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ENTREVISTA

O Vaticano não pode deixar-se enganar pelos comunistas chineses

"Estou muito triste em dizer que o governo chinês não mudou e que a Santa Sé está adotando uma estratégia errada"

O Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, Arcebispo emérito de Hong-Kong, julga que se o Papa Francisco conhecesse a realidade do regime comunista chinês, bem como as perseguições que ele move contra os católicos, não promoveria negociações com Pequim.

O Cardeal Zen foi entrevistado por Krystian Kratiuk, de "Polonia Christiana", prestigiosa revista católica de Cracóvia, que autorizou Catolicismo a reproduzir a entrevista, oferecendo gentilmente para isso sua gravação em inglês. A tradução para o vernáculo esteve a cargo de nosso colaborador Hélio Dias Viana.

* * *

"Querem controlar tudo [os governantes totalitários da China]. Não aceitam compromisso. Eles desejam fazer você capitular. Querem torná-lo escravo. É terrível!"

Catolicismo — Por que o Vaticano quer assinar um acordo com o governo comunista da China?

Cardeal Zen — Obviamente o Santo Padre pode não ter muita experiência direta com os comunistas chineses, porque na América do Sul os comunistas são perseguidos. Então ele pode ter uma simpatia natural pelos comunistas, pode não saber que eles são verdadeiramente comunistas. Mas muitas pessoas na Santa Sé devem saber, mas talvez não tenham aquela experiência pessoal, direta. Por isso estou realmente receoso de que elas possam ser doutrinadas pelos comunistas. Também porque os comunistas chineses são inteligentes, são mestres no emprego de meias palavras. Então, estou muito preocupado neste momento.

Catolicismo — O que é realmente o comunismo?

Cardeal Zen — O comunismo é totalitarismo. É, portanto, um regime totalitário. E somente aquelas pessoas que têm realmente experiência pessoal podem sentir o que é um regime totalitário, como o nazista, como o comunista. O Papa João Paulo II conheceu. O Papa Bento também. Mas temo que os italianos possam não conhecer muito bem, porque Mussolini não foi um totalitário muito duro. Entretanto, os governantes totalitários querem tudo. Querem controlar tudo. Não aceitam compromisso. Eles desejam fazer você capitular. Querem torná-lo escravo. É terrível! Portanto, essas pessoas no Vaticano podem não ter tal percepção. Elas vão então negociar e, obviamente, nas negociações todo mundo é muito amável, com palavras amáveis. Mas esta não é a realidade.

Catolicismo — Como a liberdade da Igreja ficará exposta ao perigo quando for assinado um acordo sino-vaticano?

Cardeal Zen — Na carta do Papa Bento [aos católicos chineses], ele explanou muito claramente a doutrina católica sobre a Igreja. Com certeza o Papa Francisco e outras pessoas no Vaticano concordam com essa posição. Mas, quando se negocia, é preciso saber como a outra parte pensa. Então, eu gostaria de citar um autor hegeliano, falando sobre o acordo entre a Hungria e o Vaticano. Ele diz: "Às vezes, formalmente, no papel, a autoridade do Papa pode ser respeitada, mas na prática um poder excessivo de decisão é dado ao governo". Portanto, não sabemos muito sobre como é esse acordo, pois não nos informam inteiramente. Eles dizem: "Não, certas informações são apenas por ouvir falar", um pedaço aqui, outro pedaço lá.

O que podemos imaginar a respeito dele, é constatar que se trata exatamente desse tipo de acordo [entre a Hungria e o Vaticano]. Na superfície, parece que a autoridade do Papa está resguardada, porque eles dizem: "O Papa diz a última palavra". Mas toda a coisa é falsa. Eles estão dando poder de decisão ao governo. Penso que estamos caminhando para algo pior. Daí decorre — não estou 100% seguro — que eles aceitam a eleição [de novos bispos], a que chamam de eleição democrática, aceitam que a Conferência Episcopal aprove a escolha e leve os nomes ao Papa. E o Papa diz a última palavra. Entretanto, tanto a eleição quanto a Conferência Episcopal são falsas. Eu não gosto de falar muito a respeito de eleição. Na China comunista não há eleição, nenhuma eleição verdadeira. Nem sequer a mais solene eleição no Congresso do Povo... Tudo é planejado antes.

"A Conferência Episcopal Chinesa não é legítima, porque nela há bispos ilegítimos, e porque os bispos clandestinos [perseguidos pelo comunismo] não fazem parte dessa Conferência".

Mas agrada-me falar sobre a Conferência Episcopal. Realmente não posso acreditar que na Santa Sé não saibam que não existe uma Conferência Episcopal Chinesa. Existe apenas um nome. Nela, de fato, nunca há discussões, reuniões. Os bispos se encontram quando são convocados pelo governo comunista. O governo lhes dá as instruções, eles obedecem. O então Papa Bento disse que essa Conferência não é legítima, porque nela há bispos ilegítimos, e também porque os bispos clandestinos [perseguidos pelo governo comunista] não fazem parte dessa Conferência. Assim, ela não pode ser chamada de Conferência Episcopal Chinesa. A realidade é que não há uma Conferência Episcopal na China. Mas o que existe realmente? Todos os bispos da igreja oficial [escolhidos pelo regime comunista] têm seus nomes na Conferência Episcopal. Mas então como ela funciona? Antes de tudo, ela nunca trabalha sozinha. Há sempre a Associação Patriótica e a Conferência

(continua)

Legenda:
- O Cardeal Joseph Zen na Praça de São Pedro em Roma.



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