Catolicismo n° 811, julho de 2018
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"O Papa Bento XVI insistiu muito em não se transigir em relação aos valores inegociáveis. Infelizmente, a defesa desses valores foi explicitamente abandonada pelo Papa Francisco"

(continuação)

na continuidade com os ensinamentos dos Papas anteriores". Se não fosse assim, a autoridade do Papa e do Magistério da Igreja perderiam toda credibilidade. Como garantir que uma mudança de paradigma operada hoje não será amanhã considerada superada e não mais válida? Ele é categórico: "Quem fala de uma virada copernicana na Teologia moral, que transforme uma violação direta dos Mandamentos de Deus numa louvável decisão de consciência, exprime-se evidentemente contra a fé católica". Se nisso consiste a mudança de paradigma, "opor-se é um dever de consciência" para os fiéis, em conformidade com o ensinamento de São Paulo e com o comentário que fizeram dessa passagem Padres e Doutores da Igreja, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

Catolicismo — Certas dioceses vêm admitindo o acesso de divorciados recasados à comunhão, com base na Amoris lætitia. Seria tal admissão uma "mudança de paradigma" condenável?

J. A. Ureta — A exortação apostólica Amoris lætitia é o documento-símbolo da mudança de paradigma e da "revolução cultural" em curso. Ela prevê, "caso por caso", a possibilidade do acesso à comunhão para os divorciados civilmente recasados. Grandes teólogos e pensadores católicos consideram Amoris lætitia a ruptura do dique de toda a teologia moral. A sua aplicação equivaleria à aceitação do relativismo moral, conduzindo à prática de verdadeiros sacrilégios no campo da indissolubilidade do casamento e da aceitação prática de uniões adúlteras, em nome de uma pastoral "encarnada" na vida concreta das pessoas.

Quatro cardeais levantaram oficialmente diante de Francisco I, respeitosamente, dubia (pontos questionáveis) sobre este tema, mas o Papa jamais respondeu. Dezenas e dezenas de bispos, sacerdotes, religiosos, teólogos e leigos têm tomado posição pública em defesa da doutrina católica tradicional, numa frente de resistência jamais vista nos últimos séculos da história da Igreja.

Catolicismo — O Magistério tradicional da Igreja define que não se pode mudar o que sempre foi ensinado em matéria moral: aborto, eutanásia e homossexualismo, por exemplo. Quais mudanças vêm sendo propostas para a instituição familiar?

J. A. Ureta — São notórios em nossos dias o silêncio, a frieza e, por vezes, até mesmo a hostilidade pouco velada em relação à posição que a Igreja sempre adotou sobre esses pontos. No entanto, para todos os católicos não é negociável a defesa da vida humana inocente desde a concepção até a morte natural, como também a oposição às uniões civis homossexuais. Dói dizê-lo, mas muitas vezes o espaço de oposição a essas propostas, que pertence por direito aos filhos da Igreja, é ocupado por não católicos, e até mesmo por pessoas hostis aos seus ensinamentos morais.

Esse processo de mudança de paradigma, puramente teórico na aparência, repercute na vida concreta das paróquias, não apenas entre os militantes pró-vida ou pró-família. Os fiéis comuns da missa de domingo, por exemplo, se sentem como nunca desorientados e tendentes a exprimir o seu crescente desinteresse, até o seu mal-estar, diante de certas situações que até pouco tempo atrás eram impensáveis, mas hoje são correntes na Igreja. Daí resulta a seguinte transformação paradoxal: no passado, apesar da hostilidade dos ateus e mundanos, os templos católicos estavam cheios; hoje, essas mesmas correntes hostis aplaudem as inovações introduzidas pelo Papa Francisco, mas as igrejas se esvaziam.

Dessa maneira, a "revolução pastoral" iniciada no atual pontificado é impugnável não apenas no plano teórico, mas vem se mostrando ruinosa na prática. O misterioso processo de "autodemolição" da Igreja foi apontado há meio século por Paulo VI, e tudo indica que ele está no seu auge (Cf. Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, em 7/12/1968).

Catolicismo — Em pontificados anteriores ao do Papa Francisco, muito se insistiu para que os católicos defendessem os "valores não negociáveis". Como está essa defesa no atual pontificado?

J. A. Ureta — O Papa Bento XVI insistiu muito em não se transigir em relação aos valores inegociáveis. Por exemplo: "No que se refere à Igreja Católica, o interesse principal das suas intervenções no campo público é a tutela e a promoção da dignidade da pessoa e, por conseguinte, ela chama conscientemente a uma particular atenção aos princípios que não são negociáveis. Entre eles, hoje emergem os seguintes: tutela da vida em todas as suas fases [...]; reconhecimento e promoção da estrutura natural da família, como união entre um homem e uma mulher baseada no matrimônio [...]; tutela do direito de os pais educarem os próprios filhos".

Infelizmente, a defesa dos "valores não negociáveis" foi explicitamente abandonada pelo Papa Francisco. Numa espécie de manifesto programático de seu pontificado, que foi a entrevista ao Pe. Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica (reproduzida depois por todas as revistas jesuítas do mundo, nos respectivos idiomas), ele declarou o seguinte: "Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas, e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. [...] Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. [...] Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio".

Ele reafirmou essa tese no primeiro aniversário de sua ascensão ao trono pontifício, em entrevista ao diretor do "Corriere della Sera": "Nunca entendi a expressão 'valores não negociáveis'". Ao longo de seu pontificado ele tem feito pronunciamentos ocasionais em defesa do direito à vida, do casamento como união de um homem e uma mulher e dos direitos dos pais; mas tais pronunciamentos são destilados espaçadamente e em pequena dimensão, à maneira de conta-gotas, e além disso são contrariados por iniciativas práticas, que lhes retiram grande parte da sua eficácia pastoral. Para não nos alongarmos muito, cito apenas um exemplo: inúmeras têm sido as demonstrações de vizinhança e simpatia humana, e até de elogios, do Papa Francisco em relação a Marco Pannella e Emma Bonino. Quem são esses? Líderes do Partido Radical e principais promotores da aprovação legal, na Itália, do divórcio, da contracepção e da fertilização in vitro; do aborto, da eutanásia e das uniões civis homossexuais. No trabalho que publiquei, enumero muitos outros exemplos.

(continua)

LEGENDA:
Raul Castro declarou: "Leio todos os discursos do Papa. Se continuar assim, eu voltarei para a Igreja Católica, mesmo sendo membro do Partido Comunista".



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