Catolicismo n° 355-356, julho-agosto de 1980
Revista Catolicismo
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(continuação)

teve medo, sobretudo por causa da segurança de David. Mas afinal denunciou dentro e fora da Nicarágua o que se passava nos cárceres do país.

Inclusive através dessas cartas ele conseguiu enviar a Eucaristia para David.

Quando David saiu da prisão, ele quis celebrar com ele, com o grupo dele, a Eucaristia, antes de ingressar na guerrilha.

O Evangelho diz que o discípulo não é maior que o Mestre. Mas, no caso do Pe. Uriel, os discípulos, dizia ele, foram maiores do que o mestre. O que não fui capaz de dar, eles deram. E quando Somoza metralhou a população civil de seu bairro, ele sentia que a resposta era um grito de esperança: "Pátria livre ou morrer!" e sentia que não era mais ele que pregava o Evangelho; o Evangelho, na Nicarágua, estava sendo pregado pelos sandinistas (palmas).

7 . Alocução do Padre-Ministro

Frei Betto. – Nós vamos ter a alegria e a honra de ouvir agora a palavra do padre Miguel D'Escoto, que é o Ministro das Relações Exteriores da Nicarágua (palmas).

Fala um padre de esquerda (hoje Ministro da Educação)

Padre Miguel D'Escoto. – Pediram-me que fale sobre algo que, creio, não apresenta nenhuma novidade para todos vocês, irmãos e irmãs de diferentes países do Terceiro Mundo. Porque creio que todos os anelos sobre os quais vou falar, os nossos anelos para a Nicarágua, são os mesmos anelos que têm todos os habitantes do Terceiro Mundo para seus países.

Pediram-me concretamente que sonhasse um pouco em voz alta, que compartilhasse com vocês minha visão do futuro de minha pátria libertada. Libertada da opressão somozista, não libertada das consequências de tantos anos de corrupção e exploração por parte do regime somozista, da oligarquia e da intervenção do imperialismo americano.

Povo cristão porque sandinista ...

A Nicarágua – como vocês sabem – acaba de passar por uma guerra terrível. Terrível pelo ódio, pela destruição causada pela opressão somozista, porém maravilhosa pelo amor e pela entrega, pelo patriotismo, pelo heroísmo evidenciado pelo nosso povo, que é cristão e sandinista ao mesmo tempo, e é cristão precisamente por ser sandinista; o que significa estar comprometido por atos, e não só por palavras, com a sorte de seus irmãos, com os que têm fome e sede de justiça (70).

(70) A alocução do Padre Ministro das Relações Exteriores da Nicarágua faz ver, com a maior clareza, o amálgama entre sandinismo e cristianismo: "Nosso povo, que é cristão e sandinista ao mesmo tempo, e é cristão precisamente por ser sandinista". Não se poderia afirmar mais energicamente esse amálgama. Somados cristianismo e sandinismo, a resultante qual é? "Estar comprometido por atos, e não só por palavras" com os pobres.

Durante dois mil anos de vida, durante dois mil anos de civilização cristã, a Igreja soube agir com gloriosa eficácia em prol dos pobres e dos necessitados. A ela deve o gênero humano a extinção da escravidão em todos os povos civilizados, e mais tarde a libertação dos servos da gleba. Soube ela denunciar, com a necessária energia, os males ocasionados pela industrialização e pelo poder invasor do ouro nos séculos XIX e XX. E sob o bafejo dela se organizaram e floresceram, em número sem conta, obras de toda ordem, movidas pelos nobres ideais da justiça e da caridade cristãs. Mas tudo isto foi alcançado na paz, sem jamais tender para o confisco, para a subversão, nem para a violência.

Surgem agora os Sacerdotes e leigos católicos fascinados pelo apelo do comunismo à subversão. Deixam-se picar pela mosca venenosa da Teologia da Libertação, esquecem os princípios de doutrina e de ação aos quais a Igreja deveu, nesta matéria, todas as suas glórias passadas, e aberrando de dois mil anos de trabalhos frutíferos e de vitórias pacíficas, se transformam em fautores decisivamente influentes da luta de classes pregada por Marx. Ei-los que, amalgamados na Nicarágua, sandinistas e católicos se atiram nessa luta, com preterição dos aspectos espirituais e sobrenaturais da sua missão de Sacerdotes. Oh, como têm razão as advertências de João Paulo II em Puebla!

Nossa ambição para a nova Nicarágua é uma Nicarágua onde nunca jamais na História voltem a repetir-se os horrores e sofrimentos de uma guerra como a que vivemos. E para alcançar este objetivo é necessário erradicar as causas das guerras de libertação.

Desejamos que nossa pátria, que nossa Nicarágua seja realmente uma Nicarágua de todos nós, e não de um grupo de privilegiados. Queremos viver em uma Nicarágua onde não só nos chamemos, mas onde realmente sejamos irmãos, porque todos participamos. Uma Nicarágua sem fome, sem analfabetismo, com hospitais e assistência para todos, com moradias, com emprego para todos. Onde todos se sintam membros de uma grande família de nicaraguenses, unidos não somente pelo amor à pátria, mas também pelo amor entre todos nós.

Ou seja, o que queremos é uma Nicarágua que seja autenticamente cristã. Que seja sandinista, solidária, fraternal, o que implica necessariamente uma Nicarágua sem capitalismo e sem nenhuma ingerência do imperialismo nas decisões políticas de nosso país.

Essa é a nossa meta, esse é o nosso sonho.

Agora, o mundo se pergunta: "E como pensam os nicaraguenses alcançar esta meta?" – Perguntam-se sobre qual é a ideologia que conduzirá nosso avanço rumo a esse objetivo. E a resposta é que no caso da Nicarágua, depois de tantos anos de luta contra a opressão, nós realmente não tivemos que sair ao mercado internacional das ideologias, por assim dizer, para ver qual a ideologia que melhor nos convém. Nas próprias entranhas, nas montanhas e nas cidades da Nicarágua, está em gestação, ao longo de meio século, um pensamento, uma ideologia autenticamente nicaraguense. E essa ideologia é o que o mundo já está conhecendo como sandinismo.

Sandinismo, uma ideologia mal definida

É verdade que esse pensamento sandinista ainda não foi sistematizado. Já está sendo criado o Instituto de Estudos Sandinistas, para que as pessoas com capacidade para sistematizar

(continua)

LEGENDA:
- Na entrada do TUCA, literatura marxista à venda, como as obras "A Sagrada Família", "Sobre a Religião" de Marx e Engels, e "Dialética da Natureza de Engels, na 2ª. e 3ª. fileiras. Participantes do congresso de teologia podiam comprar também cartazes coloridos com a figura de "Che" Guevara.



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