Revista Catolicismo
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(continuação)

campo: não trabalham nem fiam. Entretanto eu vos digo que o próprio Salomão, no auge de sua glória, não se vestiu como um deles” (Mat 6, 26-30).

Jesus ensina também que há uma providência especial para os homens: “Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso” (Mat 6, 30-32). “Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós” (Mat 10, 30-31).

Se Deus quiser

São Tomás de Aquino ensina: “Quanto aos homens justos, Deus exerce sobre eles a sua providência de modo mais excelente que em relação aos ímpios, no sentido de não permitir que aconteça algo contra eles que comprometa finalmente sua salvação; porque ‘todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos’, diz o Apóstolo (Rom 8, 28)” (Summa I, q. 22, a. 2 ad 4).

Por isso São Tiago recomenda-nos em sua epístola dizer sempre aquilo que entrou nos costumes cristãos: “Se Deus quiser” (Ti 4, 15). E São Pedro acrescenta: “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós” (1 Ped 5, 7). Nosso Senhor vai mais longe, e nos incita até a importunar o Pai celeste nas nossas necessidades; como o amigo da parábola cujo vizinho, “certamente por causa da sua importunação, levantar-se-á e lhe dará quantos pães necessitar. E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Luc 11, 5-9).

Na realidade, as nossas orações não alteram o plano divino, pois Deus conhece desde toda a eternidade esse pedido, e pode tomá-lo em conta ao estabelecer o seu plano providencial. Mas também pode não atendê-lo. Um bom exemplo disso é o que fez com o próprio Jesus, a quem não poupou as imensas dores da Paixão, apesar de seu lancinante gemido: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!”. E para agirmos de acordo com o exemplo de nosso Mestre, devemos acrescentar sempre aos nossos pedidos: “Não se faça a minha vontade, mas sim a vossa” (Luc 22, 42).

O mal é a subversão da ordem

Como, então, explicar os males que afligem não somente os ímpios, mas também os que têm fé? São os males obra do demônio?

Essa era a tese errada sustentada pelos promotores de uma das primeiras heresias que afligiu a Igreja no início do cristianismo: o maniqueísmo, herdeiro do dualismo corrente na maioria dos povos da Antiguidade. Ensinavam que o mundo é governado por dois princípios contrários, duas potências rivais: deuses bons e deuses maus (no Panteão grego, por exemplo), de onde resultaria a mistura de bem e mal no mundo físico e na vida humana. Para os maniqueus, só o espírito é bom, e a matéria é ruim. Deus não poderia ser o Autor da matéria, e sim Satanás, rei das trevas em eterno conflito com Deus, soberano do reino da luz.

Contra esses erros se levantaram os Padres da Igreja, sobretudo Santo Agostinho, que na sua juventude havia sido discípulo dos maniqueus. Esses grandes santos explicaram que o mal não existe por si mesmo, é apenas a privação de um bem próprio à natureza de um ser. Por exemplo, um cego está privado da vista, que é um bem próprio da natureza humana; e os doentes estão privados da saúde, um bem normal no ser humano.

No plano moral, o mal é a subversão da ordem pela preferência de um bem inferior em prejuízo de um bem superior, sobretudo de Deus, que é o Bem infinito. Santo Agostinho explica: “Quando a vontade desce de um objeto superior para um objeto inferior, ela se torna má. Não que o objeto para o qual ela se desvia seja mau em si, mas o mal é o próprio desvio. Não é o objeto inferior que tornou a vontade má, mas a própria vontade se corrompeu pela procura desregrada e culposa de um objeto inferior” (A Cidade de Deus, cap. VI).

Resignação e recompensa eterna

Devemos afirmar que Deus jamais é o autor do mal moral, ou seja, do pecado. Mas Deus permite as consequências do mal moral, assim como permite o mal físico nas criaturas e o sofrimento nos seres racionais. Portanto o mal espiritual pode gerar a privação de um bem corporal, como é o caso da doença ou perda da integridade física.

É certo que Deus poderia ter afastado essas privações da Criação, sejam as que resultam de causas segundas, como os estragos de um temporal, sejam as causadas por defeitos inerentes à matéria, como as doenças congênitas ou adquiridas. De fato Ele as afastou do Paraíso onde colocou Adão e Eva, mas não quis afastá-las deste “vale de lágrimas”, por isso devemos aceitá-las com resignação. Além disso, devemos oferecê-las em expiação pelos nossos pecados ou pelos pecados dos outros, cientes de que o sofrimento bem aceito tem a promessa de uma recompensa eterna.

De uma coisa podemos estar certos: Deus jamais nos enviará uma tribulação que não possamos suportar. Se ela estiver acima das nossas forças atuais, Ele nos dará as graças necessárias para carregá-la: “Deus é fiel. Não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (1 Cor 10, 13).

Portanto o cristão atribulado por alguma desgraça deve abandonar-se à vontade de Deus, carregando com paz e espírito sobrenatural a sua cruz. Foi o exemplo que nos deu nosso Divino Salvador no Horto das Oliveiras, aceitando os sofrimentos da crucifixão. Não esqueçamos também que foi anunciado a Nossa Senhora, pouco depois das alegrias da Natividade, que “uma espada transpassará tua alma” (Luc 2, 35). Ela sempre esteve ao lado de seu Filho, particularmente aos pés da Cruz.

Legendas:
- São Tiago recomenda-nos em sua epístola dizer sempre aquilo que entrou nos costumes cristãos: “Se Deus quiser”
- Deus jamais nos enviará uma tribulação que não possamos suportar. Se ela estiver acima das nossas forças atuais, Ele nos dará as graças necessárias para carregá-la.



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