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(continuação da página 6)

sectarismo, prestou lealmente homenagem à verdade: o que depois lhe atraiu as iras do 'Livre Pensamento'".4

No livro, portador do inspirado título Era uma Senhora mais brilhante que o sol — um clássico para se conhecer bem a história de Fátima —, do Pe. João M. de Marchi, I.M.C. reproduz notícia do jornal "O Dia", de 19 de outubro de 1917, do qual extraímos um trechinho sobre o momento da manifestação solar:

"[...] Tudo chorava, tudo rezava de chapéu na mão, na impressão grandiosa do Milagre esperado! Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram!".5

Também o Pe. De Marchi transcreve um belo relato do Dr. Almeida Garrett, então catedrático da célebre Universidade de Coimbra, redigido por solicitação do Cônego Doutor Manuel Nunes Formigão:

"[...] De repente ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra ameaçando esmagar-nos com o peso de sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica".6

"Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?"

Escreveu, no próprio dia 13 de outubro de 1917, o Pe. Manuel Pereira da Silva a seu colega da região da Guarda, o Cônego António Pereira de Almeida:

"[...] Numa carruagem de luxo, junto da qual se encontrava o Dr. Formigão, uma senhora de meia idade, elegantemente vestida, volta-se para um rapaz, tipo de estudante universitário, e pergunta-lhe, presa de indizível comoção: — 'Meu filho, ainda duvidas da existência de Deus?' — 'Não, minha mãe', — responde-lhe o jovem com os olhos marejados de lágrimas. 'Não, agora é impossível!'".7

"Caí de joelhos". Parecia ter chegado o fim do mundo

Nossa Senhora de Fátima é outro imprescindível livro a respeito dos magnos acontecimentos na Cova da Iria, redigido pelo historiador e escritor norte-americano William Thomas Walsh, que viajou a Portugal com o objetivo de interrogar testemunhas oculares. Em seus interrogatórios, ele entrevistou pessoas que lhe disseram ter exclamado na ocasião do milagroso sinal celeste: "Ai Jesus, vamos todos morrer aqui"; "Nossa Senhora, salvai-nos!"; "Ó meu Deus, pesa-me de Vos ter ofendido"; "Ó meu Deus! Quão grande é o Vosso poder!"; "Milagre! Maravilha!"; "As crianças tinham razão!". Muitas outras exclamações repercutiram por toda a região, de pessoas que rezaram o Confiteor imaginando que aquele seria seu último instante neste mundo. Todos desejavam beijar as mãos das três crianças, a quem chamavam de "santinhas", ou pelo menos tocar nelas.

Após reproduzir depoimentos e entrevistas que colheu pessoalmente, narra Thomas Walsh: "Conversei com muitas, inclusive tio Marto e sua Olímpia [pais de Lúcia], Maria Carreira, duas irmãs de Lúcia [Maria dos Anjos e Glória] e muitas outras pessoas da aldeia. Todos relataram-me a mesma história com evidente sinceridade. Ao mencionarem a queda do sol tinham na voz vestígios do terror que experimentaram. O Padre Manuel Pereira da Silva forneceu-me, substancialmente, os mesmos pormenores: 'Ao ver o sol cair em ziguezague', disse, 'caí de joelhos. Pensei que o fim do mundo tivesse chegado'".8

O sol pareceu ameaçar cair sobre a terra

O renomado escritor norte-americano, além de colher depoimentos de pessoas que presenciaram in loco o "Milagre do Sol", reproduz também declarações daquelas que testemunharam o prodígio estando bem distantes da Cova da Iria. Eis algumas: "O poeta Afonso Lopes Vieira pôde presenciar o fenômeno, em sua residência de S. Pedro de Moel, a uns quarenta quilômetros de Fátima. Padre Inácio Lourenço contou, mais tarde, como havia visto o fato de Alburita, a dezoito ou dezenove quilômetros de distância. Contava ele, por esse tempo, nove anos de idade. Ele e mais alguns alunos ouviram o povo gritando sobressaltado na rua, diante da escola. Em companhia da professora Dona Delfina Pereira Lopes, viram, com estupefação, a rotação e a queda do sol. [...] Repentinamente, pareceu que baixava, em ziguezague, ameaçando cair sobre a terra. Aterrado, corri a esconder-me no meio do povo. Todos choravam, aguardando, de um momento para outro, o fim do mundo'.

'Junto de nós estava um incrédulo, sem religião, que tinha passado a manhã toda a caçoar dos simplórios que haviam feito a caminhada a Fátima para se pasmar diante de uma menina. Olhei para ele. Estava como paralisado, assombrado, olhos fitos no sol. Depois, vi-o tremer dos pés à cabeça, e, levantando as mãos para o céu, cair de joelhos gritando: 'Nossa Senhora! Nossa Senhora!'"9

Fátima: manifestação da justiça e da misericórdia

Algumas testemunhas que tiveram a dádiva de assistir ao milagre contaram que, depois do medo de serem castigadas pelo sol e de que seria o fim do mundo, uma vez encerrada aquela manifestação portentosa, viram-se de joelhos, mas sentindo uma indizível alegria por terem sobrevivido. Durante o fenômeno muitos choraram de medo; depois de alegria, e abraçavam seus próximos. O que podemos interpretar como símbolo de justiça e misericórdia, dos castigos e dos prêmios anunciados em Fátima. Castigo, por exemplo, quando Nossa Senhora revelou, na terceira aparição (13 de julho de 1917), que "várias nações serão aniquiladas". Prêmio, quando profetizou "Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará".

O "Milagre do Sol" nos mostra um trailer da magnitude do anunciado castigo que cairá sobre o mundo, por ordem da justiça divina, uma vez que a humanidade não se converteu como pedira a Senhora de Fátima. Mas também manifestação da divina misericórdia, um trailer da alegria daqueles que se mantiverem fiéis a Ela, com a instauração na Terra do Reino de Maria.

Em nossos conturbados dias, prenhes de ameaças de todo tipo, até de bombas atômicas que como moderníssimas "espadas de Dâmocles" pairam sobre nossas cabeças, Fátima representa, além da justiça, a esperança e a solução para os graves problemas que afligem a humanidade. Na Aparição focalizada neste artigo, a de 13 de outubro de 1917, a Santa Mãe de Deus suplicou há exatos 100 anos: "Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido".

Com essas comoventes palavras, às quais nossos ouvidos não podem permanecer surdos, Nossa Senhora encerrou as maravilhosas e apocalípticas aparições em Fátima. Com elas encerramos também estas considerações, permitindo-nos apenas acrescentar: "Si vocem ejus hodie audieritis, nolite obdurare corda vestra" (Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações [Ps 94,8]). v

Notas:

1. Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Lúcia Maria de Jesus e do Coração Imaculado, Carmelo de Coimbra, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 50.

2. A respeito, assim como para se ter uma visão de conjunto dos acontecimentos de Fátima, recomendamos a matéria de capa desta revista em maio último.

3. William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 131.

4. Pe. Luiz Gonzaga Ayres da Fonseca, S.J., Nossa Senhora de Fátima, Aparições, Culto, Milagres, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1947, 2ª edição, p. 125.

5. Pe. João M. de Marchi, I.M.C., Era uma Senhora mais brilhante que o sol, Edição do Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima, Cova da Iria, p. 168.

6. Id., Ib. p. 169.

7. Id., Ib. p. 171.

8. William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima, Melhoramentos, S. Paulo, 1947, p. 134.

9. Id., Ib. pp. 133-134.

Legenda: - Foto original do momento do milagre do Sol.



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