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(continuação)

torre, iam crescendo as divergências e os mal-entendidos entre eles.

As divergências crescentes chegaram a um auge, a ponto de uns não entenderem o que os outros falavam. E a consequência foi o aparecimento de línguas diferentes, pois a linguagem nada mais é do que a expressão de uma mentalidade própria a um conjunto de pessoas que vivem numa mesma coletividade. O paroxismo de incompreensão levou os construtores da torre a separarem-se uns dos outros, dando origem às distintas nações que hoje povoam a Terra, e ficando a torre inacabada.

A Babel histórica, símile para a babel atual

Desentendimentos profundos, como os que conduziram à degringolada a Torre de Babel, envolvem sempre um ou mais dos atributos que a Filosofia classifica como transcendentais do ser: Unidade, verdade, bondade e beleza (unum, verum, bonum, pulchrum). Esses transcendentais existem de modo absoluto e perfeito em Deus. Quando Deus se definiu diante de Moisés, na sarça ardente, disse de Si mesmo: “Eu sou Aquele que é”. Ou seja, Ele é, de modo perfeito e absoluto, a unidade, a verdade, a bondade, e a beleza.

Sendo estas as características transcendentais de todo ser, elas o são também de um homem, como uma participação nas características próprias do Ser por excelência, que é Deus. Criados à “sua imagem e semelhança”, nós homens participamos desses atributos divinos na medida em que nos conformamos com o plano definido por Deus para cada um de nós, no momento de nos criar. Cada pessoa é assim um ser único e irrepetível, uma peça de coleção da qual jamais haverá outra igual. Essa peça está chamada a refletir, de modo próprio e único, algo da bondade infinita de Deus. É o que nos ensina o Salvador, quando definiu os dois maiores Mandamentos: “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo” (Mc 12,30-31).

Explicando esse preceito, São Paulo pergunta: “Como amarás a Deus que não vês, se não amas o teu próximo que vês?”. Santo Agostinho também o formula de modo claro e conciso: “Nenhum pecador deve ser amado enquanto pecador. A todo homem enquanto homem se deve amar por causa de Deus, e a Deus por Si mesmo”.1 O amor ao próximo, pelo que ele tem de bom, belo, verdadeiro e único, é um modo de nos prepararmos para ver a Deus com amor absoluto, pois Ele é o possuidor de todos esses atributos como fonte e essência.

Daí nasce o que Santo Tomás chama de “amor de amizade”, isto é, o amor ao próximo não por um bem egoísta, mas pelo bem objetivo, que merece ser amado. Esse amor de amizade se contrapõe ao amor de “concupiscência”, pelo qual amamos as coisas somente pela satisfação que ela nos pode proporcionar.

Santo Tomás ensina também que o “amor de amizade” só pode se dar entre pessoas racionais, pois exige que o bem desejado ao outro seja capaz de ser entendido e devolvido por quem o recebe. Ou seja, as características do autêntico amor –– que dão solidez ao instinto gregário –– derivam de razões objetivas e racionais, presentes na natureza humana e sublimadas pela virtude sobrenatural.

Esses são os pressupostos sobre os quais se baseia a união de uma família, de uma região, de uma nação ou de qualquer sociedade humana. Torna-se assim fácil entender como a negação desses pressupostos conduz a consequências exatamente contrárias — a “desconstrução societária” ou o ânimo de desagregação, dos quais vimos tratando.

Essência e existência

A partir do fim do século XIX, primeiro na Alemanha e depois na França, desenvolveu-se uma escola filosófica segundo a qual o mais importante no ser humano não seria a sua essência — isto é, os transcendentais do ser — mas a sua existência. Por existência eles entendiam o modo pelo qual cada um entende e desenvolve a si mesmo. Como consequência dessa corrente, e de uma tendência desordenada a uma “realização individual” como fim supremo da vida, produziu-se um paulatino minguamento da importância atribuída até então às qualidades objetivas do ser, substituídas por uma crescente valorização das experiências individuais sem vínculos com a lei natural ou o bem comum.

Na França, Jean-Paul Sartre e sua “companheira” Simone de Beauvoir [foto], ambos marxistas convictos e promotores da poligamia, foram nas décadas de 1950-60 uma espécie de “profetas” do existencialismo; e, a seu modo, os “pais” daquilo que hoje em geral se vive quase inconscientemente.2 A máxima “a mulher não nasce, se faz” — atribuída a Simone de Beauvoir, e ponto de partida do feminismo atual — é uma transposição para a mulher daquilo que Sartre sustentava para todos os homens. Segundo ele, não existe uma natureza humana, nem sequer uma condição natural ou estado natural do homem. No ser humano, a existência precede e configura a essência: “Se, de outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou ordens que legitimem a nossa conduta”.3

A conclusão fatal dessas afirmações ateias, contrárias a qualquer ordem natural, é que as condições para o desenvolvimento do gosto associativo se diluem cada vez mais. Se o que vale é aquilo que sentimos, então não pode haver “valores que legitimem a nossa conduta”; e assim a moral objetiva cai por terra, pois o que é vício para alguns pode ser virtude para outros.

O existencialismo é caprichoso e egoísta, não pensa senão na sua própria realização pessoal. Poderá encontrar essa realização em uma “identidade” cambiante de sexo, ou inclusive de espécie. Poderá ser homem hoje, amanhã mulher, depois planta, e finalmente tudo ao mesmo tempo.

(continua)

LEGENDA:
- A Torre de Babel – Marten van Valckenborch (1535–1612). Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, Alemanha.



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