CARTA DO DIRETOR

Caro leitor,

Cem anos se passaram desde o brutal extermínio da família imperial russa. Uma barbárie que muitos procuram encobrir, mas cuja lembrança devemos ter bem presente, para não alimentarmos ilusões sobre tirânicos ditadores, como os que a planejaram e executaram.

O comunismo igualitário não podia suportar a existência de uma família nobre, que governara a imensa Rússia por diversas gerações. Alguns meses após a tomada do poder, Lenin ordenou esse massacre, um dos mais vergonhosos da longa lista de crimes contra a humanidade perpetrados pelo comunismo.

Para manter aceso o ódio de seus sequazes, os chefes bolcheviques de 1918 precisavam praticar atos radicalmente sanguinários, como a execução do Tzar Nicolau II e de sua família. Registrando tal necessidade revolucionária, Leon Trotsky escreveu em suas memórias: "A severidade da punição [a chacina da família imperial] mostrou a todos que continuaríamos a lutar sem piedade, sem nos determos diante de nada. Não se tratava apenas de amedrontar, aterrorizar e infundir o senso de desesperança no inimigo, mas também de sacudir nossas fileiras, demonstrando que não havia outra saída: vitória total ou ruína definitiva".

Este foi o início de uma história escrita com sangue, a qual prosseguiu do mesmo modo, acrescentando muitos outros instrumentos, como prisões, torturas, fome e guerras fratricidas. Não só na Rússia, mas também nos diversos países que tiveram suas populações subjugadas pela tirania comunista. E o sangue continua a ser derramado ainda hoje, onde quer que se insista em implantar ditaduras semelhantes à soviética.

Em memória deste centenário, cerca de cem mil russos fizeram em 17 de julho último uma peregrinação na cidade de Yekaterinburg. Eles passaram pela casa-presídio onde a família Romanov e alguns de seus servidores foram chacinados, e percorreram 21 quilômetros até o local onde, em 1918, os comunistas dissolveram os cadáveres em ácido e os incineraram, antes de enterrarem os restos mortais.

Tais fatos não podem cair no esquecimento, sob pena de nos deixarmos surpreender futuramente pela multiplicação de perversidades semelhantes. Catolicismo, na sua missão de relembrar verdades esquecidas, narrar grandes fatos silenciados, publicar crimes que seus autores pretendem ocultar, não poderia deixar passar o centenário do massacre da família Romanov sem recordar as atrocidades então praticadas. Com esse objetivo, nosso colaborador Renato Murta de Vasconcelos elaborou a matéria de capa desta edição.

Movimentos que se apresentam como "sociais", agindo em nome dos "direitos humanos", das "minorias" ou dos "marginalizados", com muita frequência partem para a criminalidade. Eles não têm a menor clemência em relação aos sofrimentos humanos, praticam qualquer tipo de violência para alcançar seus objetivos. "Bons sentimentos" nunca se coadunaram com a "ditadura do proletariado", que sempre foi o objetivo comunista. Deus não tem permitido que o solo brasileiro seja atingido por essas desgraças, mas não faltam agitadores organizados com o objetivo político de tomar o poder e nele se perpetuar. Deus continuará a nos proteger contra esses sanguinários, desde que façamos por merecê-lo.

Desejo a todos uma boa leitura.

Em Jesus e Maria,

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor

PALAVRA DO SACERDOTE

Pergunta — Ouvi muitos padres pregarem sobre a pobreza, dizendo que é o centro do Evangelho. Por exemplo, ao comentarem a passagem "Ai de vós, ricos"; que Jesus nasceu pobre; e outras coisas desse gênero. Isso é verdade, mas noto neles uma antipatia contra a riqueza, mesmo quando empregada para o culto divino, pois normalmente preferem celebrar missas em igrejas que mais parecem galpões de fábricas. Sei que esse tipo de pregação é errado, mas não tenho argumentos para explicar aos meus próximos, por isso rogo a sua ajuda.

RespostaCorruptio optimi péssima (a corrupção do ótimo é péssima). De modo um pouco diferente, os antigos diziam: quando o bom se perverte, torna-se péssimo. Nada mais nobre e elevado do que o ideal da pobreza evangélica, mas nada mais execrável do que a sua deturpação. São Francisco de Assis exaltava a Dama Pobreza, mas já nos primórdios da Ordem franciscana houve uma deformação do ideal seráfico em relação à pobreza evangélica, criando divisões e levando alguns de seus membros à heresia. Fazendo uma interpretação literal da Regra Franciscana, e deformando-a, os denominados espirituais, e mais tarde os fratricelli, passaram a considerar a pobreza não mais como um meio de perfeição, mas como um fim em si mesmo, colocando-a acima da caridade. Contrariavam assim o ensinamento de São Paulo: "Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria" (1 Cor. 13, 3).

O raciocínio errado em que se baseavam esses hereges era que Jesus Cristo e os Apóstolos procuravam a perfeição, portanto não possuíam bens privados nem em comum. O Papa João XXII respondeu com a bula Ad conditorem, ensinando que a perfeição evangélica consiste essencialmente na caridade (amor de Deus), e de nada serve renunciar aos bens materiais se a pessoa continua a se preocupar com eles. De fato, a rejeição da propriedade e da riqueza em si mesmas, defendida pelas heresias pauperistas medievais, destoa frontalmente dos ensinamentos bíblicos.

A riqueza enquanto dom de Deus

No Antigo Testamento considerava-se a riqueza como um dom de Deus, a ponto de os textos sagrados elogiarem sem nenhuma hesitação a riqueza dos personagens piedosos da história de Israel: Abraão era muito rico em rebanhos, prata e ouro (Gn 13,2); Isaac obteve o cêntuplo numa colheita e "tornou-se extremamente rico" (Gn 26, 12-13); Jacó "tornou-se extremamente rico, e teve muitos rebanhos" (Gn 30, 43); Deus promete ao povo eleito que o conduzirá a uma terra "excelente, cheia de torrentes", "de trigo e de cevada, de vinhas", "onde não será racionado o pão que comeres e onde nada faltará", pelo que poderão "comer à saciedade" e bendizer o Senhor "pela boa terra" que lhe deu (Dt 8, 7-10). Quando a realeza for instaurada em Israel, a riqueza dos reis será considerada um sinal da proteção divina, com a condição de que sejam fiéis a Yahvé. Mais ainda, Deus enriquece

(continua)

LEGENDA:
- São Francisco de Assis, séc. XIII, autor desconhecido.