Catolicismo - Acervo
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(continuação)

subjetivo — a disposição a reconhecer nossa dependência de Deus —, e um aspecto exterior, objetivo — os atos de homenagem que manifestam dito reconhecimento.

A religião responde a uma necessidade profunda do coração humano e procura atender não somente às necessidades pessoais de cada um, mas também àquelas dos nossos próximos, em círculos concêntricos que começam por nossa família e se estendem a toda a sociedade, uma vez que o bem-estar individual depende muitíssimo do bem-estar de toda a comunidade (basta pensar nos sofrimentos acarretados pelas guerras!). Por isso, a religião, no seu culto exterior, é em grande medida uma função social. Os seus ritos principais são realizados em público, em nome e em benefício de toda a comunidade. Ademais, é o caráter comunitário da religião que permite a conservação e o enriquecimento do culto religioso ao longo das gerações.

Religião sobrenatural e sujeição a Deus

O que temos dito até aqui corresponde à reta religião natural, cujo conhecimento e obrigações podem ser adquiridos e deduzidos pelo próprio engenho da mente humana sem ajuda superior. Mas dita religião natural não exclui as teofanias — manifestações sensíveis da divindade — para confirmar, por meio das revelações divinas, a religião natural; ou, melhor ainda, para convidar o homem a participar da própria vida divina por meio da graça.

A religião passa então a ser sobrenatural e implica uma Revelação especial, por meio da qual o homem conhece seu fim sobrenatural — a visão e a posse de Deus

no Céu —, assim como os meios divinamente estabelecidos para alcançá-lo. A religião sobrenatural é, então, a sujeição de si mesmo a Deus, baseada não mais na luz da razão e nas forças naturais, mas nesse conhecimento sobrenatural fornecido pela fé na Revela

ção e que produz bons frutos pela ação da graça divina.

Cristianismo e o Corpo Místico de Cristo

Posto que Deus, por meio da Encarnação e da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, trouxe ao alcance da humanidade as verdades e as práticas necessárias à consecução de sua finalidade sobrenatural, é no cristianismo que, com a garantia da autoridade divina, se encontra absolutamente tudo aquilo que é preciso crer e fazer para se salvar eternamente. O cristianismo é, pois, a religião perfeita, da qual Jesus Cristo é o Fundador e para a qual Ele prometeu Sua assistência e a presença do Espírito da verdade até o fim dos tempos.

Ora, querendo Nosso Senhor que o cristianismo tivesse uma expressão visível, atraiu para isso muitos discípulos e escolheu 12 Apóstolos, que colocou à frente de uma assembleia, de uma congregação (ekklesia, em grego; qahal, em hebreu) com o mandato de evangelizar todos os povos, a fim de formar o novo Povo de Deus da Nova Aliança com aqueles que crerem e receberem o batismo.

Que os primeiros cristãos formavam uma pequena sociedade visível deixam-no manifesto muitas passagens dos Atos dos Apóstolos, e isso já logo depois do discurso de São Pedro no dia de Pentecostes, quando mais ou menos três mil receberam o batismo e "perseveraram na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações [...] Todos os fiéis viviam unidos e tinham todo em comum" (At 2, 42 e 44). Nessa pequena sociedade os Apóstolos tinham não somente um poder de jurisdição, tanto legislativo como judiciário (cujas sentenças eram até corroboradas por milagres!), mas também um poder de ensino, do qual os fiéis não podiam se afastar, ainda que um anjo viesse ensinar o contrário (Gal 1, 8).

Assim, São Roberto Belarmino pôde definir a Igreja militante com uma fórmula sintética, aceita depois por toda a teologia tradicional: "É o corpo dos homens unidos pela profissão da mesma fé cristã, pela participação nos mesmos sacramentos, sob o governo dos legítimos pastores, especialmente do Romano Pontífice, único Vigário de Cristo na Terra" (De Ecclesia, 3, 2, 9).

Essa Igreja militante obviamente tem uma realidade espiritual, e, através da comunhão dos santos, forma o Corpo Místico de Cristo juntamente com aqueles que no Céu "nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz" (Igreja gloriosa) e com os que ainda purificam suas almas purgando suas faltas no Purgatório (Igreja padecente).

Deus estabeleceu soberanamente a Igreja Católica

Portanto, mesmo quando as almas atingem seu fim sobrenatural e gozam da visão beatífica, esse encontro pessoal com Deus, de que fala nosso missivista, tem uma dimensão religiosa comunitária, na medida em que todos os bem-aventurados são células vivas de um único Corpo Místico de Cristo. Mas essa inserção sobrenatural em Jesus Cristo, tronco da videira da qual o cristão é um ramo, começa já nesta Terra por meio da fé, da recepção dos sacramentos, especialmente da Comunhão, e da obediência aos legítimos pastores, sucessores dos Apóstolos.

Sim, não há dúvida de que Deus deseja estabelecer um relacionamento íntimo com cada alma, mas Ele próprio estabeleceu soberanamente os meios e os depositou nas mãos da Igreja Católica, que possuirá até o fim dos tempos a fé que deve ser crida, os sacramentos que devem ser recebidos e os pastores que devem conduzir Seu rebanho até as pradarias verdejantes do Céu. A prova dessa unicidade da Igreja Católica são seus numerosos santos, que deixaram na História uma marca indelével e o perfume de suas virtudes heroicas.

A necessidade e a unicidade da Igreja para obter a salvação e a eterna amizade com Deus é uma verdade consoladora negada por Martinho Lutero, a qual é preciso mais uma vez relembrar no quinto centenário de sua revolta. E isso tanto mais quanto têm proliferado nos meios católicos as celebrações conjuntas com os protestantes para glorificar o heresiarca e festejar sua ruptura, com grande escândalo dos fiéis.

Longe de nos associarmos a tais celebrações ominosas, peçamos a Nossa Senhora, Medianeira universal de todas as graças, um amor entranhado à Santa Igreja, una, santa, católica e apostólica, Corpo Místico de seu Filho, única religião verdadeira do único Deus verdadeiro.

LEGENDAS:
- Adoração à Eucaristia – Agostino Ciampelli, 1614. Sacristia da Igreja Il Gesú, em Roma.
- Le Beau Dieu da Catedral de Amiens, na França (fachada). - Foto: Frederico Viotti.



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