Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

A revolução vitoriosa na Nicarágua compunha-se de dois segmentos distintos, o político e o religioso.

O segmento político apresentava – e ainda apresenta – a fisionomia característica de um movimento comunista constituído segundo os moldes clássicos, para a conquista do poder:

A frente única...

a) Frente única de grupos políticos esquerdistas de vários matizes, entre os quais a indefectível esquerda burguesa (ou "burguesia nacional", como é designada na literatura comunista; isto é, a burguesia não "comprometida" com o capitalismo internacional), os "inocentes-úteis" etc. Estes são os "companheiros de viagem" que seguirão lado a lado com os comunistas até a vitória e a final consolidação do processo revolucionário;

... dirigida pelo PC

b) Inviscerado nessa frente única, e dirigindo-a pela radicalidade e precisão de suas metas, pela eficácia de seus métodos e pela inteira disciplina de seus quadros, figura o Partido Comunista. Este logo passa a ser a alma da frente única, e o polo de atração, tanto doutrinário quanto político, dos outros agrupamentos.

Um blefe: a vitória não será do comunismo

Bem entendido, a frente única se destina em parte a criar no público a ilusão de que a vitória da revolução não será ipso facto a do comunismo. Por isto mesmo, este último favorece por vezes, rixas episódicas ostensivas dos "companheiros de viagem" entre si, ou até com o mesmo PC. É o que tem acontecido, em alguma medida, na Nicarágua. E foi também o que ocorreu na "Noite Sandinista" no Teatro da PUC. Nesta última, nenhum dos elementos presentes – nicaraguenses ou brasileiros – se afirmou comunista ou simpatizante do comunismo. Mas a referência à faixa colocada a título de homenagem na cadeira em que devia sentar-se o representante de Cuba no Congresso de Teologia, em Taboão da Serra, bem como as palavras ditas, mais de uma vez, sobre Fidel Castro, não deixam dúvida sobre o prestígio e a influência determinante da Revolução Cubana e de seu chefe, em todos os movimentos congêneres da América luso-espanhola.

O modo pelo qual os oradores se dirigem ao público dá a impressão de que consideram a Revolução Nicaraguense a espoleta de análogo movimento no Brasil e em toda a América Latina. A entrega solene de um uniforme de guerrilheiro sandinista ao Bispo D. Pedro Casaldáliga, Prelado de São Félix do Araguaia, é o ato culminante da noite. Poder-se-ia dizer que é o show dessa noite.

Convite aceito por D. Casaldáliga

E com razão. Ele constitui um convite a toda a "esquerda católica" brasileira a que, a exemplo do Pe. Uriel Molina, se engaje na guerrilha. O ato do Bispo vestindo a jaqueta do uniforme que lhe era assim oferecido tem o significado de uma ostensiva aceitação do convite.

(continua)

LEGENDAS:
Frei Betto fala ao ouvido de Pe. Miguel D'Escoto, Ministro das Relações Exteriores da Nicarágua. Frei Betto, um dos protagonistas do "caso Marighela", foi o articulador da "Noite Sandinista"
... e tornou-se ainda uma espécie de eminência parda da recente greve dos metalúrgicos do ABC. "É ele quem empurra Lula para a frente", diz um militante sindical.


Quem é Frei Betto

1 . Protagonista no caso Marighela

O ex-deputado federal comunista Carlos Marighela convencera-se da inoperância dos métodos de Luís Carlos Prestes e da necessidade de acelerar o processo revolucionário pela adoção de uma linha política violenta. Expulso do Partido, fundou a Aliança Libertadora Nacional (ALN), com o intuito de tomar o poder através da guerrilha urbana e rural.

Escreveu ele as rumorosas Cartas de Havana e o Manual do Guerrilheiro Urbano, profusamente distribuídos entre os militantes das organizações subversivas brasileiras e editado também na Europa, onde ainda em agosto de 1977 – segundo noticiou a imprensa – esteve na raiz de um atentado terrorista de repercussão internacional ocorrido na Alemanha.

