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PALAVRA DO SACERDOTE

Monsenhor José Luiz Villac

Pergunta — Pretendo praticar a autodefesa, porque a considero de suma importância nos dias convulsionados de hoje. Ela me possibilitará também participar de campeonatos e conseguir algum dinheiro para ajudar em casa. Pergunto se há alguma posição da Igreja quanto às artes marciais.

Resposta — A pergunta de nosso missivista pode interessar não somente aos jovens leitores desejosos de praticar algum esporte de autodefesa, mas também aos pais que, no intuito de dar uma boa formação e distração sadia a seus filhos, pensam na possibilidade de matriculá-los em alguma academia de artes marciais, como karatê, judô etc.

Dentro da finalidade desta coluna, três aspectos do problema podem ser estudados: a prática de um esporte em geral; o aprendizado de técnicas de autodefesa; e a questão das artes marciais de origem oriental.

Quanto ao primeiro aspecto, ou seja, a conveniência da prática do esporte e das condições para ele ser praticado de uma maneira moralmente proveitosa, de modo particular em se tratando de moças, esta coluna já o tratou na edição de fevereiro de 2016.

Legítima defesa, segundo o Catecismo

Em pricípio é perfeitamente lícito, segundo a doutrina católica, o aprendizado de técnicas de defesa pessoal

No que se refere ao aprendizado de técnicas de autodefesa – que, como diz o nosso missivista, se tornaram cada vez mais necessárias à vista do aumento de todo tipo de violência na sociedade atual –, trata-se no fundo de uma das formas que pode tomar a legítima defesa.

Em seu artigo sobre o 5° Mandamento da Lei de Deus, “Não matarás” (Ex 20, 13), o Catecismo da Igreja Católica explica, nos parágrafos 2263-2265, que a legítima defesa não é homicídio, porque “do ato de defesa pode seguir-se um duplo efeito: um, a conservação da própria vida; outro, a morte do agressor”, este segundo efeito estando “para além da intenção” de quem se defende. De fato, “o amor para consigo mesmo permanece um princípio fundamental de moralidade” e, portanto, é “legítimo fazer respeitar o seu próprio direito à vida”, já que “se está mais obrigado a velar pela própria vida do que pela alheia”. O Catecismo vai até mais longe e afirma que a “legítima defesa pode ser não somente um direito, mas até um grave dever para aquele que é responsável pela vida de outrem”.

Se o uso de armas é legítimo para defender a própria vida, a fortiori é lícito uma pessoa aprender técnicas muito eficazes de defesa pessoal para proteger a integridade física, a honra ou os bens próprios ou do próximo. Portanto, é perfeitamente lícito, segundo a doutrina católica, o aprendizado de técnicas de defesa pessoal.

Vigilância necessária na prática de certas lutas

Nas religiões orientais e nas correntes da Nova Era o “espírito” se confunde com a energia divina que anima todo o universo.

A questão das artes marciais de origem oriental é mais delicada de tratar, uma vez que elas podem ser consideradas ou como simples esportes – o judô, por exemplo, passou a ser uma disciplina olímpica nos Jogos de Tóquio de 1964 – ou como uma via espiritual.

Enquanto mera atividade esportiva ou de autodefesa, e desde que fique nesse âmbito, a prática das artes marciais orientais não apresenta maior dificuldade, porque elas se assemelham a outras formas ocidentais de esportes de combate, que é lícito praticar desde que não haja risco desproporcionado para a vida ou a integridade física dos esportistas.

Mas ditas artes marciais apresentam certos problemas delicados, se encaradas enquanto técnicas de desenvolvimento espiritual. Para compreender bem o problema é preciso fornecer algumas informações, ainda que sumárias e parciais, da origem e desenvolvimento das artes marciais no Oriente. Para simplificar, vamos tomar como exemplo as artes marciais japonesas.

Os leitores devem ter notado que todas as artes marciais japonesas têm como sufixo a sílaba “do”: ju-do, aiki-do, karate-do, kiu-do. O ideograma “do”, que se pode também ler “michi”, significa o caminho, a via, a rota. Trata-se da via espiritual seguida pelo praticante de uma arte marcial (um budo) para o desenvolvimento integral de sua pessoa, sobretudo na sua dimensão espiritual. No fundo, é um modo de vida apresentado como ideal por um mestre-guru, que a pessoa aceita seguir para tornar-se um homem de caráter, um justo dotado de princípios e convicções que respeita a natureza de sua humanidade.

Um verdadeiro budo não adquire apenas um saber técnico que o torna eficaz em uma forma de combate. Ele se distingue sobretudo pelo seu comportamento, cujas raízes estão no código de honra dos samurais (bushido) e nas regras de vida prescritas pelos antigos mestres espirituais, consideradas como base para a reta compreensão daquela arte marcial.

Como diz Peter Lewis, um divulgador dessa “via” no Ocidente, “a essência das artes marciais está no fato de os combatentes não visarem unicamente vencer a resistência do adversário, mas também conhecer o próprio ‘eu’ para poderem viver em harmonia com o universo. Em outras palavras, o combate passou de um simples instinto animal, natural, a uma ciência exata influenciada pelas doutrinas religiosas orientais, ensinadas há milhares de anos por aqueles grandes sábios e filósofos que descobriram como, canalizando as próprias energias através das artes marciais, a mente, o corpo e o espírito se unem num só ‘eu’, tornando assim possível a perfeita harmonia do ser com a natureza e o universo”.

De fato, nas religiões orientais e nas correntes da Nova Era o “espírito” se confunde com a energia divina que anima todo o universo. Desse conceito panteísta deriva a noção de “ki”, muito popular entre os adeptos das artes marciais, a qual se refere à parcela de energia cósmica inerente a cada ser existente (no caso do homem, residente no abdômen) e que se trataria de condensar e liberar no golpe assestado no adversário (daí o costume de proferir o grito de combate ki-ai!, ou seja, “exalação”, na fase decisiva da aplicação de uma técnica).

Essa filosofia panteísta impregna toda a encenação e prática das artes marciais orientais, desde o mokuso – ou meditação, no começo e no fim do treinamento, sentado no dojô (literalmente, “lugar para o estudo da Via”, que era originalmente a plataforma de meditação budista, mas virou o espaço para treinamento marcial) –, passando pelas saudações ao instrutor (sensei), até o aprendizado dos kata, movimentos simples e recorrentes, alternando contrações e descontrações, e destinados, pelo menos

(continua)



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