PALAVRA DO SACERDOTE

Monsenhor José Luiz Villac

Em nossa coluna do mês anterior, abordamos a questão, hoje muito discutida, do celibato sacerdotal. Mostramos, em primeiro lugar, que não se trata de mera tradição disciplinar, mas que o celibato está intimamente vinculado a uma questão teológica, posto que o sacerdote age in persona Christi e deve identificar-se com o Sumo Sacerdote, que permaneceu virgem toda sua vida. Em seguida demonstramos que, desde os seus primórdios, a Igreja impôs a abstenção de relações conjugais aos clérigos maiores (bispos, sacerdotes e diáconos), os quais devem estar prontos para aproximar-se do altar e distribuir os sacramentos todos os dias — não apenas uma semana a cada seis meses, como acontecia com os sacerdotes da Antiga Aliança.

Resposta — Abordaremos neste artigo dois aspectos que ficaram pendentes no artigo anterior, os quais são usados como argumento para promover a abolição do celibato sacerdotal, ou pelo menos admitir exceções na Igreja latina: 1– o que levou as igrejas católicas de rito oriental a adotarem uma disciplina diferente; 2 – como resolver a atual crise de vocações sacerdotais.

Quanto ao histórico da variação da disciplina nas igrejas situadas no Oriente, citaremos novamente o douto estudo do Cardeal Alfons M. Stickler, intitulado Celibato eclesiástico: História e fundamentos teológicos.

Posição do bispo Epifânio de Salamina

A primeira coisa a destacar é que essas igrejas orientais, nas origens, seguiam a mesma disciplina da Igreja do Ocidente. Uma importante testemunha desse fato é o bispo Epifânio de Salamina, na ilha de Chipre, que viveu entre os anos 315 e 403 (portanto, no primeiro século de liberdade da Igreja), e é considerado um bom conhecedor da Tradição católica oriental, por dominar muitas línguas e ter viajado muito para o Oriente. Em sua obra principal, Pananon, ele afirma que Deus mostrou o carisma do sacerdócio novo por meio de homens que sempre viveram virginalmente, ou que antes da ordenação tinham renunciado ao uso do casamento, segundo norma estabelecida pelos Apóstolos com sabedoria e santidade.

Mais ainda, em outra obra (Expositio Fidei) Epifânio reitera que, onde se mantêm fielmente as disposições da Igreja, apenas são admitidos no ministério episcopal, sacerdotal e diaconal os que ficam viúvos ou renunciam à sua própria esposa através da continência. Deplora que, em diferentes lugares, sacerdotes, diáconos e subdiáconos continuem gerando filhos, e declara que isso é uma consequência da debilidade humana e não está em conformidade com a norma vigente.

Posição do grande São Jerônimo

A segunda testemunha é nada menos que São Jerônimo. Ordenado sacerdote na Ásia Menor por volta de 379, retornou à Palestina após viver três anos em Roma, e ali permaneceu até sua morte, ocorrida em torno de 420. Graças ao seu vasto conhecimento de várias línguas, que lhe facilitou traduzir fielmente a Bíblia hebraica e grega para o latim — a Vulgata, declarada pelo Concílio de Trento a versão única, autêntica e oficial do texto sagrado para a Igreja latina —, manteve contato estreito e ativo com eclesiásticos e comunidades monásticas do Oriente.

Na sua refutação do ano 393 a Joviniano, ele afirma que o Apóstolo Paulo ensinou, em sua carta a Tito, que um candidato à ordem sagrada que fosse casado anteriormente devia educar bem os filhos, mas não podia procriar outros. Em sua dissertação Adversus Vigilantium, do ano 406, São Jerônimo reiterava o dever dos ministros do altar de serem sempre continentes, e afirmava explicitamente que tal era a prática não somente de Roma, mas também das igrejas do Oriente e do Egito.

Uma testemunha inválida

Os partidários do sacerdócio de casados e não continentes invocam o Concílio de Niceia [ilustração ao lado], celebrado em 325, durante o qual um eremita e bispo do deserto do Egito, chamado Pafnúcio, teria elevado sua voz para dissuadir os Padres de sancionar uma obrigação geral de continência, devendo isso ser deixado à decisão das igrejas particulares. Porém, Eusébio de Cesareia — considerado o homem mais instruído da época, autor da primeira história da Igreja, e que, além do mais, participou desse concílio — não se refere em absoluto a esse suposto episódio. A primeira referência conhecida sobre ele é um bizantino de nome Sócrates, que viveu 100 anos mais tarde, e que teria ouvido relatos de um homem muito velho sobre o que sucedeu na assembleia. Acontece que, pelo jogo de datas, o suposto espectador deveria ser ainda criança na ocasião, não podendo assim ser considerado uma testemunha válida. Tampouco aparece, nas atas do Concílio de Niceia, nenhum signatário de nome Pafnúcio, pelo que se pode duvidar seriamente da autenticidade do que relatou esse Sócrates.

Obrigação da continência completa

Como se introduziu então no Oriente uma disciplina divergente? Simplesmente porque a organização patriarcal da Igreja Oriental e a autonomia das Sés de Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém dificultaram chegarem a uma posição comum em matérias disciplinares, como na Igreja latina. Isso se deu especialmente na matéria do celibato dos ministros sagrados, a qual requeria uma vigilância constante dos pastores, uma vez que nem sempre o comportamento dos clérigos respeitava o preceito da continência, em particular nas regiões mais remotas do Ocidente e do Oriente. A essa falta de coordenação somou-se a posição de influência dos imperadores de Bizâncio, cujas leis em matéria eclesiástica eram observadas

(continua)

Legenda: Abertura do I Concílio de Niceia pelo Imperador Constantino I, o Grande – Cesare Nebbia (1536–1614).