Catolicismo - Acervo
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(continuação)

Catolicismo — O que fizeram da Constituição?

Roberto Weber — Se alguma lei ou emenda constitucional apresentar um argumento favorável aos índios, ela é enaltecida de todos os modos. Se for contrária aos interesses deles, consideram até em despacho como se fosse letra morta. A situação é grave não apenas para nós aqui do Oeste do Paraná, mas para o Brasil como um todo. Olhe que 1988, ano da promulgação da Constituição vigente, não está tão longe, e nesta época — temos uma farta documentação sobre isso — não havia índio por aqui. Caso haja demarcação aqui no Oeste do Paraná, ficará caracterizada a quebra do marco temporal previsto na Constituição.

Catolicismo — Sua associação já foi objeto de processos judiciais por parte dos índios ou daqueles que os representam?

Roberto Weber — Na verdade, nós não questionamos a presença guarani na região quando da descoberta do Brasil no início do século XVI, pois havia presença indígena em todo o Brasil, em toda a América. O que estamos questionando é sobre um marco que rege a sociedade civilizada, pois não é mais possível a estas alturas regredirmos para uma vida tribal.

Apesar de várias tentativas de nos criminalizar, não fomos processados, pois trabalhamos inteiramente dentro da lei. Não trabalhamos e nem podemos trabalhar com o “eu ouvi dizer”, o outro lado é que vem agindo assim. Por ocasião de uma invasão frustrada numa terra da Eletrosul, a ONGDIP fez um arrazoado legal explicando direitinho o que estava ocorrendo.

Um cacique alegou que o nosso arrazoado o tinha ofendido, pois ele se sentira discriminado. Temos até uma foto desse índio. Então ele foi ao MP tentar me incriminar. O delegado da PF me chamou e eu respondi, apelando para minha liberdade de expressão, e lhe disse que analisássemos juntos, linha por linha, o que estava escrito em nosso documento. Não tendo encontrado nada de ofensivo, fui dispensado.

Catolicismo — Já foi entregue algum laudo antropológico demonstrando a presença de índios na região?

Roberto Weber — Do que tomamos conhecimento é que um pessoal da Universidade de Maringá havia sido contratado para fazer um levantamento da presença indígena aqui. De uns dois ou três anos para cá começamos a ouvir comentários — não tenho provas disso — de que o estudo feito por essa equipe de Maringá não saiu como eles e seus porta-vozes queriam, e o grupo de trabalho foi cortado.

Para fazer um trabalho que viesse de encontro ao que eles queriam foi contratada outra turma, desta vez da Universidade de Santa Catarina. Este grupo, sim, parece que fez e está entregando um trabalho conforme o desejo deles, mas oficialmente não temos conhecimento de que tenha sido entregue aos órgãos competentes.

Para ter uma idéia, o pedido inicial para esse levantamento antropológico foi feito numa folha de papel escrita à mão, mais ou menos assim: “Andei numa estrada sem nome, saí numa cabeceira sem nome, depois entrei na estrada tal e cheguei ao Rio Piquiri, mais à frente saí numa estrada sem nome, saí pela estrada da divisa”.

Esse foi o pedido inicial com a assinatura de dois ou três índios e que está gerando toda esta confusão. E foi com base nele que a FUNAI iniciou os estudos da presença de guaranis aqui no município para fins de expropriação das terras para uma reserva indígena de 100 mil hectares. Trata-se de um jogo de cartas marcadas entre a FUNAI e o MPF, mais ou menos no estilo “me provoca que eu faço”.

Catolicismo — Há pouco o senhor disse que este trabalho de esclarecimento é difícil de um lado e muito árduo de outro...

Roberto Weber — Se de nossa parte alegamos o marco temporal fixado na Constituição, o outro lado alega o seu “direito originário”. Depois que nos organizamos, conseguimos explicar de maneira verdadeira como funciona a lei, pois até então as pessoas apenas repetiam: — “Não, se invadirem a minha terra eu tenho a lei do meu lado, pois tenho a documentação dela”. Ou ainda: — “Se invadiram tal terra foi porque lá o dono não tinha a documentação em ordem”, e coisas do gênero.

Quando passamos a mostrar como funciona a lei e como age a FUNAI, as pessoas começaram a entender mais as coisas, foram ficando cada vez mais inconformadas e, a partir de então, foram tentadas mais seis invasões indígenas, mas todas elas sem sucesso.

“Quando foi a vez dos índios se manifestarem, eles passaram a exigir água e eletricidade, além de cestas básicas, e ameaçaram colocar fogo em tudo, se não fossem atendidos...” Catolicismo — Por que o senhor qualificou de árduo defender-se aqui no Oeste do Paraná?

Roberto Weber — Houve uma audiência aqui e os produtores foram convidados a participar. Quando foi a vez dos índios se manifestarem, eles passaram a exigir água e eletricidade, além de cestas básicas, e ameaçaram colocar fogo em tudo, se não fossem atendidos... E isso foi sustentado na frente do Juiz e do Procurador e eles não fizeram nada.

Ademais, não nos deram oportunidade de falar. Nosso advogado se levantou e esclareceu que não havia água nem eletricidade lá em razão exatamente de ser uma propriedade rural, e que os índios, quando foram para lá, sabiam disto. Sabe o que aconteceu? — O promotor interrompeu o advogado sob o pretexto de estar acirrando os ânimos na audiência, apesar de não ter havido tumulto algum na fala dele.

“A Procuradoria está tão à esquerda que não existe diálogo com ela. Por exemplo, ela não atende mais casos individuais. Para sermos atendidos precisaríamos formar um grupo”

Catolicismo — Já experimentaram outros tipos de dificuldades no relacionamento com as autoridades locais a propósito dessas invasões?

Roberto Weber — A Procuradoria está tão à esquerda que não existe diálogo com ela. Por exemplo, ela não atende mais casos individuais. Para sermos atendidos fomos obrigados a formar um grupo, uma coletividade. Formamos um grupo de 20 pessoas, todas assinaram o pedido de audiência e fomos à Procuradoria tentar expor a nossa situação. Mas a resposta da pessoa que nos atendeu foi que seríamos atendidos no dia seguinte às 17 horas. Na hora marcada estávamos lá... e não fomos atendidos novamente. Marcaram assim mais três ou quatro vezes e nós comparecíamos nos dias e nas horas fixados sem nunca sermos atendidos. Tenhamos presente que se trata de um órgão público, portanto financiado por nós, mas que dentro de uma cultura esquerdista se encontra a serviço dos invasores, defendendo uma das partes, e não o todo. O Brasil está dividido e esta situação só vai acentuar a divisão.

LEGENDA:
- Nem a chuva conseguiu segurar a multidão que saiu às ruas de Guaíba no dia 6 de dezembro, em manifestação contra a demarcação de terras indígenas.



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