Catolicismo - Acervo
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(continuação)

"sem-cerimônias", por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e elevado.

Catolicismo — Quais suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela?

Dr. Adolpho — Eu quase não comento sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade, causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo, muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude. Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as dificuldades da vida.

Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo, como o livro dos Três Mosqueteiros. E aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.

Catolicismo — Da. Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários?

Dr. Adolpho — No período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim, apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada. Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro. Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc.

Por isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman, fato que deixou papai muito satisfeito... Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da língua alemã, mas também do francês e do inglês.

Em 1912, num período em que Da. Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão, o amor à ordem, à disciplina, etc.

Tia Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas. Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser categórico, e pareciam pensar: "Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É realmente inconcebível".

Catolicismo — Como explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena?

Dr. Adolpho — O que levou Plinio a tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa.

Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus. Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral.

Catolicismo — Portanto, ela não foi uma mulher considerada "moderna".

Dr. Adolpho — Tia Lucilia, com seu temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX, mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em "atmosfera luciliana", usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas e agitadas à sua casa, mas ela as "serenava" com sua calma e carinho, e aos poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era excelente consoladora das pessoas: "Quando dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava ouvi-la dizer 'meu filho, o que é?', e metade do problema já se desfazia". Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam contentes.

Catolicismo — O que o senhor diria sobre as devoções de Da. Lucilia?

Dr. Adolpho - Muitíssimo devota do Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá assistia às missas

(continua)

Legendas:
- Em 1912, Da. Lucilia em Paris
- Imagem do Sagrado Coração de Jesus, do pequeno oratório do quarto de Da. Lucilia.



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