Catolicismo n° 811, julho de 2018
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Um dos episódios mais cruéis da Revolução Francesa foi o sequestro e a degradação do pequeno delfim, herdeiro do trono francês, que o ocuparia como Luís XVII.

(continuação)

Cada pessoa tem o dever de manter a própria vida, usando para isso os recursos disponíveis e sem recorrer também ao suicídio; e da mesma forma, ao pátrio poder compete fazer o possível para manter a vida dos filhos. Mas a impressão que nos fica, em todo esse caso, é que o destino de Alfie já estava selado desde a primeira decisão judicial. Negada a manutenção do tratamento nessa instância, todas as outras decisões seguiriam o mesmo entendimento. Nada adiantavam os inúmeros e insistentes apelos dos pais ao poder judiciário, representante do Estado inglês. Pode-se perguntar: Terá algum valor o pátrio poder para esses tribunais? E os direitos de Deus, onde ficam?

Quem acompanha o noticiário, procurando observar onde estão sendo violados os direitos de Deus, poderia considerar pequena a violação no caso desse menino inglês. Pelo contrário, ela já é de si enorme, e além disso se inclui na obsessão midiática e legislativa de âmbito mundial pela aprovação do aborto, controle da natalidade pelo poder estatal, "suicídio assistido", "morte consentida", e tantos outros eufemismos para eutanásia, assassinato, violações criminosas do pátrio poder. É próprio às tiranias violar esses direitos, que em última análise são também direitos de Deus.

Nada melhor do que o recuo histórico, para se entender a importância do assunto. Passemos a alguns exemplos.

Um dos episódios mais cruéis da Revolução Francesa foi o sequestro e a degradação do pequeno delfim, herdeiro do trono francês, que o ocuparia como Luís XVII.2 Em janeiro de 1793, a Convenção Nacional — autointitulada neste período representante do povo3 — havia mandado executar seu pai, o rei Luís XVI, num pérfido processo judicial. A rainha Maria Antonieta permanecia prisioneira com seus dois filhos, Maria Teresa e Luís, este com apenas oito anos.

Maria Antonieta e Mme. Elizabeth sofreriam em outubro de 1793 o mes-mo destino de Luís XVI. Mas antes disso, em julho, os deputados convencionais decidiram arrancar o delfim dos cuidados da mãe — para ela um golpe pior do que a própria morte — e entregá-lo às garras de um brutal carcereiro chamado Simon.

Esse jacobino encarniçado recebera ordens de "reeducar" o menino nos moldes da mentalidade revolucionária. Caso ele não abandonasse seus costumes requintados e polidos para se tornar um "republicano" sanguinário e mal-educado, Simon deveria, segundo instruções de Marat, "não o matar, não o envenenar, mas desvencilhar-se dele". Em outros termos, o filho do rei deveria se transformar num bruto como todos os revolucionários, ou então ser-lhe aplicada a morte.

Essa atitude dos revolucionários franceses havia se tornado inevitável, pois além de o menino de oito anos ser inocente, ele representava uma ameaça para todo o desenvolvimento da Revolução, podendo galvanizar a reação de incontáveis franceses desejosos da antiga legitimidade real. Tendo falhado na "reeducação" do menino-rei, os revolucionários o atiraram num calabouço imundo, e aí o mantiveram por meses. Aos dez anos de idade, faleceu de infecções e desnutrição. Pode-se afirmar, no entanto, que a história da França seria muito diferente com o delfim ocupando o trono francês. E os tiranos não queriam isso.

O fato histórico por excelência, de decisão tirânica contra um inocente, foi o do Menino Jesus, que despertou a ira de Herodes, o tirano usurpador do trono de Judá. Herodes temia ser deposto pelo Rei dos Judeus, por isso ordenou o assassinato dos santos inocentes, entre os quais se incluiria o Menino Jesus.

Qual teria sido o futuro da França, na hipótese de que o delfim sobrevivesse e fosse educado convenientemente para reinar como Luís XVII, após os desatinos da Revolução Francesa? E o leitor já pensou sobre o destino da humanidade inteira, se a ordem de Herodes tivesse sido cumprida? Qual teria sido o tamanho do crime de São José, na hipótese de uma negligência deixando de cumprir a ordem de fugir para o Egito? São hipóteses que merecem ser levantadas. Só hipóteses?!

O mínimo que se pode dizer de tais hipóteses é de que não estão fora de qualquer cogitação nem podem ser liminarmente descartadas. Um exemplo concreto é o de outro inglês, o cientista Stephen Hawking, acometido de esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos, e que faleceu enquanto a situação de Alfie era discutida. Quase todos os portadores dessa doença degenerativa sobrevivem no máximo quatro anos, com grandes sofrimentos para si mesmos e para os pais. Os tribunais ingleses, se os juízes fossem os atuais, poderiam ter forçado os pais e os médicos de Hawking a "desligar os aparelhos", pois os "melhores interesses" dele seriam deixá-lo morrer. Mas Hawking viveu ainda 55 anos, falecendo aos 76, após ter dado suas contribuições no campo da astrofísica contemporânea. Os juízes que julgassem o seu caso como o fizeram os de hoje, provavelmente teriam cometido o assassinato de um cientista e feito tabula rasa dos seus "melhores interesses".

Também no caso de Alfie, alguém poderia objetar que se tratava apenas da vida de um recém-nascido condenado a sofrer durante a vida inteira, além de trazer inúmeros trabalhos e sofrimentos para os pais. Mas quem pode garantir que, nos planos de Deus, essa criança não estaria destinada a grandes coisas, trazendo benefícios inimagináveis para a humanidade?

Alfie, o menino inglês, representava também uma ameaça à tirania de dirigentes supremos na Inglaterra e na União Europeia. Não sob a forma do terror revolucionário, mas escamoteada sob o manto de juízes agindo em nome dos "melhores interesses" dele e violando os direitos dos pais.

Notas:

1. Dados extraídos do artigo: http://www.bbc.com/news/uk-england-merseyside-43754949
2. Cfr. Renaud Escande, O.P. (direção), O Livro Negro da Revolução Francesa, Aletheia Editores, Liboa, 2010.
3. Segundo o historiador Pierre Gaxotte, a Convenção foi eleita com os votos de apenas 10% dos eleitores franceses. Cfr. Gaxotte, Pierre; A Revolução Francesa, ed. Tavares Martins, Porto, 1962, p. 203.

LEGENDAS:
- Luís XVII, delfim de França – Alexander Kucharsky, 1792. Palácio de Versalhes, Paris.
- Fuga para o Egito – Bartolomé Esteban Murillo, 1647-50. Detroit Institute of Arts.



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