(continuação)

o que constitui objeto da ação espiritual própria da Igreja, o que se denomina comumente a civilização cristã. Nunca é demais insistir que, não sendo uma civilização católica, não é autenticamente cristã.

Compreende-se que assim tenha sido. A lei moral, ensinada por Cristo para reforma da humanidade e sua salvação, implica numa série de instituições e de costumes que deveriam forçosamente fazer surgir uma nova civilização, constituindo desta a base ou o fundamento. Assim, por exemplo, a família monogâmica assente no casamento indissolúvel, elevado à categoria de sacramento; o respeito às autoridades civis; a educação religiosa de todos os cidadãos pela Igreja; e de modo mais amplo, todos os problemas que implicam relações entre os poderes espiritual e temporal, etc.

Até mesmo se considerássemos apenas a reforma dos costumes privados, a Igreja deveria exercer essa influência sobre toda a civitas, isto é, a sociedade organizada num Estado. Tomemos dois exemplos. A caridade, fazendo ver em cada homem um irmão remido pelo sangue de Cristo, não podia deixar de pôr um termo à escravidão, tal como era entendida pelos antigos pagãos. A proibição da usura, em doutrina firmada pelos teólogos com fundamento no que ensinara Cristo, não podia deixar de impedir a agiotagem e o excesso de especulações que só mais tarde, quando os homens começaram a abandonar os princípios católicos, vieram infeccionar essa civilização surgida à sombra da Igreja.

Tudo isto mostra como, preparando os homens para a vida eterna, a Igreja permitiu, e mais do que isso, contribuiu positivamente para a organização da vida temporal da sociedade. Foi a Igreja que elevou a civilização ocidental a uma altura que, por certo, não teria sido atingida sem a sua ação. Confirmou-se assim a palavra evangélica: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado de acréscimo”.

Os princípios católicos, conquanto encerrem toda a verdade, não seriam suficientes por si mesmos para explicar o admirável surto da civilização que a Igreja consegue em todas as regiões onde se estende o seu apostolado. Se a pregação desses princípios não fosse seguida da distribuição dos sacramentos, que dotam a inteligência e a vontade humana com os recursos necessários para compreendê-los plenamente e lhes obedecer sem restrições, seria impossível a edificação de uma civilização católica.

Se imaginássemos à testa de um país os estadistas mais profundamente conhecedores da doutrina católica, mais desejosos de aplicá-los, e dotados do maior poder para levar a efeito este projeto, poderíamos estar certos de que tais estadistas pouco ou nada conseguiriam se não existisse no seu país a Igreja devidamente organizada. Talvez conseguissem edificar fugazmente uma civilização de aparência católica. Mas, comparada com a civilização autenticamente católica, ela seria como um manequim, que se parece com um homem vivo tendo da vida apenas a aparência.

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“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”

Pode-se, porém, falar em ideal católico de Estado? Há uma política que se possa dizer católica? Tem a Igreja uma doutrina política? Não poderão essas expressões levar à teocracia e a uma confusão entre os poderes espiritual e temporal, contrariando o ensinamento divino dado por Jesus Cristo ao lhe perguntarem os judeus se deviam pagar tributo a César?

Responder a tais questões não significa apenas assoalhar lugares comuns ou repisar conceitos já explicados mais do que suficientemente. É tal a ignorância religiosa dos próprios católicos hoje em dia, que bem poucos são capazes de tirar todas as consequências de certos princípios, que conhecem superficialmente, sem ir longe demais ou ficar na metade do caminho. Tratemos, pois, de esclarecer o quanto possível a questão acima. Para isso, façamos antes uma comparação entre a finalidade da Igreja e a do Estado.

A Igreja é uma sociedade constituída pelos fiéis do mundo inteiro unidos pela obediência ao Papa e aos Bispos, tendo por missão essencial a salvação eterna de toda a humanidade. A sua finalidade é, pois, conduzir os homens à bem-aventurança eterna, felicidade suprema e fim último de cada homem. O Estado é a organização política da nação, isto é, da sociedade civil unificada pela autoridade com o fim de realizar a felicidade temporal dos indivíduos reunidos nessa sociedade.

Há uma só Igreja, portanto, que transcende do espaço e do tempo e prolonga-se até a eternidade. O dogma da comunhão dos santos nos ensina que a Igreja gloriosa, no Céu, é a mesma Igreja padecente no Purgatório ou militante na Terra. Quanto aos Estados, há tantos quantas sejam as nações espalhadas pela face do Globo. Os Estados surgem, transformam-se, desaparecem segundo as vicissitudes da História, apresentando tipos os mais diversos.

Tanto a Igreja quanto o Estado (isto é, os Estados) visam fins necessários ao homem. Mas é bem de ver que o fim colimado pela Igreja é muito mais nobre, muito mais elevado, infinitamente superior ao de cada Estado. Todo homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, e depois gozá-lo eternamente no outro. Pela Igreja e na Igreja o homem conhece, ama e serve a Deus em

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LEGENDAS:
- São Tomás de Vilanova dando esmola – Bartolomé Esteban Murillo, 1678. Museu de Belas Artes, Sevilha, Espanha.
- Pela caridade, a Igreja fez ver em cada homem um irmão remido pelo sangue de Cristo. Isso não podia deixar de pôr um termo à escravidão, tal como era entendida pelos antigos pagãos.
A César o que é de Cesar
– Pedro Paulo Rubens, 1612. Fine Arts Museum of San Francisco, EUA.