Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

Foram momentos fortes, e no plano pastoral poderíamos ver três partes, não? Uma pastoral, até certo ponto, de sacramentalização; uma pastoral em tempos de perseguição; e uma pastoral em tempo de reconstrução (57).

(57) A distinção entre "Pastoral de sacramentalização", "Pastoral em tempos de perseguição" e "Pastoral em tempo de reconstrução" tem afinidade com o que foi dito acima sobre encarnação, morte e ressurreição no processo revolucionário (cfr. comentários 40, 41, 43 e 44).

Obrigado (palmas).

Frei Betto. – Agustín Zambola disse que ia partilhar um pouco as suas experiências junto aos camponeses com quem ele trabalha no campo, nas estradas, nos rios; trabalha com os irmãos camponeses e gostaria de falar sobre isso.

Em 68, ele intensificou o seu trabalho na Costa Atlântica da Nicarágua, junto à formação de animadores da Palavra nas Comunidades de Base. E os camponeses começaram a dialogar sobre a Palavra, e foram descobrindo o direito de partilhar a Palavra. E isso ajudou as Comunidades camponesas a descobrir suas necessidades, a tomar consciência de si, da situação em que viviam e da situação de pobreza, marginalidade, exploração que pesava sobre elas. Foram se dando conta, a partir dessa meditação. E sobretudo ele viveu, nesse contato, uma experiência interessante: de conhecimento da linguagem camponesa, que é uma linguagem cíclica, de quem fala a partir de sua experiência vivida. De quem fala do que é, do que quer e do que pretende. E que na região onde ele trabalha na Costa Atlântica, não há estradas. Eles caminham com mulas ou a pé, ou em botes e barcos, para visitar as Comunidades.

E as Comunidades manifestaram algumas coisas importantes. Sobretudo a partir da repressão da Guarda Nacional na região, muitos camponeses sofreram, perderam sua vida, e tiveram de testemunhar a Palavra na realidade concreta desse sofrimento.

Um dia, Agustín ia pelas montanhas e um camponês lhe perguntou: Agustín, o que você pensa da situação que a gente vive? O que você pensa do que passa em Nicarágua? Ele respondeu: Penso que é difícil, e é necessário lutar. – Mas Agustín, você não é casado, não tem filhos, você não tem nada a perder. Você deve ter muito valor para nos acompanhar na luta. Agora, eu tenho filhos, esposa, família, mas estou decidido a lutar até o fim. E a partir daí Agustín viu que ele tinha recebido um novo sacramento, um novo espírito que o comprometia definitivamente com os camponeses.

Os camponeses que vivem na região, nessa região, é a mesma região que foi trabalhada pelo fundador da Frente Sandinista de Libertação Nacional, Carlos Fonseca Amador.

E o que têm a ver, a Igreja e os camponeses, na região? – disseram a Agustin. Ele diria que, como participação, sobretudo nas montanhas, hoje os camponeses continuam atuando na reconstrução do país. E uma coisa importante: em uma de suas visitas às Comunidades, ele encontrou dez patrulhas da Guarda Nacional, e se encontrava sozinho na capela rodeado pelos guardas. Então ele se perguntou: Qual vai ser a proclamação da Palavra para esses guardas e para a Comunidade? Leu então o capítulo 58 do Profeta Isaías. E a partir daí começaram a dialogar. E disse à assembleia que, mais tarde, todos terão oportunidade de descobrir o capítulo 58 de Isaías (risos).

Mas desta proclamação da Palavra, ele tirou a conclusão de que a Pastoral na Nicarágua viveu três momentos importantes: uma pastoral de sacramentos, uma pastoral de perseguição, e agora uma pastoral de reconstrução.

6 . A palavra de um capelão da subversão

Frei Betto. – Nós vamos ouvir agora o Vigário de Socorro, que é o Padre Uriel Molina (palmas).

A experiência revolucionária de um sacerdote

Padre Uriel Molina. – Quero falar-lhes com muita simplicidade de minha experiência nesse processo revolucionário nicaraguense. Falo a partir de minha experiência sacerdotal e religiosa.

Nasci e vivi a primeira parte de minha juventude, até os 18 anos, debaixo do regime da escravidão somoziana. Coube-me estudar três anos de Direito na Universidade Nacional, que tinha sua sede então em León. Depois entrei na Ordem dos Franciscanos, em Assis, onde concluí os estudos sacerdotais que me levaram logo a um intenso trabalho de pós-graduação universitária em estudos bíblicos em Roma e Jerusalém.

Depois de doze longos anos, regressei a meu país em 1965, pouco tempo depois de ter sido fundada a Frente Sandinista de Libertação Nacional.

Ação "profética"...

Comecei a realizar em Manágua, junto com outros Sacerdotes, o que eu caracterizaria como um trabalho profético de resgate contra uma Igreja que estava comprometida com o regime governante. Coube-nos a nós, alguns Padres, a tarefa de resgatar a mensagem evangélica da apropriação que dela haviam feito desde muito tempo as classes oligárquicas (58).

(58) O frade franciscano Frei Uriel Molina, faz uma descrição do que sejam a luta de classes e a Revolução, não mais no ambiente temporal (cidade e campo), mas no ambiente espiritual (Igreja).

Havia na Nicarágua uma Hierarquia pró-governo, pró-classes altas. Era preciso afastá-la ou cercear-lhe a influência. A consecução desse objetivo parece constituir "um trabalho profético", o que faz pensar que ao apóstolo da Revolução e da luta de classes dentro da Igreja, a Teologia da Libertação confere o título de "profeta".

... que leva à ação guerrilheira

Levou-nos também a esse compromisso profético a valente ação guerrilheira de nossos irmãos sandinistas (59), realizada em alguns pontos do território nacional.

(59) A guerrilha profético-eclesiástica parece ter sido deflagrada por influência sandinista.

Certo dia, alguns companheiros sandinistas foram descobertos em seu esconderijo em um bairro de Manágua. Foram chamadas as forças de segurança e a Polícia, e eles foram metralhados sem misericórdia por carros blindados. Restaram apenas seus corpos despedaçados e seus planos de ação militar.

Reunimo-nos sete Sacerdotes para levantar nossa voz de defesa ante o que víamos com toda a clareza: uma injustiça na desproporção dos meios para combater os sandinistas. Iluminamos o caminho do que devia ser a futura Nicarágua, a partir de alguns

(continua)



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