MEMÓRIA

CINZAS QUE CHORAM

Paulo Roberto Campos

2 de setembro de 2018 – mais um dia trágico de nossa história! A tragédia do incêndio que reduziu a cinzas o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, deu ensejo a inúmeras aplicações metafóricas à situação nacional. Também conhecido como Museu Nacional, ele foi residência do Rei Dom João VI e dos nossos Imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II no Rio de Janeiro, bem como o local onde a Imperatriz Dona Leopoldina assinou o decreto de nossa Independência, no dia 2 de setembro de 1822.

Incontáveis brasileiros viram, no desleixo com que esse memorável edifício era tratado pelos últimos governos esquerdistas, o desejo de incendiar a própria lembrança da gloriosa história deste País de esplêndido passado. Restam-nos as cinzas que choram. Pranteamos a perda inestimável, pranteamos o desprezo por nossas tradições, pranteamos a absurda preferência por exposições psicodélicas, extravagantes, pornográficas e até blasfemas — como a recente e escandalosa Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira — para as quais governos desperdiçam rios de dinheiro.

Como é de conhecimento público, o Museu Nacional é administrado pela direção da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), composta atualmente por filiados do PSOL e do PCdoB. Aparelhado assim por esses partidos marxistas, o histórico edifício encontrava-se praticamente abandonado, sem manutenção básica, apesar dos recursos da União (cfr. “Gazeta do Povo”, 5-9-18). O trágico incêndio reflete o que poderá ocorrer em todo o País, se ele voltar a ser governado pela esquerda. Conforme declarou o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, o palácio arruinado representa “um símbolo acabado dessa imensa destruição que políticos, homens públicos, intelectuais e outros vêm empreendendo, há décadas, contra o edifício da brasilidade” [vide p. 15].

Nesse mesmo sentido, o jornalista Juan Arias publicou artigo intitulado Mais que um incêndio, um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo (“El País”, 3-9-18), no qual adverte: “O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio, e com ele 200 anos da história do Brasil, foi mais do que um incêndio. As chamas são o triste símbolo de um país que abandona a espinha dorsal da ciência, da cultura e da arte para privilegiar uma política mesquinha de pequenos interesses pessoais dos que deveriam ser os guardiões da maior riqueza de um país, que é a memória da sua cultura”.

Entretanto, apesar do desaparecimento desse grandioso símbolo, devemos confiar na Providência Divina. Do alto do Corcovado, o Divino Redentor poderá regenerar não apenas o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil; e fazendo-o ressurgir das cinzas, torná-lo-á ainda mais glorioso do que no passado. Voltaremos a ser a verdadeira Terra de Santa Cruz, livres de qualquer influência comuno-bolivariana e da presente “revolução cultural”, de certo modo ainda mais avassaladora do que a de Mao Tsé-Tung.

Em memória da época de esplendor do Palácio Imperial de São Cristóvão, transcrevemos a seguir alguns trechos do excelente livro Revivendo o Brasil-Império, de Leopoldo Bibiano Xavier (Artpress, 1991). Salta aos olhos, nestes exemplos, o contraste entre Monarquia e República; entre o Palácio São Cristóvão e o Palácio do Planalto.

O Palácio do Imperador está aberto a todos

Todo o mundo, sem exceção, podia ser facilmente admitido à presença do Monarca [Dom Pedro II], não se precisando para isso nem de vestuário apropriado, nem de bilhete especial, nem de qualquer declaração ou outra formalidade, e muito menos de empenhos de políticos ou de gente do Paço. Bastava apresentar-se em palácio, declinar o nome, que era lançado num grande livro, e penetrar naquelas salas abertas a todos. Benjamim Mossé afirma:

“Cada um pode apresentar-se como quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser recebido por Sua Majestade. O mais humilde negro, em chinelos ou pés descalços, pode falar ao Soberano”.

Escragnolle Dória, conhecido historiador e escritor, confirma:

“Era só chegar e esperar a sua vez, certo de ser atendido. Cada qual trazia o seu interesse, e dava o seu recado sem vexame, na sua gramática. O Imperador costumava referir-se a essas audiências públicas como receber a minha família brasileira.

“Certa vez, falava ao Imperador uma mulher de cor, já idosa, cabeça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vestido de chita, sapatos e meias usados. Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao Soberano, e no perturbado da exposição deixou cair papéis, sem dúvida de apoio à modestíssima pretensão. Apanhou-os o Imperador, restituiu-os, continuou a ouvir por muito

(continua)

LEGENDA:
- A Imperatriz Dona Leopoldina assinou o decreto de nossa Independência no dia 2 de setembro de 1822