Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

3 . Fala uma guerrilheira das Comunidades de Base

Frei Betto. – Vamos ouvir, depois desta bela apresentação do Grupo União e Olho Vivo, vamos ouvir a companheira Socorro Guerrero sobre o problema (palmas).

Com a palavra os nicaraguenses: fala uma guerrilheira

Socorro Guerrero. – Boa noite, companheiros (22). Em nome das Comunidades Cristãs (23) e dos movimentos populares da Nicarágua, vou contar-lhes minha pequena experiência como uma mulher proletária, uma mulher dos bairros marginalizados da Nicarágua, como tantos desses que vocês têm aqui no Brasil (24). Uma mulher que em nome de todas as mães – eu me atrevo a tomar o direito de dizer-lhes – que em nome de todas as mães da Nicarágua, de todas aquelas mães sofridas, aquelas mães que foram exploradas por cerca de quarenta e cinco anos de dura ditadura, e que, graças a Deus, e à vanguarda, que é a Frente Sandinista, e ao povo todo da Nicarágua, hoje podemos dizer: "Pátria livre ou morrer" (25).

(22) "Compañeros": saudação equivalente ao clássico "camaradas" marxista. É o tratamento que se dão os comunistas de língua espanhola, como, por exemplo, em Cuba e no Chile de Allende.

(23) As narrações históricas dos diversos oradores são todas voltadas a realçar a participação religiosa na frente única de comunistas e não comunistas, a qual derrotou o governo de Somoza. "Comunidades Cristãs" ou "Comunidades Cristãs populares" é como são chamadas em muitos países de língua espanhola as Comunidades Eclesiais de Base.

(24) Clara insinuação de que a situação do Brasil apresenta aspectos tão próprios a provocar a revolução social, quanto aos da situação nicaraguense hoje abolida.

(25) Mais um incitamento à violência.

Uma "desengajada"...

Vou contar minha experiência: mais ou menos em 69, eu era uma pessoa, por assim dizer, que não pensava, já que não me havia dado conta das minhas realidades, até mais ou menos em 70, em que se começou a conhecer lá na Nicarágua o movimento das Comunidades de Base (26).

... que se engaja nas Comunidades de Base

Me interessei por ele, e cheguei [a frequentá-lo] no bairro onde moro, onde o Pe. Uriel Molina tem a seu cargo o trabalho paroquial (27).

(26) As Comunidades de Base, primeiro passo para o engajamento total na revolução.

(27) A vida de piedade da recruta passa a exercer-se na paróquia de um Padre que é partícipe da agitação. Vai surgindo o caráter religioso da violência revolucionária.

"Conscientização" e Bíblia.

E começamos, então, a questionar-nos através da Bíblia. É sabiamente que Deus deu esse carisma, de que através da Palavra de Deus nós chegamos a descobrir nossa realidade social, a realidade em que vivíamos afundados, em que não tínhamos água, não tínhamos luz, não tínhamos alimentação, o serviço hospitalar era precário, enfim, uma série de coisas assim. E, sobretudo, o que descobrimos, melhor dizendo, redescobrimos, é o dom que Deus nos havia dado desde que nascemos, mas que às vezes, pelas circunstâncias em que a gente se desenvolve... ainda mais uma pessoa como eu, sem preparação – pois lhes digo que cheguei apenas ao terceiro ano primário, sem saber quase escrever, apenas a ler – cheguei a compreender esse tesouro que só se descobre através de Deus (28), e do companheiro que temos ao lado...

(28) A partir dos fatos comentados nas duas últimas notas, verifica-se que a oradora foi motivada em sua atitude revolucionária pelo contato com ambientes da "esquerda católica". Por estes foi ela conduzida a uma visão peculiar da Bíblia e da doutrina católica, própria a estimular a Revolução. A mesma luta que os comunistas desenvolvem em nome do ateísmo explícito, e até proclamado, começa por afigurar-se a essa recruta católica do sandinismo revolucionário uma como que "guerra santa".

E cheguei a compreender que o problema era grande. Mas isto se fez através de estudos bíblicos, quando questionávamos nossas realidades através do Evangelho (29).

(29) "Conscientização".

Da politização à ação revolucionária

É aí que realmente se toma consciência do problema social em que se vive. Surge então o segundo passo. A pessoa tinha já um certo matiz político, pode-se dizer, porque quando a pessoa se mete nos problemas sociais de seu país é já um homem político (30), um homem que de fato tem que ser político, porque tudo o que o rodeia o tem que questionar.

(30) À "conscientização" se segue a politização. É o roteiro clássico do trabalho comunista de agitação.

Aconteceu então que os companheiros que hoje estão na Frente Sandinista – Juan Silva, Joaquín Cuadra, Osvaldo Lacayo, Carlos Nuñez – e uma série de companheiros que hoje estão... que são nossos comandantes... Eles me disseram que precisavam de uma casa que, mais ou menos, desse uma aparência de uma casa normal de família. Eu tive medo, por que não vou dizer? Mas o meu próprio cristianismo, minha própria necessidade.... Eu dizia "Algum dia nós vamos ver uma Nicarágua livre... Tenho que fazer algo" (31). Aí então meu compromisso tornou-se já mais forte; então eu aceitei e fui colaborar com os companheiros da Frente Sandinista (32).

(31) Motivada pela Religião, a oradora dá outro passo no mesmo roteiro: da politização passa à ação.

(32) Sempre engajada pela mesma motivação religiosa, a oradora entra numa frente única com comunistas. Estes, imensamente superiores em técnicas de ação e recursos econômicos, em articulações políticas internacionais, constituem – não é difícil prever – o elemento verdadeiramente aglutinador e diretivo de frentes do gênero.

(continua)

LEGENDA:
- Assistentes aplaudem o incitamento à revolução no Brasil, feito pelos sandinistas nicaraguenses. Não faltaram os punhos cerrados, gesto característico dos comunistas.



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