Em 1969, Marighela estava sendo ativamente procurado pela Polícia. Noticiaram os jornais que esta, não conseguindo encontrá-lo, deitou mão sobre um militante da Aliança Libertadora Nacional, descobrindo então que um grupo de frades dominicanos – Padres e seminaristas – prestava auxílio àquela organização terrorista, responsável por uma série de atentados à bomba, morticínios, assaltos a bancos, roubos de armas e automóveis, etc. Foram presos inicialmente, em São Paulo, Frei Fernando de Brito (Sacerdote) e Frei Yves do Amaral Lesbaupin (seminarista).

No dia 4 de novembro, policiais levaram Frei Fernando à livraria Duas Cidades, onde trabalhava e o obrigaram a telefonar a Marighela, marcando um encontro urgente. Em seguida, os dois religiosos presos foram conduzidos pelos policiais à alameda Casa Branca, local aprazado com Marighela, e ali deixados, sob algemas, dentro de um carro.

O chefe terrorista, confiante, caminhou de encontro a seus dois cúmplices eclesiásticos. Sobreveio imediatamente a Polícia, e seguiu-se um tiroteio no qual Marighela foi morto. Como consequência, toda uma rede de elementos terroristas caiu nas malhas da Polícia, entre eles Frei Betto (Frei Carlos Alberto Libânio Christo), preso no Rio Grande do Sul, onde atuava para facilitar a fuga de elementos subversivos para fora do País.

Os três dominicanos referidos foram condenados em primeira instância (13 de setembro de 1971) a quatro anos de reclusão, pela 2ª Circunscrição Judiciária Militar, em São Paulo. O Superior Tribunal Militar confirmou a sentença em segunda instância (17 de julho de 1972), aplicando-lhe ainda a pena acessória de suspensão dos direitos políticos por dez anos. O Supremo Tribunal Federal, considerando que os frades condenados não eram "organizadores ou mantenedores" da "societas sceleris", mas apenas participantes do chamado "setor de apoio" ou "setor logístico", reduziu-lhes a pena, em suprema instância (25 de setembro de 1973), para dois anos de reclusão.

2 . "Eminência parda" nas greves do ABC

Sobre as mais recentes atividades de Frei Betto, é sintomático o que registra o "Jornal do Brasil" (21-4-80), do Rio de Janeiro.

Em reportagem sobre a greve dos metalúrgicos do ABC, na Grande São Paulo, o jornal nota a presença "ostensiva" do "Bispo de Santo André, D. Cláudio Hummes, que aparece nas assembleias-gerais [dos trabalhadores] em momentos cruciais como a da decretação da greve e o da prisão de Lula [líder sindical] e não apenas transmite mensagens e instruções precisas como estimula o movimento com sermões de fé e de apoio".

"O representante mais evidente da Igreja junto ao centro da organização da greve, contudo – prossegue a reportagem –, não é o bispo, mas um homem de sua confiança, o irmão leigo Carlos Alberto Libânio Cristo, conhecido nacionalmente como Frei Betto, um dos quatro dominicanos acusados pela polícia política de terem marcado um ponto com o líder da ALN, Carlos Marighela, na noite de 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Naquela noite, Carlos Marighela foi morto pelos policiais do DOPS de São Paulo".

Sempre segundo o "Jornal do Brasil", "a partir de então, Frei Betto, ao contrário de um de seus companheiros, sumiu do noticiário. Foi preso, solto, viajou para o Exterior, e voltou semiclandestinamente ao Brasil, para fazer um trabalho junto a uma comunidade de base em favela em Vitória, no Espirito Santo, antes de se instalar no ABC".

"Frei Betto tornou-se uma espécie de eminência parda da greve. Amigo pessoal e homem de confiança de Lula, passou a morar com o líder operário em sua casa, no Jardim Assunção, em São Bernardo do Campo. Frei Betto é conhecido por suas instruções táticas e, segundo um militante sindical, "é ele quem empurra Lula para a frente, na hora em que os pessimistas vêm com seus conselhos negativos e suas lamentações". (Os grifos são nossos).

A reportagem acrescenta que "ao contrário de organizadores evidentes da greve", Frei Betto "mantém-se à sombra de Lula. Sua única aparição pública foi quando ajudou o Bispo de Santo André, Dom Cláudio Hummes, na celebração da Missa de Páscoa, no mesmo estádio distrital (...) na Vila Euclides, em que se realizaram as gigantescas assembleias-gerais das greves do ano passado e deste ano".



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