Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

Vivemos momentos felizes, momentos difíceis. Porque – vou lhes dizer – quando a gente tem uma Guarda como aquela de Somoza, que a gente sabia bem que faziam operações de "limpeza", e que sabíamos que estávamos bem comprometidos, tínhamos medo de morrer.

Porém, já nos havíamos decidido, e especialmente eu já não tinha medo de morrer. Eu sabia que era melhor morrer assim do que ficar tão velha, chegar aos 80 ou 90 anos morrendo lentamente (palmas).

Incitamento revolucionário para o Brasil

E o que eu quero dizer-lhes com isso é que animo a todas as Comunidades de Base e aos movimentos populares, porque é verdade que aqui no Brasil – que, pelo pouco que conheci, é tão grande – vai ser difícil uma Revolução, mas não vai ser impossível (palmas) (33).

(33) O incitamento aos descontentes do Brasil é explícito.

É necessário que todos se ajudem mutuamente, porque é da união que nasce a força. Não podemos deixar... Vocês... É algo que me questionou, pois é verdade que em meu país existem ainda, mas que logo, pouco a pouco, vão desaparecer, isso que vocês chamam "favelas". É algo que senti terrivelmente, quase chorei.

A começar pela "conscientização"

Porque é – dizia eu – que eu estou aqui neste Instituto tão lindo, onde tenho cama, onde há de tudo – comida, cobertor, colcha, sei lá o que – e estes irmãos... porque são nossos irmãos, aí está o Corpo de Cristo. Eu queria que vocês se questionassem um pouquinho mais... (34).

(34) A oradora põe mãos à obra, procurando começar o processo revolucionário no Brasil, pela primeira etapa, isto é, a "conscientização" dos ouvintes.

Também para o Brasil: anticapitalismo

Eu sei que todos os que estão aqui têm bom coração, que são cristãos. Mas questionem um pouco mais, me parece, esse monstro que vocês têm de um capitalismo... (aplausos). Não quero que entendam isto como uma repreensão, mas sim como algo que... que nós, os nicaraguenses, estamos conscientes de que o capitalismo é o pior, o maior inimigo (35).

Uma "católica revolucionária" proclama: "não creio no demônio"

É aquilo que chamamos o diabo, na Bíblia. Porque o diabo em si, não existe, mas o capitalismo sim, existe, e nos aprisiona e nos tira até nosso ser, esse ser que Deus nos deu (36).

(35) A "conscientização" acentua o seu caráter anticapitalista.

(36) Notar que a oradora, que se diz católica, nega, entretanto, explicitamente a existência do demônio, como quem está segura de que sua afirmação tem apoio em teólogos que lhe obtiveram a inteira confiança.

É por isso que eu lhes digo: nós, na Nicarágua, hoje vivemos felizes. E essa felicidade, nós a vamos conquistar seja como for.

A "desengajada" tinha medo

Porque, se é verdade que eu nunca peguei num fuzil, agora eu digo aos companheiros: "Preciso que vocês me ensinem a usar um fuzil". Porque o dia em que nós formos invadidos, eu não vou permitir! Eu vou pegar essa arma que não peguei antes, porque tinha medo de dizer a alguém: "Pegue o fuzil". Mas eu tenho que pegá-lo. E todos os nicaraguenses estamos dispostos a pegá-lo (37). Porque se nós não o pegamos logo... porque, não acreditem: não há Revolução sem Contra-Revolução. Nós não estamos esperançosos, não estamos iludidos de que não nos vão invadir. De um modo ou de outro vamos ser invadidos. Porque, creiam-me, o inimigo é grande e lhe foi tirado o melhor que ele tinha da Nicarágua. E então nós conseguimos isso, com a vanguarda e a Frente Sandinista e o povo em geral.

(37) Quais são os invasores conjecturados pela oradora? Ela não o diz. O ouvinte fica a penar em uma eventual "revanche somozista", possivelmente com apoio de amigos de Somoza nos Estados Unidos, em cujo território o ex-Presidente se refugiou logo depois de deposto.

De qualquer forma, merece destaque a explicação dada pela oradora do porquê ela não pegou em armas durante a Revolução Sandinista. Não foi nenhuma razão de consciência, decorrente de princípios religiosos, mas tão-somente um fator psicológico: "tinha medo". O que faz ver que o ensino religioso que ela recebeu não continha qualquer censura à violência.

Até as crianças participaram da Revolução

Porque todo o povo que lutou. Vocês não imaginam como nossos meninos lutavam: faziam barricadas, atiravam pedras, recolhiam os feridos das ruas (38). Eles eram felizes, os meninos. Não sei, eles nasceram com essa felicidade que agora conquistaram.

(38) O convite à Revolução se estende implicitamente até às crianças.

Muito obrigada, companheiros, por esta calorosa homenagem que me concederam... (aplausos).

Frei Betto. – A sra. Socorro Guerrero disse que em nome da comunidade cristã e dos movimentos populares (39), ela ia contar sua experiência como mulher proletária da periferia de Manágua. E sobretudo em nome de todas as mães nicaraguenses exploradas durante 45 anos, mas que hoje, graças à Frente Sandinista de Libertação Nacional, podem dizer: "Pátria livre ou morrer".

(39) Também Frei Betto entendeu que a oradora pretendia falar "em nome da comunidade cristã", e não apenas dos "movimentos populares".

E ela contou então que, em 1969, não pensava em nada, não se dava conta da realidade, até que, em 1970, começou a participar das Comunidades.... (gravação interrompida).

4 . Discursa um guerrilheiro "cristão"

O segundo orador nicaraguense: militante das Comunidades de Bases e guerrilheiro

David Chavarría. – Obrigado, companheiros! O testemunho que eu poderia oferecer esta noite é o testemunho de toda uma experiência vivida em cerca de doze anos de integração em uma comunidade cristã, da qual já falou a companheira Socorro (40). De uma militância de quase sete anos nas fileiras da Frente Sandinista.

(40) O presente discurso constitui, pois, uma versão masculina de vida e luta em "comunidades cristãs" (ou seja, em Comunidades Eclesiais de Base) revolucionárias, simétrica com a versão feminina da "companheira Socorro".

A companheira Socorro explicava como se dá este passo de integração, motivado na consciência e no despertar dos problemas de um povo, sob a perspectiva cristã.

Um estranho conceito de "encarnação"

Quero dizer que é precisamente uma profunda convicção cristã, que somente se realiza em uma encarnação, na identificação dos sofrimentos e dores de um povo que sofre debaixo da ditadura oprobriosa dos gorilas militares impostos por potências estrangeiras (41).

(41) Merece análise o emprego metafórico dúbio, que o "companheiro David" faz da palavra "encarnação", a qual, no vocabulário cristão correto, tem seu significado-princeps, que é a Encarnação do Verbo de Deus.

Dir-se-ia que "encarnação" alude aí à "conscientização", à politização e ao engajamento do revolucionário. Na "identificação com os sofrimentos e dores do povo" etc., haveria um símile com a vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual renunciou à sua vida, à sua família etc.

A "convicção cristã.... somente se realiza" quando o cristão se identifica desta maneira com a luta de classes, encarna os sofrimentos do povo, renuncia a tudo para libertá-lo, expõe sua vida e até a perde etc.

"Somente": não há outra alternativa para o cristão senão travar a luta de classes. "Somente" assim imita ela a Jesus Cristo.

Esta afirmação parece ter como corolário que o próprio Jesus Cristo não foi senão isto: um revolucionário.

(continua)



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