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(continuação)

que vivem more uxório. Com isso em vista, pode-se agora extrair as consequências morais da frequência regular a uma paróquia onde isso é feito de maneira tão notória que um fiel comum percebe.

O primeiro aspecto a considerar é o impacto negativo sobre a fé.

"O primeiro mandamento ordena-nos que alimentemos e guardemos com prudência e vigilância a nossa fé, rejeitando tudo quanto a ela se opõe" (Catecismo da Igreja Católica, n° 2088). Ora, como vimos acima, se os fiéis não manifestam continuamente e de modo público seu desacordo com essa prática, esta se aclimatará e conduzirá à percepção da suposta "normalidade do adultério público", da "ineficácia da obra redentora de Nosso Salvador", da "impotência do Espírito Santo" e da "não santidade da Igreja". Logo, a prudência e a vigilância exigem de nós uma manifestação de desacordo, para guardar e alimentar a nossa fé nas verdades que estão sendo implicitamente negadas pelo acesso à comunhão de divorciados civilmente recasados.

Por um lado, não parece viável fazer um protesto externo em cada missa da qual se participe; nem parece suficiente para o comum das pessoas, de outro lado, limitarem-se a fazer um protesto puramente interior, com o objetivo de salvaguardar a própria fé. Logo, é preferível — salvo situações extraordinárias — deixar de frequentar as igrejas onde a Eucaristia é distribuída a pessoas que vivem publicamente em adultério. E isso especialmente no caso das famílias com filhos em idade de compreenderem o que está acontecendo, levando-os assim a serem gravemente deformados na sua fé e na sua consciência moral.

Obrigação de evitar a cooperação material com o escândalo

Isso é também altamente aconselhável do segundo ponto de vista: evitar a cooperação material com o escândalo que resulta da "aclimatação" dessa prática. Note-se que não estamos falando da cooperação com os eventuais sacrilégios, porque conceder a Eucaristia a pecadores públicos não é responsabilidade dos fiéis, mas apenas do sacerdote que dá a comunhão, do confessor ou dos agentes pastorais que "acompanharam" os casais e os autorizaram a comungar e dos membros da Hierarquia que, na respectiva jurisdição, promoveram, autorizaram ou toleraram essa prática. Foi para evitar tal cooperação direta com o pecado que o corajoso sacerdote Alfredo Morselli [foto acima], vigário de uma paróquia em Bolonha, Itália, publicou um ato de fé para significar sua recusa em obedecer às normas permissivas de aplicação da Amoris lætitia fixadas pelo seu arcebispo e pelos bispos da região.

No caso dos fiéis que assistem à missa e nela comungam, sua cooperação — que, aliás, é involuntária, mediata e remota — consiste no fato de contribuir para a "aclimatação" do escândalo, na medida em que os demais participantes da missa são naturalmente levados a interpretar sua recepção da Sagrada Comunhão junto com adúlteros como uma aprovação indireta da referida prática. E nessa medida, estariam contribuindo para a sua "normalização".

A cooperação material com o mal praticado por outrem, ou seja, aquela que se proporciona estando em desacordo com dito mal (por exemplo, vender a contragosto álcool a uma pessoa que tem o vício da embriaguez), é lícita se a ação mediante a qual se pratica a cooperação é em si mesmo boa ou indiferente (o ato de vender), se a cooperação é remota e se existe um motivo proporcionalmente grave para fazer tal ação.

No caso em questão, a cooperação com o mal da "normalização" do adultério na Igreja é um efeito secundário indesejado de uma ação não apenas boa, mas santa (a recepção da Sagrada Comunhão durante a missa), pelo que, em princípio e salvo casos excepcionais, é lícito, sob esse ponto de vista, assistir e comungar nas missas em que divorciados recasados recebem a comunhão. Mas deve-se tentar evitá-lo, na medida do possível.

A opção da comunhão espiritual

Pode acontecer que alguns fieis cheguem à conclusão de que, nas suas circunstâncias concretas, seria gravemente prejudicial assistir e comungar na sua paróquia, pelo extremo perigo para a sua fé ou de seus filhos, assim como de escândalo para os fiéis. Pode ainda acontecer — quod Deus avertat! — que não exista na sua cidade ou região nenhuma igreja onde não seja permitido o acesso à comunhão aos casais irregulares. Nesse extremo, parece-nos preferível que eles se privem da comunhão sacramental e se limitem a fazer uma comunhão espiritual em casa, ou até mesmo numa igreja, mas num horário em que não haja missa.

Para compreender melhor essa opção, vale a pena recordar que, no dizer do Concílio de Trento, a comunhão espiritual consiste num ardente desejo de nutrir-se do Pão celeste, com uma fé viva que age pela caridade, o qual nos torna partícipes dos frutos e das graças do Sacramento (Seção XIII, cap. 8). De fato, segundo Santo Tomás de Aquino, pela comunhão espiritual "nos unimos espiritualmente com Cristo pela fé e pela caridade", de maneira que "o efeito do sacramento pode ser gozado por quem deseja receber o sacramento, embora realmente não o receba" (Summa III, q. 80, art. 1). Por esse meio obtém-se notadamente o aumento da graça santificante, a intensificação da caridade e o fortalecimento do laço que nos une ao Corpo Místico de Cristo.

Um caso extraordinário de consciência perplexa

No caso excepcional de que a situação acima descrita inclua as missas dominicais, acreditamos tratar-se de um caso de consciência perplexa, ou seja, a situação de uma pessoa que fica colocada entre duas obrigações opostas: de um lado ela tem a impressão de faltar com o seu dever, desrespeitando o preceito dominical; e do outro desrespeitaria o preceito de proteger sua fé e de não colaborar com o escândalo. Nesse caso, como ensinam os tratados de moral, deve-se fazer aquilo que parece o mal menor. E se ambos os males parecerem iguais, a pessoa pode decidir livremente. A razão é que ela fica num caso de impossibilidade moral, pelo conflito entre dois deveres iniludíveis e opostos.

Cumpre lembrar, para efeito de avaliação, que a obrigação moral de proteger a própria fé e a de não ser motivo de escândalo para o próximo decorrem do Primeiro e do Quinto Mandamentos da Lei de Deus; enquanto que a obrigação de assistir à missa todos os domingos e dias santos é um Mandamento da Igreja.

Legenda:
- Segundo Santo Tomás de Aquino, pela comunhão espiritual "nos unimos espiritualmente com Cristo pela fé e pela caridade".
Ilustração: Triunfo de S. Tomás de Aquino sobre Averroes – Benozzo Gozzoli, séc. XV. Museu do Louvre, Paris.



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