(continuação)

empenhava-se em corrigir os que erravam, dar bom conselho, consolar os aflitos e outras obras de misericórdia espirituais, para combater os vícios e os pecados do povo.

Desse modo, como afirma seu primeiro biógrafo, foi inimigo implacável das comédias, bailes, festins e outras diversões, muito comuns devido à decadência do espírito religioso. O carnaval da época, comparado ao de nossos dias, quase poderia ser tido como inocente. Mas ele conseguiu frustrar tantos bailes, que lhe pespegaram o apelido de Guasta balli – “estorva bailes”8. Junto com esse rigor necessário, sua delicadeza de alma o levava a ornar com flores os altares e cuidar com esmero dos paramentos sagrados.

Nos seus últimos dias, foi acometido por uma febre ardente, acompanhada de agudíssima dor de cabeça. A isto somou-se uma gangrena nas partes mais delicadas do corpo, que exigiram doloroso tratamento com pontas de fogo e cirurgia.

Finalmente faleceu no dia 4 de fevereiro de 1612. Os presentes notaram que “pelo seu rosto envelhecido perpassou uma brisa juve­nil, e uma beleza sobrenatural o envolveu. O seu corpo flexível exalava um celestial perfume. O cirurgião que o tinha operado inclinou-se, para examinar aquele cadáver que desafiava as leis inexoráveis da morte. Ao primeiro contato dele com os restos mortais, cicatrizou-se instantaneamente uma ferida que ele havia fei­to durante a operação” 9.

São José de Leonessa foi beatificado em 1626, e canonizado por Bento XIV em 1746.

Notas:

1. Frades Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina, disponível em http://capuchinhosprsc.org.br/santos-capuchinhos-2/jose-de-leonissa-04.

2. Dr. Eduardo M. Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo I, p. 371.

3. Id.ib.

4. Apud “Breathing with the both lungs”, disponível em http://breathingwithbothlungs.blogspot.com.br/2010/02/joseph-of-leonessa-companion-killer.html.

5. Dr. Eduardo M. Vilarrasa, op.cit., p. 373.

6. Id. Ib.

7. Wikipédia, Murad III.

8. Cfr. Id, p. 374.

9. Frades Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina, op.cit.

LEGENDA: - Santuário de São José de Leonessa: urna com o corpo do Santo.

VERDADES ESQUECIDAS

Ultrajes contra Jesus Cristo nos dias de Carnaval

Santo Afonso de Ligório

(Santo Afonso Maria de Ligório, Meditações para todos os dias e festas do ano. Tomo I, Herder & Cia, Friburgo, 1921, p. 279-280.)

Meditação de Santo Afonso Maria de Ligório* apropriada para os dias carnavalescos, que ele classifica como dias de extravagância diabólica, nos quais Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes

Consummabuntur omnia quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas a respeito do Filho do homem (Lc 18, 31).

Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Como nossa boa Mãe, ela deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para nos compadecermos do seu divino Esposo e o consolarmos com os nossos obséquios, ao mesmo tempo em que os pecadores, nestes dias mais do que em outros, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Acaso não temos motivos suficientes para isso?

Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão como Judas o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, mas nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur (será motejado, flagelado e coberto de escarros). Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor, quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica! Pessoas que cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o santo Nome de Deus!

Et postquam flagellaverint, occident eum (e depois de o terem açoitado, o farão morrer). Sim, pois segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus. Ah! nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.