Catolicismo - Acervo
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(continuação)

Catolicismo — Os católicos chineses ainda são perseguidos, presos e mortos por causa de sua fé?

Cardeal Zen — Certamente houve mudanças em todos esses anos, caso se compare a situação atual com os anos do início do regime comunista. Por exemplo, no começo dos anos 1950 — os comunistas tomaram o poder em 1949 —, especialmente em 1951, eles começaram, nas escolas dependentes da Igreja, a expulsar todos os missionários. Muitos foram para a prisão e nunca voltaram. E depois, em 1955, ocorreu a grande perseguição. Em uma noite eles prenderam o bispo de Xangai, o vigário-geral, o reitor do Seminário, muitos padres, muitas freiras e jovens da Legião de Maria. Enviaram-nos todos para a prisão e nunca voltaram... E foi pior ainda em 1967, durante a "Revolução Cultural". Até mesmo aqueles que obedeciam ao governo foram perseguidos pelos guardas vermelhos, presos, e nunca voltaram. Era muito duro. Inúmeras pessoas morreram na prisão.

Houve também anos muito difíceis, durante os quais inúmeras pessoas sofreram terrivelmente. E em dado momento, no final da "Revolução Cultural", os comunistas começaram a política de abertura, até abriram os Seminários. Em Hong-Kong ficamos surpresos, pois podíamos visitar os Seminários. Nessa ocasião eu pedi para ensinar naqueles Seminários. Tive que esperar quatro anos. Permitiram que eu fosse. Isso se deu de 1990 a 1996. Pude ensinar durante sete anos, primeiro em Xangai e depois em diversos Seminários. Era algo muito novo. Incrível! E fui tratado muito gentilmente, porque estávamos em 1989.

"[Os comunistas] são ateus. Eles querem destruir a Igreja. Ou, ao menos, se não podem destruir, querem enfraquecer a Igreja. Então é incrível, não se pode aceitar esse acordo".

Lembra-se do que aconteceu então? — Praça Tiananmen [as manifestações estudantis contra o governo vermelho, reprimidas duramente]. Então, enquanto todo mundo partia para fora da China, eu fui para dentro da China. Isso significava que eu acreditava neles. Que eu sou amigo. Então, eles me trataram muito bem. Durante sete anos... Eu costumava passar seis meses do ano em Hong-Kong, seis meses ensinando na China em todos aqueles Seminários da igreja oficial [do governo comunista]. Era muito triste ver como eles tratavam os nossos bispos. Sem nenhum respeito. Simplesmente assim [o cardeal faz um gesto de quem arrasta o outro pelo nariz]. Escravos! Portanto, foi uma experiência terrível. Então, julgo que se as pessoas não tiverem essa experiência, elas não podem compreender.

Talvez tenha até havido outras mudanças nesses últimos anos, sem tantas pessoas na prisão. Mas alguns bispos continuam presos. Um deles morreu no ano passado. E alguns padres que morreram misteriosamente. Diversos padres ainda estão na prisão, embora muito menos do que antes. Porém, eles [os comunistas] continuam controlando. E, comparando, a situação é pior. Por quê? Porque a Igreja foi debilitada. Estou muito triste em dizer que o governo chinês não mudou e que a Santa Sé está adotando uma estratégia errada. Eles [as autoridades do Vaticano] são muito sequiosos em dialogar, dialogar. Então, dizem a todo mundo para não fazer barulho, para acomodar-se, fazer compromisso, obedecer ao governo. Em consequência, as coisas estão indo ladeira abaixo.

Catolicismo — Os católicos na China estão se opondo ao diálogo com os comunistas?

