicada na Itália (Quaderni Asal, Roma, no. 27, 1976, 249 pp.).

Ao ser sagrado Bispo, D. Casaldáliga escreveu a Carta Pastoral intitulada Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social (10 de outubro de 1971) em que manifesta o seu repúdio ao "latifúndio capitalista, como pré-estrutura social radicalmente injusta".

D. Casaldáliga começou a aparecer nas manchetes dos jornais justamente a propósito da agitação agrária promovida na localidade de Santa Teresinha, Prelazia de São Félix, pelo missionário francês Pe. Francisco Jentel, que o Governos brasileiro acabou por expulsar do País, como subversivo, em dezembro de 1975. Durante todo o tempo, D. Casaldáliga deu mão forte ao Sacerdote. Em razão disso, e de outras atividades do Prelado, originou-se uma tensão entre ele e o Governo federal. Correram então insistentes rumores de que ele também seria expulso do País. Na ocasião, levantaram a voz, em favor do Prelado, numerosas figuras da Hierarquia eclesiástica brasileira, algumas da maior projeção.

A posição ostensivamente pró-comunista de D. Casaldáliga foi denunciada no livro A Igreja ante a escalada da ameaça comunista – Apelo aos Bispos Silenciosos (Plinio Corrêa de Oliveira, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1976, pp. 13 a 30), no qual são transcritas várias poesias e outros textos do Prelado.

A "esquerda católica" brasileira se manteve impassível ante essa denúncia, como se ela não existisse, embora tivessem sido vendidos 51 mil exemplares do livro. A meia dúzia de protestos episcopais indignados, se bem que vazios de argumentos, que contra ele se lançaram – aos quais replicou o autor com a serenidade preceituada pelo respeito – não fazem sequer alusão às desconcertantes poesias do Bispo de São Félix.

Pouco depois da XV Assembleia Geral da CNBB, em fevereiro de 1977, D. Geraldo Sigaud, Arcebispo de Diamantina, acusou D. Pedro Casaldáliga de favorecimento do comunismo. Foi ele respaldado, nessa declaração, por D. José Pedro Costa, então Arcebispo-Coadjutor e Administrador Apostólico de Uberaba. Os dois Arcebispos fizeram, pois, por seu turno, acusação análoga à de A Igreja ante a escalada da ameaça comunista. E ainda estenderam a imputação a D. Tomás Balduíno, Bispo de Goiás Velho.

Levantou-se na ocasião uma grande celeuma. A Santa Sé designou então um Visitador Apostólico – D. José Freire Falcão, Arcebispo de Teresina – para estudar as acusações dos dois Prelados de Minas Gerais. Mas o assunto pouco depois morreu, sem que nada se soubesse do conteúdo do relatório que, segundo se deve admitir, o Arcebispo de Teresina deveria mandar à Santa Sé. Não obstante, o episódio deu ensejo a que 33 Arcebispos e Bispos se pronunciassem a favor de D. Pedro Casaldáliga e D. Tomás Balduíno, discordando explícita ou implicitamente das declarações de D. Geraldo Sigaud e D. José Pedro Costa (cfr. Meio século de epopeia anticomunista, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1980, pp. 275 a 285).

D. Casaldáliga foi também apontado, em novembro de 1977, como representante pertinaz da corrente neomissionária que advoga a estranha concepção do índio como modelo para o civilizado, ao mesmo tempo que prega uma espécie de luta de raças – análoga e paralela à luta de classes – entre silvícolas e branco. A denúncia consta do livro Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI (Plinio Corrêa de Oliveira, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1977, 138 pp.). Não obstante ter sido esse estudo largamente difundido em todo o País – 86 mil exemplares vendidos – não sofreu qualquer contestação por parte da "esquerda católica".

De lá para cá, D. Pedro Casaldáliga continua atuando desenvoltamente, sendo notório fomentador das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação em nossa Pátria.



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