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bispos, sacerdotes e diáconos, ou seja, para todos os clérigos dedicados ao serviço do altar, que devem se abster de suas esposas e não gerar filhos; quem fizer isso deve ser excluído do estado clerical”.

Algum leitor pode ficar surpreso ao perceber, pelo teor do texto acima, que naquela época remota muitos clérigos que tinham recebido as ordens maiores eram viri probati, quer dizer, homens casados antes de ser ordenados. Mas é preciso ter em vista que os mosteiros começaram a difundir-se no Ocidente unicamente a partir do século VI, e que os seminários só existiram a partir do século XVI. Portanto, os clérigos tinham de ser escolhidos entre os homens virtuosos e sábios da própria comunidade, muitos deles já casados. Mas note-se bem este detalhe: aos escolhidos era exigido abster-se do comércio carnal com suas esposas, já a partir da ordenação diaconal. Para isso, obviamente os candidatos deviam obter com antecedência o consentimento de sua mulher; e se ela consentisse, passava a ser mantida pela Igreja a partir da ordenação.

Obrigação à castidade, estabelecida pela Divina Escritura

A razão profunda da disciplina, assim como seu caráter tradicional, foi formulada algumas décadas mais tarde, no Código dos Cânones das Igrejas Africanas (trata-se das igrejas da margem sul do Mediterrâneo, das quais provinha, por exemplo, Santo Agostinho), o qual foi promulgado no importante concílio de Cartago do ano 419: “Convém que os sagrados bispos, os sacerdotes de Deus e os levitas [diáconos], ou seja, aqueles que servem nos divinos sacramentos, sejam continentes por completo, para que possam obter sem dificuldades o que pedem ao Senhor; para que também nós protejamos o que os Apóstolos ensinaram e é conservado desde antigamente”.

Essa frase final merece ser destacada, pois mostra que havia consenso na Igreja primitiva sobre o fato de que foram os próprios apóstolos que estabeleceram a disciplina da completa continência dos clérigos após receberem as ordens maiores.

No mesmo sentido é o testemunho da Igreja de Roma, que Santo Irineu, na segunda metade do século II, afirmava ser a coluna da preservação da tradição apostólica. No ano 385, respondendo a uma pergunta do bispo Himério de Tarragona, o Papa Sirício afirmou (numa carta chamada Directa) que os sacerdotes e diáconos que geram filhos depois da ordenação violam uma lei irrenunciável, que desde o início da Igreja obriga os clérigos que receberam as ordens maiores. O Papa Sirício diz nesse documento que, embora no Antigo Testamento os sacerdotes e levitas pudessem usar do matrimônio fora do tempo do seu serviço rotativo no Templo (uma semana a cada seis meses, aproximadamente), no Novo Testamento os clérigos maiores devem viver continuamente a continência a partir do dia da sua ordenação diaconal, porque eles prestam o culto sagrado todos os dias do ano.

Também o Papa Inocêncio I (que governou a Igreja entre 401 e 417), respondendo a consultas dos bispos da Gália, depois de constatar que “muitos bispos em várias igrejas particulares tinham mudado temerariamente a tradição dos Padres”, reitera o seguinte: “No que diz respeito aos bispos, sacerdotes e diáconos, que devem participar nos sacrifícios divinos, por cujas mãos se comunica a graça do batismo e se oferece o Corpo de Cristo, decidiu-se [no sínodo romano convocado para preparar essa resposta] que estão obrigados à castidade não só por nós, mas pela Divina Escritura: aos quais os Padres ordenaram também que observassem a continência corporal”.

Obrigação que remonta aos primórdios da Igreja

Todos os textos acima referidos, e outros textos dos Padres da Igreja que não há espaço para citar, foram fornecidos pelo Cardeal Alfonso Maria Stickler no seu estudo O Celibato eclesiástico – sua história e seus fundamentos teológicos.1 Deles se conclui que a continência própria dos três últimos graus do ministério clerical (diácono, sacerdote e bispo) se manifesta na Igreja como uma obrigação que remonta aos primórdios de sua história, e que foi transmitida como um patrimônio da tradição oral.

De maneira que, se o diácono da paróquia do consulente é casado, e deseja ser fiel nesse ponto aos costumes da Igreja primitiva, deveria obter de sua esposa a anuência para viverem em perfeita continência, ou então renunciar ao estado clerical.2

Na próxima edição, poderemos nos ocupar da anomalia disciplinar ainda existente em algumas igrejas de rito oriental, que não seguem a tradição apostólica da continência dos clérigos maiores. Pretendemos também contestar a falácia do celibato optativo como solução para a atual insuficiência de vocações sacerdotais. Pedimos aos prezados leitores que, até a próxima edição, rezem para que nós sacerdotes, pelo nosso exemplo de perfeita castidade, sejamos a luz do mundo e o sal da Terra, de que precisa nossa tão corrupta sociedade moderna.

Notas:

1. Os leitores interessados em aprofundar a matéria podem ler a íntegra do excelente e bem documentado estudo do Cardeal Stickler no endereço: http://www.presbiteros.org.br/celibato-eclesiastico-historia-e-fundamentos-teologicos-2/.

2. Em 1964, em vista das propostas de restauração do diaconato permanente de homens casados, o então simples sacerdote e perito conciliar Alfonso M. Stickler publicou um estudo intitulado “A continência do diácono, especialmente durante o primeiro milênio da Igreja”, no qual insiste na ininterrupta tradição exigindo perfeita continência dos que já estavam unidos pelo matrimônio antes de receberem o diaconato. Num estudo ainda inédito, mas redigido em 1998, o jesuíta Donald J. Keefe, professor emérito de Teologia na Universidade Fordham, após analisar em detalhe os documentos do Concílio Vaticano II e os documentos magisteriais e disciplinares pós-conciliares que restauraram o diaconato permanente, conclui: “Em suma, há todas as razões para insistir no fato de que o sacramento da Ordem permanece como sempre foi, e que a prática atual (não se pode falar numa instituição canônica) de um diaconato incontinente é uma aberração que não vai alcançar um estatuto permanente na Igreja”.

Legendas:
- A Primeira Missa - Os pais do celebrante – José Alcázar Tejedor, séc. XIX. Museu do Prado, Madri, Espanha.
- O padre Bervoets, coadjutor da igreja de São Carlos Borromeu – Ernest Wante, séc. XX. - Igreja de São Carlos Borromeu, Anvers, Bélgica.