Cardeal Zen — Alguns jornalistas vão à China e voltam dizendo: "Oh, vejam, eles agora podem falar à vontade!". Na China não existe liberdade de expressão. As pessoas não podem falar. Alguns [sacerdotes] podem vir agora a Hong-Kong falar comigo, podem conversar com o arcebispo Savio Hon na Congregação para a Evangelização, mas não podem falar publicamente. Então, como esperar que falem? Se o fizerem, serão imediatamente presos. Até os advogados dos direitos humanos são presos pelo regime comunista por defenderem os pobres e os oprimidos. Muitas pessoas são obrigadas a comparecer diante da televisão e dizer: "Desculpem-me, estou errado, o governo está certo". Elas são humilhadas! Portanto, não existe liberdade e estão temerosas. Às vezes o próprio Vaticano não ousa pressionar muito porque, de fato, quer que todos façam compromisso.

Catolicismo — A situação do laicato mudará após a assinatura do acordo do Vaticano com a China?

Cardeal Zen — As relações entre os leigos e o clero ocorrem sempre de duas maneiras: muitas vezes é o clero que dirige o povo, algumas vezes é o povo que dirige o clero. Por exemplo, na igreja oficial [do governo] há também bons bispos. Eles não podem fazer nada em nível nacional da Conferência Episcopal. Mas em suas dioceses podem fazer algumas coisas. Podem manter bem as suas dioceses e os fiéis estão contentes em segui-los. Há bispos que não são bons e os católicos mais velhos não estão contentes. Mas os católicos mais jovens nada sabem sobre essa questão. Eles não entendem o que é "oficial" [igreja do Estado comunista], "subterrânea" [Igreja fiel a Roma]. Simplesmente gostam de ir à igreja, onde se pode rezar e cantar. Não são muito argutos a respeito dessas distinções. Antigamente, na clandestinidade, os padres eram severos. Por exemplo, diziam: "Você não pode ir à igreja oficial. É pecado mortal". E os fiéis mais velhos acreditavam nisso. Mas agora o Papa diz: "Não, você pode ir, porque o fiel tem o direito de receber sacramentos válidos". Então os fiéis podem dizer: "Nas catacumbas não é seguro. É perigoso. Algumas vezes eu vou à igreja oficial, depois volto".

Na igreja oficial, às vezes os fiéis agem melhor que os padres e os padres às vezes agem melhor que os bispos. Porque os bispos sofrem mais pressão, os padres sofrem mais pressão que os leigos. Então os leigos podem torná-los mais fiéis à Igreja. E agora, às vezes, por causa dessa interpretação errada da carta do Papa, pode haver padres e bispos da clandestinidade que gostariam de se tornar da igreja oficial. E então, há muitos casos em que os católicos não gostam disso e dizem: "Está errado". Portanto, a situação é muito complicada. A situação geral é pior do que antes. Agora há mais confusão, mais divisão.

"Durante essas negociações eles [os comunistas chineses] não estão demonstrando nenhuma cordialidade nem sinal de boa vontade. Apenas mostram que querem controlar mais".

Catolicismo — Existe para os católicos chineses a esperança de viver a antiga liberdade da Igreja?

Cardeal Zen — Em seu país [Polônia], goza-se de liberdade. Naquele tempo de domínio do comunismo as pessoas não podiam acreditar — ninguém podia esperar — na queda repentina do comunismo, de certo modo pacificamente. Portanto, quando as pessoas me perguntam: "O que o senhor espera, quando gozarão de liberdade?". Eu digo: "Pode ser que talvez devamos esperar 50 anos, ou talvez cinco semanas. Por que não?". Estamos nas mãos de Deus. É importante rezar. Rezar pela conversão. Nesta minha visita aqui, notei uma coisa maravilhosa: que os senhores podem generosamente esquecer o passado. Então, quando o regime caiu, não houve vingança da parte do povo. Penso que este é o espírito cristão. Estou muito temeroso de que na China — onde os cristãos constituem uma pequena minoria — os comunistas poderão ser perseguidos quando o comunismo cair. Porque há muitíssimas injustiças e o povo, que não é cristão, poderá se vingar. Portanto, é muito perigoso. A única coisa seria rezar para que os comunistas sejam convertidos em seus corações. Então, poderá haver uma passagem pacífica. Eles não gostam de falar de revolução pacífica, mas nós esperamos.

Legenda:

- O Cardeal Zen (com a mão no peito) fotografado em Hong-Kong com parte do clero fiel a Roma



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